NESTE SÁBADO, UMA HISTÓRIA DE FAMÍLIA

Em sua coluna (que sempre leio) de hoje em O Globo, com muita propriedade, Jorge Bastos Moreno ensinou que os dois mais ilustres filhos de Curvelo foram Adauto Lucio Cardoso e seu irmão, Lucio Cardoso.

Complementando, peço vênia ao Moreno (já que estamos em tempos de STF) para acrescentar à informação que a filha mais ilustre foi Zuzu Angel.

Os três, por sinal, nascidos do mesmo tronco da mesma árvore.
Adauto e Lúcio eram filhos de Nhanhá.
Zuzu, a Zuleika, era filha de Pedro.
Nhanhá e Pedro eram irmãos.
Zuzu, Adauto e Lúcio, o Nonô, como era chamado na família, eram primos-irmãos.
Zuzu amava Nonô, que amava Zuzu, que não amava Adauto, pois Adauto era udenista, lacerdista, apoiou o golpe dos militares. Daí houve a cisão familiar. Adauto se arrependeu (como Lacerda também), quando viu que os militares não entregaram o poder aos civis, depois de tomá-lo, como era esperado (assim, Lacerda, golpista vocacionado, julgava que chegaria ao trono do Brasil, já que pelo voto perderia para JK, cuja vitória em 1965 eram favas contadas).

Ao contrário, os militares no poder trataram de apertar o torniquete do Congresso, cassar Lacerda, JK e que tais. Caiu a ficha de Adauto e ele fez o belo gesto no STF, relatado por Moreno. Ficou bem no retrato da História. E Zuzu, naturalmente, admirou e louvou o gesto de seu primo-irmão. Mas cristal trincado, vocês sabem, é difícil de restaurar. Sobretudo quando, devido a esse mesmo golpe, se perde um lindo filho, na flor da juventude, da beleza, da inteligência, da bondade e do vigor dos mais belos ideais.

Zuzu perdeu o filho e deu a vida para que outras mães não perdessem os delas. E isso foi nos anos do pior e mais cruel dos ditadores, o Garrastazu Médici. Anos em que todos se calaram, se curvaram, paralisados, petrificados e silenciados pelo medo. Por isso se diz que ela  foi a “mãe da Praça de Maio brasileira”, pois naqueles anos negros do Médici, que se manteve no poder de 1969 a 1974, Zuzu Angel foi das raras vozes a se levantarem e a única voz de mãe a fazê-lo.

Depois que ela começou sua luta e suas denúncias, caiu o Ministro da Aeronáutica (foi o único ministro militar a cair na ditadura por esse tipo de denúncia) e nunca mais se soube de tortura ou morte na Base Aérea comandada pelo famigerado brigadeiro João Paulo Burnier.

Zuzu, como se dizia em Curvelo, era fogo na roupa.

(De meu livro Comédia desumana, em tempo de “fabricação”)…

Transcrevo abaixo a notícia da coluna de Moreno que motivou este post:

JORGE BASTOS MORENO

Coluna Nhenhenhém  17/11/2012

Um gesto absolutamente inútil

Quando o ministro Lewandowski levantou-se da cadeira e saiu da sessão em protesto contra o relator Joaquim Barbosa, a comunidade jurídica do país pensou estar diante, novamente, de um gesto de ousadia e coragem que marcou a história da Suprema Corte e do próprio país: ao ver o STF aprovar, contra um único voto, o seu, a lei de censura prévia, o então ministro Adauto Lúcio Cardoso, numa encenação cinematográfica, levantou-se da cadeira, arrancou a toga e a jogou no meio do plenário, como o pantaneiro costuma fazer com as redes de pescar, às margens do Rio Cuiabá. E nunca mais voltou.
Mas Lewandowski não fez isso. Prevalece, portanto, ainda, na literatura jurídica do país, o vaticínio do mestre Evandro Lins e Silva, no livro-depoimento “O salão dos passos perdidos”: “A verdade, parece-me, é que a atitude do ministro Adauto Lúcio Cardoso foi única, continua única, e provavelmente nunca se repetirá”.
Lewandowski saiu, mas se esqueceu de não voltar.

Cultura

A título de curiosidade: Adauto, antes, já havia renunciado à presidência da Câmara, em protesto contra as cassações dos mandatos de seis deputados. Foi um dos dois mais ilustres filhos de Curvelo (MG). O outro foi o escritor Lúcio Cardoso, seu irmão, cujo centenário está sendo comemorado agora. Lúcio, homossexual assumido, foi a grande paixão de Clarice Lispector.

 

3 ideias sobre “NESTE SÁBADO, UMA HISTÓRIA DE FAMÍLIA

  1. Minas e suas interceptações decisivas na História do Brasil.
    Os outros estados que nos desculpem, mas temos midas! Uma lástima que a geração mais recente, da qual faço parte, tem se distanciado de nossos valores republicanos.Abraços, Hilde.

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