NO SEGUNDO TURNO DE AVENIDA BRASIL E DAS ELEIÇÕES, QUANDO POLÍTICA NÃO SE MISTURA COM RELIGIÃO

Estávamos num restaurante boteco, daqueles que têm TV, a novela Avenida Brasil no ar mostrava o padre corrupto aprontando com sua comparsa Carminha, líder religiosa do pau oco. E ouvi, na minha frente à mesa, o padre carioca, das mais cultas cabeças de nosso clero, comentar entredentes: “É porque é a religião Católica. Com as outras não fazem, porque judeu processa, persegue até o fim dos tempos. Muçulmano mata!”. E disse um “mata!” firme, cortante.

Sem fazer juízo de valor sobre as religiões citadas, fiquei pensando naquele ímpeto de revolta do padre. Concluí que é por isso mesmo que “me ufano” de ser católica. Na minha religião buscamos o entendimento, a conciliação,  o perdão. Não saímos por aí chutando símbolos religiosos alheios, agredindo com truculência, ganhando no grito, na intimidação. E, no início de nossa missa, a primeira coisa que nos é pedida é o reconhecimento de nossas culpas. A auto-crítica. Que assim também seja com os erros de nossa religião, quando eles existem.

Nossa religião Católica já julgou demais, condenou demais, queimou em muitas fogueiras, inundou muitos rios com sangue, em nome do poder e de políticas expansionistas.

Hoje vemos outras religiões fazendo praticamente a mesma coisa. E de modo igualmente primitivo. Repetindo a nossa História. Na sofreguidão por maiores territórios, por maior poder. Pretendendo impor sua “verdade”.

É a repetição do antigo erro de se misturar Estado e religião. Por isso o Estado brasileiro teve a sabedoria de ser laico em sua origem constitucional.

Por isso é indecente misturar política com religião.

Por isso os tribunais regionais eleitorais e também o TSE deveriam e poderiam estar mais atentos a esse espetáculo escancarado a que assistimos, pasmos, de políticos que, na ânsia de emplacar no segundo turno, misturam cartilhas religiosas a seus “projetos de governo”.

É indecente, é criminoso, é anticonstitucional.

Sou católica e muito me honra a mansidão de meu povo de fé. A tranquilidade com que acatamos as críticas aos nossos tropeços e a coragem para refazer os passos e corrigi-los.

Aplaudo as críticas do novelista João Emanuel Carneiro, na medida em que possam ser construtivas.

Insto a Cúria, a Arquidiocese, o Conselho dos Bipos a se manifestarem junto ao autor esclarecendo o muito mais que isso que a Igreja Católica é no Brasil, país que ela abraça com fé, esperança, caridade há mais de cinco séculos, desde o primeiro beijo, que o primeiro religioso deu, na primeira praia brasileira, em que um missionário católico aportou.

Ao longo desse tempo são milhões de pobres, doentes, idosos, desvalidos, crianças, aflitos, desassistidos, que tiveram e têm tido no manto da Igreja Católica o conforto, o afago, o abrigo, o alimento físico e espiritual.

Nossos projetos sociais são reais, têm nome e endereço conhecidos. São multiplicadores. Servem inclusive de base de sustentação e viabilização a vários projetos sociais oficiais do governo em seus três níveis, municipal, estadual e federal.

Não preciso ficar mencionando a obra do saudoso dom Helder Câmara, a Pastoral do Menor e tantos outros, porque são tantos e tantos outros e não é esse o propósito.

Insto o autor João Emanuel a que, nesta semana final de Avenida Brasil, considerando o impacto, para o bem e para o mal, que uma obra cultural de massa possa ter, em nome de uma postura crítica sensata e justa, abra uma janela, uma cena, um momento que seja, nessa sua bem engendrada história, para mostrar a outra face.

Uma outra face da Igreja Católica, que não é a sombria. É clara, iluminada, generosa e verdadeiramente cristã. A maior face.

Desde já, penhoradamente, eu, católica, mas não carola, agradeço ao autor.

9 ideias sobre “NO SEGUNDO TURNO DE AVENIDA BRASIL E DAS ELEIÇÕES, QUANDO POLÍTICA NÃO SE MISTURA COM RELIGIÃO

  1. Edward Gibbon dizia que a religião é o refúgio do crédulo, um instrumento eleitoral nas mãos do político, fonte de riqueza nas mãos do religioso e, principalmente, motivo de risos para os filósofos. Ele estava certo e, pelo visto, alguns políticos brasileiros, especialmente aqueles que se apoiam no Malafaia, deveriam ler um pouco mais antes de tentar usar a religião como instrumento eleitoral num Estado laico.

    Nossa Constituição Federal impede propaganda que fomente a divisão do país em campos antagônicos irreconciliáveis. Mesmo assim alguns pastores seguem impunes ao pregar a separação dos “puros” (machos e fêmeas) dos “impuros” (gays) ou defender a “purificação” do país. O Estado é laico e, portanto, candidatos a cargos públicos deveriam ser impedidos de disputar eleições quando empregam a religião para construir suas carreiras ou para difundir o ódio religioso e o medo de contaminação dos “impuros” para ganhar eleições. O problema, cara jornalista, não é os pastores e alguns políticos abusarem, mas o Ministério Público Eleitoral e a Justiça Eleitoral não tomar providências para normalizar a disputa eleitoral.

  2. Parabéns à Hildegard pela sensibilidade diante de uma mensagem tão errada sobre a Igreja Católica, é muito fácil julgar o que se acha sem conhecer realmente o fato julgado. Como membro da Igreja Católica, também faço parte de projetos sociais sem retorno financeiro algum, em hospitais, abrigos e penitenciárias, muitas vezes fazendo o papel que o Estado deixa de cumprir. Novamente reforço meus cumprimentos à senhora Hildegard.

  3. Querida jornalista

    Como católica praticante achei bem interessante seu comentário, embora pouco profundo. Até peço permissaão pra copiar seu texto quando diz “Ao longo desse tempo são milhões de pobres, doentes, idosos, desvalidos, crianças, aflitos, desassistidos, que tiveram e têm tido no manto da Igreja Católica o conforto, o afago, o abrigo, o alimento físico e espiritual.

    Nossos projetos sociais são reais, têm nome e endereço conhecidos. São multiplicadores. Servem inclusive de base de sustentação e viabilização a vários projetos sociais oficiais do governo em seus três níveis, municipal, estadual e federal”.

    O que é verdade mas queria só dizer-lhe que nem é suficiente provocar o autor da novela a mostrar a outra face da Igreja que é, SIM, ILUMINADA PELO ESPIRITO SANTO, acolhedora de todo pobre, inclusive o “pobre que não conhece a Deus, que pode ser até muito rico de poder e saber, ou de bens materiais, essa sim é a igreja fundada por Jesus Cristo.

    Digo-lhe, ilustre jornalista, que nem precisa você “INSTAR A CNBB OU QUALQUER OUTRO SETOR DA IGREJA” para se explicar, amiga, porque humildemente eu entendo que a minha (nossa) Igreja só se explica na experiência de fé (e estamos justo começando o Ano da Fé ).

    Experimente você tb pela via da Oração, da Palavra de Deus e da Eucaristia, viu, querida?

    Não tenha medo de ser carola. É melhor entrar no céu “carola” do que se perder no vazio por não querer sê-lo.

  4. Acho que não existem países 100% laicos, Hilde.
    Nos EUA, lê-se a Bíblia em posse de presidente, o hino britânico chama a Deus, em Portugal o governo pede licença à Igreja para abolir feriados santos. O Estado Brasileiro é laico com fortes tendências cristãs. Há vários indícios disto. O Brasil é laico no sentido de aceitar a pluralidade de credos e a livre manifestação, mas não no cerne de suas instituições, sejam jurídicas, políticas, militares, midiáticas etc.

  5. Achei pertinente o conteúdo do texto publicado, mas gostaria de ressaltar que, além da Igreja Católica, as correntes protestantes sérias, se sentiram enxovalhadas no episódio que uma personagem, que se dizia cristã, tira a roupa diante do altar.
    A personagem passou todos os capítulos se dizendo cristã, arrependida (direito de todos), e no final, para não terem problemas com as correntes protestantes, criaram uma igreja fictícia.
    Achei desonroso colocarem o padre como picareta pois gente sem caráter existe em todas as religiões, contudo, há muito tempo as correntes sérias do protestantismo vêm sendo pisoteadas pela novelas.
    Como disse, o judeu processa, o muçulmano mata! Não vejo fazerem isso com outros segmentos religiosos. O padre é sempre o bobo, o pastor é sempre o ladrão e as religões afro são as que detém toda a sabedoria.
    Ah, não posso esquecer que a emissora sempre as 18hs cria novelas que engradecem o espiritismo…
    Não quero brigar, mas pela primeira vez vi alguém levantar a voz sabiamente para defender a fé cristã.

  6. Ufa! Finalmente concordamos! Sou católica, batizada, crismada, mas me casei na Igreja Brasileira, como se fazia antes da lei do divórcio no país. Comecei a me encrencar quando batizei meus filhos – faltava a certidão de casamento. Mas consegui, debaixo dos panos. Padres? Conheci de todos os tipos. Transparentes (o dominicano frei Xico). Fedendo à naftalina com suas negras vestes e idéias antiquadas. Muitos enchendo os bolsos e as contas bancárias para causar brigas entre os herdeiros (filhos mesmo) depois da morte. Sem falar naqueles que procuram a Santa Madre Igreja para não ter de dar satisfação de suas tendências sexuais. E hoje os que se transformam em showmen para dizer que cantam para cuidar de seus rebanhos. Que Deus os ajude!!! E poucos, como aquele pequenino da cabeça chata, que viveu o Evangelho conforme o Pai quer. Grande dom Helder. Que falta nos faz…

  7. Brilhante jornalista Hildegard,
    realmente maravilhoso seu comentário sobre o personagem da novela Avenida Brasil. Não podemos deixar que tratem assim a nossa Igreja Católica, a nossos padres com dedicação total, com a vida consagrada, tratados de forma a denegrir a imagem desses religiosos.
    Como católica ficamos felizes quando alguem pública, como você, sai em defesa de tão importante assunto.
    Parabéns e que DEUS A ACOMPANHE SEMPRE.

  8. Parece até que foi uma simples coincidência, mas não conhecia o seu blog na página R7… fiquei com a impressão de que você já não está mais sob a “proteção” dos evangélicos e que, agora, pode falar abertamente que é CATÓLICA como eu. Cheguei aqui através da busca da verdade a respeito de uma reunião em um Hotel nas Cataratas do Iguaçú, onde o ex-presidente FHC fez uma palestra para “investidores” que querem “comprar” o Brasil, através de uma nova rodada de “privatarias tucanas”… E descubro uma jornalista que é capaz de sensibilizar-nos com um tema espiritual e SEMPRE ATUAL, colocando sua opinião clara e firmemente, sem ser grosseira ou arrogante. Confesso-me grato pela oportunidade de conhecê-la mais de perto, agora que posso acessar o seu site pessoal sem duvidar de sua condição de independência religiosa e que pode ter afetado algumas de suas teses anteriores, mas me perdoe se estiver sendo injusto (como disse, eu não conhecia seu trabalho até aqui). Peço a todos que tiverem a oportunidade de ler esse meu comentário, que sejam complacentes comigo. A partir de agora, sempre que visitar essa página, terei em mente que se trata de uma jornalista isenta, “tarimbada”, qualificada e confiável em sua busca da verdade, pois esse seu comentário, nesse tópico, valeu para mim como um “atestado de idoneidade” jornalística. PARABÉNS!

  9. Boa tarde.
    Creio que a primeira distinção a ser feita, neste caso, é a de erros dos fiéis (ou dos dirigentes) e erros da religião. Me parece que você mesma cometeu a confusão.
    A religião cristã e a Igreja Católica, enquanto conjunto de preceitos morais, não tem “erros”. Ora, se cremos na existência do Deus Trino e na persistente presença de Jesus Cristo ressuscitado em Sua Igreja (a Católica), não podemos crer que esta Igreja (notar a letra maiúscula), enquanto voz do Deus Vivo na Terra, possa errar em seus valores transmitidos.
    Observe também que utilizei “nós cremos” porque você também se disse católica.

    A confusão é praticada já quando, lá no começo do artigo, você escreve um parágrafo iniciado por “Nossa religião Católica já julgou demais…”. A despeito do fato de que os, assim chamados, “erros” da Igreja Católica são muito malcompreendidos (cruzadas, inquisição, etc), qualquer falha que se tenha apresentado na história da Santa Igreja cometida por seus dirigentes humanos (como o caso dos Bórgia, por exemplo) jamais podem ser designados com “erros da igreja”.
    O próprio uso dos termos ilustrativos “queimou em muitas fogueiras” e “inundou rios com sangue” é um vício adquirido nas aulas anticlericais de história. Outras “potências” mataram bem; a comparação não é dificil de se traçar.

    Então para você, a Igreja Católica “impôs uma verdade”? É muito esquisito uma católica igualar a Verdade propagada pelo Evangelho (primordialmente difundido pela Igreja Católica) com as (falsas) “verdades” contidas nas demais manifestações religiosas.

    Minha sugestão para o dramaturgo seria a de que ele desse a devida punição para o padre corrupto. Que ele fosse destituído de suas funções e afastado pelos seus superiores. Mas duvido que ele seja capaz de fazer tal justiça. Duvido que ele ou seus patrões regridam na empreitada de difamar e desacretidar a Igreja.

    Não dá para esperar menos que isso das novelas, com todos os seus valores anticristãos.

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