No rastro do ódio semeado, surge uma trilha rumo a um Brasil na contramão da felicidade

As pessoas se assustam com a crescente onda de obscurantismo no Brasil. A truculência que arrebata nosso cotidiano, em todos os campos de relações, nos estádios de futebol, discussões de trânsito, desavenças de vizinhos, pequenas discórdias do cotidiano, que antes seriam resolvidas com um aperto de mão ou um desaforado palavrão, daqueles ‘caseiros’, hoje resultam em violentas agressões morais e físicas, até em morte.

Esquadrões de trogloditas musculosos, cheios de endorfina para brigar (e não para amar), são arregimentados, bastando uma compartilhada de Facebook, e vão às dezenas, centenas, aos milhares, barbarizar nas finais de campeonato, em manifestações políticas, discotecas ou bares da madrugada. São hordas e hordas de acéfalos tatuados, deformados pelos anabolizantes proibidos, tanta musculatura que são obrigados a andar meio curvos, fazendo lembrar os antepassados pré-históricos, pré-Civilização, da Idade da Pedra.

Some-se a isso o fenômeno de uma religiosidade exacerbada, que se expande por todo o nosso território, se sobrepondo a qualquer razoabilidade, como se retornássemos aos tempos dos catequistas de índios e negros, inquisidores e reformistas, tentando impor como única a sua fé, nesta Nação historicamente diversa de credos e, por esse motivo – explicavam no passado os antropólogos – amena e cordial.

Imposição também de um jornalismo político corporativo, que serve não à verdade, à notícia e ao público, mas aos interesses do mercado financeiro, às empresas transnacionais, aos seus próprios investimentos e ambições.

Jornalismo pautado pela ausência de controvérsias, gerando um Brasil de animosidades, avesso às diferenças, preconceituoso, elitista. Trilhamos um perigoso caminho rumo ao pior radicalismo de direita, à face do atraso, na contramão de todas as conquistas e possibilidades de progresso, harmonia, felicidade e futuro.

Tal jornalismo não há de querer assumir a autoria do estrago, que com inconsequente competência urde agora. Porém, a onda bolsonarista cresce com perigosa intensidade, e ela não é filha apenas da irresponsabilidade dos tucanos, também tem mãe bem conhecida…

O poder da grande mídia é muito grande, se comparado ao dos Sem Mídia ‘fracos e oprimidos’. O poderoso não admite comentário nem contestação. E o que temos visto hoje, nesses tempos de vacas magras nas comunicações, em que o mercado de emprego é reduzidíssimo? Jornalistas da grande imprensa processando companheiros da pequena imprensa e da mídia virtual e, por força de suas possibilidades bem superiores, invariavelmente vencendo as causas, levando seus colegas a venderem os poucos bens e a promoverem crowfundings nas redes sociais para arcar com as altas somas das sentenças proferidas pelo Judiciário.

Na época opressiva da ditadura isso seria inimaginável. Havia tal senso de classe, fervor corporativo de tal forma solidário, que seria impensável abandonar um companheiro em posição desfavorável. Que dirá pensar em processá-lo. Eram raros os casos de trairagem no meio jornalístico. Um deles foi-me relatado por Samuel Wainer.

Protagonista dos fatos dos anos 60, dono da Última Hora, que apoiava o governo Jango, Samuel era acusado pela concorrência de ir contra a lei, pois estrangeiro não podia ter jornal.  Com o golpe, para não ser preso Samuel refugiou-se na embaixada do Chile, no Rio de Janeiro. O que foi divulgado por Ibrahim Sued em sua coluna social, denunciando a ilegalidade de Samuel, “um judeu da Bessarábia”, e que por isso deveria “ir para o paredón” – alusão irônica ao comunismo de Fidel Castro – transmito conforme ouvi de Samuel.

Samuel Wainer, de quem me tornei amiga já na fase final de sua vida, inteligência brilhante, foi meu editor na revista Status, onde eu fui sua frila,
e salvou-me de um assalto em casa, mas isso é papo para outra conversa nossa

 

Passada aquela tempestade de 64, finda a ditadura, Sued e Samuel se reencontraram e este – já envelhecido e sem poder – perguntou a Ibrahim, ainda no auge de sua glória: “Por que você fez isso comigo? Você se dizia meu amigo, frequentava a minha casa…”. E ouviu: “Samuel, fui menino de Nova Iguaçu, e aprendi que balão, quando está caindo, a gente tasca”. Fiquei chocada.

Poucos anos depois, com a morte de Samuel, a família publicou sua biografia. Corri para ler as referências a Ibrahim. Só elogios. Samuel, que deixou filhos e netos, conhecia bem a ira rancorosa dos poderosos da mídia…

Moral dessa postagem: quem já viveu um Brasil de perseguições, denúncias, delações e caça às bruxas não deseja ver a tragédia se repetir.

14 ideias sobre “No rastro do ódio semeado, surge uma trilha rumo a um Brasil na contramão da felicidade

  1. UM DOCUMENTO HISTÓRICO
    A sentença assinada pelo juiz Sérgio Fernando Moro, da 13.ª Vara Federal de Curitiba, que condenou o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva a nove anos e seis meses de prisão pelos crimes de corrupção passiva e lavagem de dinheiro, além de uma pena acessória de sete anos de inabilitação para o exercício de cargos públicos, constitui um importante documento do processo de consolidação da democracia no País.

    O ineditismo da peça condenatória – a primeira proferida contra um ex-presidente da República pela prática de crimes comuns – já seria, por si só, razão suficiente para atribuir-lhe a devida adjetivação histórica. Trata-se de um marco incontrastável do primado da igualdade de todos os cidadãos perante a lei, um dos pilares democráticos consagrados pela nossa Constituição.

    Sabedor da repercussão que sua sentença tem no presente e terá no futuro, Sérgio Moro cercou-se de cuidados que dizem muito sobre o seu senso de responsabilidade. Todos os pontos da sentença, do relatório do longo processo até a fixação de penas, foram minuciosamente descritos e motivados, para eliminar dúvidas de quem quer que leia a peça.

    Ao longo das 238 páginas da sentença, não foram poucas as atitudes do réu – e não apenas dele, mas também de seus representantes legais e de seus partidários – que foram classificadas por Moro como graves o bastante para ensejar a decretação de sua prisão preventiva no curso da ação penal. Houve ali orientação para a destruição de provas, ameaça ou coação de testemunhas e mobilização da militância do Partido dos Trabalhadores (PT) e dos assim chamados “movimentos sociais” para a prática de atos públicos com o único objetivo de tumultuar o bom andamento do processo. Entretanto, Sérgio Moro, acertadamente, decidiu com prudência e, a certa altura, optou pela condução coercitiva de Lula da Silva, uma medida severa, sem dúvida restritiva da liberdade, mas longe de privar o réu dessa mesma liberdade.

    O mesmo cuidado pautou o comportamento do magistrado ao permitir que o condenado recorra da sentença em liberdade. “Considerando que a prisão cautelar de um ex-presidente da República não deixa de envolver certos traumas, a prudência recomenda que se aguarde o julgamento pela Corte de Apelação antes de se extrair as consequências próprias da condenação”, decidiu Sérgio Moro.

    Já o Partido dos Trabalhadores, em nota oficial, abusa da imprudência ao classificar a condenação do chefão do partido como uma “medida equivocada, arbitrária e absolutamente ilegal”. Sérgio Moro é acusado de ser “um juiz parcial”, que age a serviço dos “meios de comunicação” e do “consórcio golpista”, os inimigos imaginários do PT que não seriam capazes de aceitar a “trajetória de sucesso de Lula na Presidência”. Este é pintado como vítima de “um caso típico de lawfare”, vale dizer, uma implacável perseguição política por meio do uso indevido de recursos jurídicos.

    Evidentemente, trata-se da rançosa cantilena da vitimização que ressoa como música nos ouvidos da militância petista, mas que não resiste a uma leitura sóbria da sentença proferida por Sérgio Moro.

    Antes de condenar Lula a quase dez anos de cadeia, o magistrado detalha, didática e minuciosamente, os episódios de todas as fases do processo e enumera todos os elementos fáticos, testemunhais e indiciários que formaram a sua convicção para a imputação da pena. A tão propalada “ausência de provas” fica reduzida a mero discurso político, um subterfúgio ante a fragilidade da defesa jurídica do ex-presidente.

    Na sentença, fica cabalmente demonstrado que a cobertura triplex no Guarujá, bem como a milionária reforma do imóvel para atender às necessidades de Lula e de sua família, constituíram “vantagens indevidas em um acerto de corrupção” entre o ex-presidente e a empreiteira OAS. Sérgio Moro reserva dezenas de páginas para esmiuçar as artimanhas usadas para ocultar a transferência da propriedade do imóvel, incluindo a análise de fartas provas documentais e periciais apresentadas pelo MPF.

    No futuro, quando arrefecerem as paixões, a sentença do juiz Sérgio Moro haverá de ser lida como um registro da vitalidade do Estado Democrático de Direito em um período particularmente conturbado da história do Brasil.

    editorial: O ESTADO DE SÃO PAULO

  2. A colunista se esquece de fazer seu mea-culpa, creditando a barbárie cotidiana somente ao lado contrário ao seu; empobrece, assim, qualquer tentativa retratar a situação real em que vive nossa sociedade. O inferno somos todos nós, cara-pálida!

  3. parabéns pelo excelente texto……….que as cabeças boas deste país, saibam interpretá-lo.

  4. Pingback: No rastro do ódio semeado, surge uma trilha rumo a um Brasil na contramão da felicidade, por Hildegard Angel – JF Clipping

  5. Compartilhando mais um dos seus brilhantes textos! Só espero que traga luz à todos que se derem ao trabalho de ler! Pois tudo que você descreve, é a mais pura verdade!E está acontecendo em baixo do nosso nariz..todo dia….toda hora! Grande abraço.

  6. O problema é que ao brasileiro foi deixado como herança ser sem história, e quando citada, com sinais trocados. Se se fizesse como ocorre na Alemanha, onde todos os alunos de todos os anos discutem seu passado recente nazista, aqui se teria pessoas mais conscientes do seu papel no dia a dia quando ao agir com os outros, mesmo com os que pensam diferentes. Mais ainda, nas redes sociais fica difícil saber quem pensa por conta própria ou quem pensa segundo os interesses de quem paga para ele “pensar”.

  7. Hildegar neste texto expõe com muita clareza como o nosso caminho no Brasil está sendo construído pelo ódio instilado pelo jornalismo da grande mídia, sem as necessárias controvérsias, fazendo com que sintamos ser natural em nossas relações sociais a animosisade, o elitismo e o preconceito!! Abre assim caminho para todos os tipos de radicalismos próprios da direita, não nos deixando ver sequer uma luz no final obscuro do túnel!! Mas, temos de persistir: a LUTA CONTINUA!

  8. Hildegard, precisamos urgentemente de um choque de ética em nosso convívio. Isso passa pela reforma do governo e do sistema político. Vivi a época da ditadura ainda criança , até a juventude. O que estamos passando hj é inimaginável como nação. Vivemos problemas econômicos causados por ladrões, fomos roubados. O estado do Rio de Janeiro está com a folha de pagamentos salariais atrasada e o noticiário nos traz que o ex governador presidiário e sua cúmplice, não é esposa porque faz parte da quadrilha, tem R$ 250.000.000, 00 ( isso mesmo duzentos e cinquenta milhões de reais) em barras de ouro!!!! O ex presidente bandido tem R$ 9.000.000,00 em plano de previdência privada no Banco do Brasil, pasmem. Um dos aportes, de sete milhões e quebrados, feitos de uma só vez em 2014, no governo da bandida. E o nosso parlamento assombrado com a denúncia de outro membro da quadrilha, de nome esdrúxulo, Joesley!!!! Pegou o Presidente da República na garagem do Palácio. TEMOS E MERECEMOS UM BASTA. O BRASIL CONTINUA MESMO SEM GOVERNO.

  9. É uma boa reflexão d Hilde, mas no terceiro parágrafo ha um equívoco dos grandes.
    A senhora compara o trabalho missionário catequista à babel de religiões do mundo de hoje e sua praxe. Os missionários de outrora estavam simplesmente cumprindo o mandado do Senhor : ” ide e fazei discípulos meus todos os povos”. É um reducionismo e rótulo terrível afirmar que todo catequizador da época era inquisidor.O bem que eles fizeram nunca é levado em consideração pela maioria dos historiadores e ditos ” intelectuais”

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