A roupa que a imagem de Nossa Senhora da Glória volta a vestir hoje, e apenas hoje, para a missa de Guilherme Guimarães

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Nossa Senhora da Glória do Outeiro vestiu-se hoje de alta costura de Guilherme Guimarães, roupa assinada por ele em 2011, para a missa de sétimo dia do costureiro, às 16h30m, organizada carinhosamente pelos provedores Carlos Alberto e Beth Serpa

Mais do que a doença, o sofrimento imposto pelas dores, a deformação física própria do câncer do fígado, com os inchaços da barriga, exigindo punções cada vez mais frequentes para ter algum alívio, os meses que antecederam a morte de Guilherme Guimarães foram, até o último minuto, um penoso aprendizado da realidade.

Aprendeu a suportar o duro silêncio de quem ele mais esperava palavras de conforto; a distância de quem ele mais julgava receberia presença e afago; e se surpreendeu com a frieza de quem mais contava obter generosidade.

Nada disso dobrou o temperamento daquele que sempre valorizou o próprio orgulho. Antes de morrer, legou parte de seus bens – um apartamento e antiguidades – para reembolsar quem lhe garantiu recursos para o tratamento. O outro imóvel, no segundo andar do mesmo prédio do Russel, deixou em testamento, contemplando João, o porteiro de seu prédio, através de seu filho João Vitor, um menino adorável com corte de cabelo “Príncipe Valente”, juntamente com sua fiel costureira de São Paulo, Evanise, e a contramestra do Rio, Mimosa, que o acompanhou durante toda a enfermidade, e até o fim.

O orgulho de Guilherme desempenhou papel importante nesse enredo final de sua vida. Neste último ano, seu aspecto já debilitado, ele mudou seu único número de telefone, dificultando o contato com as pessoas. Seria para evitar perguntas incômodas sobre a doença? Não sei. Fato é que restringiu seu relacionamento a um grupo menor. Não abordava com ninguém o tema saúde. E se, por acaso, alguém lhe perguntasse, respondia com evasivas. Dos problemas financeiros, também se esquivava.

Mesmo para alguns daqueles que se dispunham a ajudar, era difícil entender o motivo de o costureiro não poder custear seu tratamento. Guilherme sempre cobrou alto por seu trabalho. Um vestido podia custar até 30 mil, uma noiva até 80. Certo que esses preços envolviam os valores muito elevados dos bordados, tecidos importados, mão de obra especializadíssima, acabamento único, a criação e a assinatura dele, que não têm preço. E ele, quando apresentava o orçamento da roupa, discriminava os gastos, um por um. No entanto, um profissional da moda vive do dinheiro que entra no dia a dia. E Guilherme praticamente não produzia, já há um ano, no ateliê do Rio, enquanto o de São Paulo ele já havia encerrado. Se o dinheiro para de entrar e as despesas continuam, óbvio que se vai à bancarrota. Sobretudo sem seguro de saúde, enfrentando um câncer.

Por outro lado, Guilherme colheu, apesar de poucos, alguns gestos extraordinários. Sem nunca ter tido cozinha em casa, almoçava em restaurantes todos os dias ou pedia delivery. Com a doença, passou a necessitar de uma dieta caseira especial, preparada com carinho. O que sua amiga Carmen Mayrink Veiga jamais lhe deixou faltar. Mesmo quando Carmen foi hospitalizada, o tupperware do almoço continuou a ser enviado da Rui Barbosa para a casa de Guilherme, religiosamente, de segunda a sábado. E assim foi até a sexta-feira, 16/12, de sua internação no Hospital da Lagoa…

Carmen jamais mencionou o assunto com quem quer que seja. E se algum dia me perguntarem se há exemplos de legítima nobreza e alta aristocracia na sociedade brasileira, eu certamente lembrarei deste, de Carmen Mayrink Veiga.

Houve alguns gestos nobres que não passaram das intenções, e outros que se efetivaram em ações concretas, como os de Idinha Seabra Veiga e Sandra Haegler, que, sabedoras das dificuldades, enviaram cartões amorosos junto com suas contribuições. Antonia Frering, ao ser avisada de que Gui-Gui precisava ser hospitalizado e desejava o Hospital da Lagoa ou o de Ipanema, ambos da rede pública, imediatamente acionou Bebel Niemeyer, casada com o grande neurocirurgião Paulo Niemeyer, mas a intervenção do casal Niemeyer não foi necessária, pois por outras vias já havia sido aberta vaga para o costureiro no Hospital da Lagoa.

Joy Garrido, Gisella Amaral, Maria Célia Moraes, Glorinha Paranaguá, Therezinha Pittigliani e Yara Andrade foram visitá-lo no hospital, com todo o carinho, algumas mais de uma vez. Elas o encontraram, miúdo, com sua cabecinha branca se destacando de uma colcha felpuda, imitando pele de onça.

Nas últimas horas de lucidez, Guilherme, em seu leito, enroscado na manta de oncinha, queixou-se comigo de fortes dores. Perguntei onde eram, e ele disse, com voz muito baixinha, apenas um sopro: “no corpo todo”. Queixou-se de frio na cabeça. Propus um chapéu, ele disse: “horror”.  Perguntei se poderia ser um xale, ele repetiu: “horror”. Preferia sentir frio a macular o senso estético.

Nos dois últimos dias de vida, esteve inconsciente.

Foi Yara Andrade quem apoiou Mimosa nas providências finais, correu para o hospital na madrugada da morte, na véspera de Natal, 24 de dezembro, cuidou da cremação, arcou com ela, conciliou assuntos que precisavam ser conciliados.

As cinzas de Guilherme Guimarães serão jogadas diante do Copacabana Palace. Pedido feito por ele ao porteiro João.

Se vocês virem um homem forte, moreno e modesto, levando pela mão um lindo menino com os cabelos do Príncipe Valente, jogando cinzas no mar de Copacabana, diante do Copacabana Palace, saibam que é a mais preciosa oferenda que a vaidosa Iemanjá poderia receber neste fim de ano.

Cinzas de alguém que cobrirá a Rainha do Mar com vestes únicas de alta costura, no máximo de elegância e esplendor: o costureiro Guilherme Guimarães!

15 ideias sobre “A roupa que a imagem de Nossa Senhora da Glória volta a vestir hoje, e apenas hoje, para a missa de Guilherme Guimarães

  1. Amiga Hilde
    Suas palavras me fizeram chorar, pela generosidade dos que assim o foram e pelas cinzas na Praia de Copacabana, Deus e Iemanjá com certeza o acolherão com carinho e amor

    • Sempre gostei de ler tudo que vc escreve porque deixa fluir tudo que a alma fala. Chorei! Que Nossa Senhora esteja com vc SEMPRE!

  2. Hilde querida.Tive roupas lindas feitas por ele.Rezarei por ele eternamente e não me esquecerei deste menino levado e chic demais.Não soube, se não teria feito uma visitinha.Adorava ele. Além de cliente eu era amiga.Adorava conversar .
    Saudades imensas.Regina Ferraz

  3. Lindo texto! Que bom saber que os verdadeiros amigos dele foram fiés até o fim e o ajudaram quando mais precisou.
    Fiquei passado com a morte do grande Guilherme Guimarães.
    Que ele descanse em paz.

  4. parabens querida , lindo ! que bom saber que ainda temos pessoas generosas . Que ele descanse em paz ! beijos

  5. Hilde muito lindo e nobre gestos elegantes destas damas da nossa sociedade que muitos acham que são fúteis. Dona Carmen ,Yara Andrade e os Serpas, Antônia sempre linda por dentro e por fora, enfim, e suas palavras relatando os fatos, obrigado pelo info.

  6. Só você para fazer uma homenagem tão linda a um ser humano tão especial .
    Fiquei emocionada . Mais uma vez me curvo à beleza da sua narrativa.
    Um beijo grande e um 2017 de esperanças renovadas . Saudades.
    Alda Soares

  7. Hilde querida, belíssimo texto, vindo do coração, e linda homenagem a quem, como sua mãe, elevou a alta costura brasileira a níveis internacionais. Beijo do Affonso Massot.

  8. Hilde, linda narrativa de homem elegante, exemplo de realeza.
    Pena ter sofrido, a vida não poupa ninguém, cada 1 c sua cruz, mas maravilhoso amigas de sempre estarem atentas a ele, seu estado e suas necessidades.
    Q Deus o tenha acolhido c Amor e carinho.
    Amemi

  9. HILDEGARD ANGEL,VC É SEMPRE MARAVILHOSA E MAJESTOSA EM SEUS TEXTOS POR MAIS QUE A SITUAÇÃO SEJA DELICADA VOCÊ TRANSMITE NOS COM CLAREZA E ELEGÂNCIA A ESSÊNCIA DO MOMENTO.QUE DEUS O ABENÇOE GUILHERME GUIMARÃES E A RAINHA DO MAR O RECEBA DE BRAÇOS ABERTOS EM SUA MORADA DE ENCANTOS.

  10. Hilde, há anos não lia um texto seu. Sou seu fã e sempre lia suas colunas no Globo e em outros jornais. Mas, depois de muitos anos, te reencontro através desse texto maravilhoso (e triste, é claro) sobre os últimos dias do inesquecível Guilherme Guimarães. Você, como sempre, foi perfeita e impecável do início ao fim descrevendo o que havia acontecido com o GuiGui. Do início, com Nossa Senhora da Glória magnificamente vestida por ele, e ao final, com as cinzas jogadas para a rainha Yemenjá, vc sintetizou com um sublime glamour (e tristeza, é claro) os últimos momentos desse grande brasileiro. Por favor, receba meus parabéns!

  11. Querida Hilde, bom dia! Não sabia que o grande Guilherme Guimarães havia falecido! Por isso te enviei uma mensagem confirmando o lançamento do livro dele dia 16/01 – que vc estava planejando com tanto empenho e carinho. Parabéns pelo belo e emocionante texto que vc merecidamente escreveu sobre ele. E vc como sempre – amiga generosa até o fim. Bjs de muitas saudades e crescente admiração.

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