Na véspera do Dia de Reis, o Brasil perdeu sua rainha Lily!

Profissãozinha complicada essa que não nos permite o momento do chorar, do recolhimento da dor. Tudo que não gostaria de estar fazendo agora era escrever. Mais ainda: escrever sobre uma notícia que me entristece tanto. Na verdade, estou devastada. Perdi hoje minha amiga Lily. Grande amiga, grande parceira, companheirona solidária, grande dama. Única. Lily não precisava de muitas palavras, nem para conhecer uma pessoa nem para se fazer conhecer. Ela dizia as frases precisas, essenciais, ia direto ao ponto, e sempre com sutileza e inteligência. Por isso, em honra à sua memória, vou tentar ser, como ela, precisa. Vou precisamente dizer que ela era essencialmente boa, e a última preocupação que manifestou ao seu mordomo-secretário Edgar, antes de entrar no coma, foi: “Foram entregues os presentes de Natal da Casa São João Batista da Lagoa?”. Ela se referia aos brinquedos para as crianças da creche que patrocinava, de forma tão discreta e carinhosa. Assim como distribuía, no Natal, brinquedos para as crianças do Cerro Corá, logo atrás de sua casa no Cosme Velho. No ano passado, havíamos combinado que eu a ajudaria a fazer um imenso lanche para crianças carentes, 300 crianças, nos jardins do Cosme Velho, onde seriam instalados vários brinquedos ao ar livre, a árvore de Natal, e ela, Lily, junto com todas as suas amigas, serviriam as crianças sentadas à mesa comprida, até vestindo avental. E Papai Noel chegaria distribuindo presente pra todo mundo. Lily adorou a ideia. Queria porque queria fazer. Chegamos a chamar a decoradora. Mas aí ela caiu doente, adiamos o projeto para outra ocasião. Era inacreditavelmente solidária. E um dia ainda contarei a vocês de como ela, quando soube que eu estava a caminho do jornal O Globo, de onde fora demitida, para assinar a papelada da minha demissão no Departamento de Pessoal, insistiu em me levar em seu carro, com motorista, auxiliar de motorista, o carro da segurança, todo seu séquito usual, e ao chegar ao jornal fui recebida não como quem partia mas como quem ingressava em grande estilo na empresa: na entrada do prédio, pelos funcionários e até diretores, informados no trajeto pela segurança de que a sra. Roberto Marinho estava comigo. Uma despedida cordial, amorosa, elegante, e ainda com uma história incrível como essa pra contar. E que um dia hei de contar direito, não hoje, porque minha cabeça voa pra lá e pra cá, pensa nos grandes e bons momentos que tivemos juntas, em seus gestos extraordinários, nas festas lindas, nos jantares que jamais conseguirão copiar, na maneira tão particular de recepcionar os amigos e na coragem de ser diferente. Contarei dos bastidores do almoço para Dilma Rousseff, no momento mais crítico da campanha, quando toda a elite virava as costas, hostilizava a candidata, num movimento coletivo de horror, quase asco, construído por uma campanha mentirosa e difamatória. Lily foi audaciosa, enfrentou o desafio de dar a Dilma, naquele momento, o espaço para se mostrar, se colocar, apresentar propostas. Abriu para ela as portas do casarão emblemático do Cosme Velho, reuniu senhoras de expressão, 50 delas. E no dia seguinte vimos, pela primeira vez até então na campanha, todos os jornais da grande imprensa do país promoverem, em uníssono, uma cobertura completamente positiva de um evento em torno de Dilma. Do primeiro parágrafo à última linha. Sem esquecer os sites, em coberturas em tempo real, os telejornais, as revistas. Lily autorizou o credenciamento a todos os profissionais, sem criar dificuldades sequer para a concorrrência das Organizações Globo do marido que tanto amou, admirou e, em todos os momentos, minutos, segundos, até o último respirar de sua vida, reverenciou. Aliás, em todos as ocasiões em que era elogiada por algum gesto de grandeza, atribuía a ele o mérito do aprendizado recebido. Um exemplo: “Se Roberto recebeu aqui Fidel Castro, por que não eu receber a Dilma?”, justificou ela assim a iniciativa do almoço. Bem, queridos, estou cansada, emocionada e tudo o que quero agora é subir para o meu quarto e rezar para Lily. Acredito, firmemente, que nesses momentos de passagem as orações são fundamentais. Ajudam a criar um caminho iluminado e pleno, intenso. Geram uma espiritualidade acolhedora e amorosa. Assim quero e espero Lily está sendo recebida no Céu. Amém!

lily3 Na véspera do Dia de Reis, o Brasil perdeu sua rainha Lily!

Lily Marinho e o beijo do neto querido, Anthony, em sua última recepção no Cosme Velho, um jantar em torno dos príncipes da Dinamarca, Joachim Cristian e Marie Cavaller (francesa). Como sempre, ela usava espetada no vestido a boutonnière da Légion D’Honneur, que ela usava nas grandes ocasiões em que estava com personalidades de sua França querida, da qual por toda a vida guardou as qualidades de elegância, savoir faire, cultura e o delicioso sotaque…

(Foto de Sebastião Marinho)

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