A merecida homenagem a Itamar Franco, o presidente ético

Enquanto esperávamos o início da solenidade, sentados à volta da mesa da Sala da Presidência do Clube de Engenharia, Augusto Franco, o irmão do saudoso ex-presidente Itamar Franco, lembrou um diálogo entre eles dois: “Comentei com meu irmão Itamar, enquanto caminhávamos na rua, que ele havia sido Presidente da República, enfrentara tantos aborrecimentos, tanto cansaço, e que resultado ficou daquilo tudo? E ele me respondeu: “Ficou que estamos aqui os dois e, se alguém gritar “pega ladrão”, a gente não olha pra trás, continua a caminhar com nossas cabeças erguidas”.” Este era o Itamar

A homenagem a Itamar estava há muito sendo articulada, em contatos através de seu amigo Djalma Morais, presidente da Cemig. Mas Itamar, por um motivo ou outro, adiava sempre. Até que, no período da campanha eleitoral, no ardor da captação de eleitores, o ex-presidente telefonou para o presidente do Clube de Engenharia pedindo para que a homenagem fosse adiada para depois da eleição! Este episódio foi lembrado, em seu speech, pelo presidente do Clube, Francis Bogossian, enfatizando o aspecto ético da atitude do político que, em vez de capitalizar a homenagem em prol de mais votos, preferiu não utilizá-la em seu benefício eleitoral…

Foi uma solenidade assim, amiga, fraterna, quase familiar, com todos de alguma forma procurando lembrar algum “bem feito” de Itamar (já que “mal feito” virou o atual eufemismo para coisas muito piores). E esses “bem feitos” lembrados eram incontáveis. Fábio Tostes Mascarenhas, do clã Rezende Tostes-Mascarenhas, da Zona da Mata Mineira, o comandante Celso Franco, primo do ex-presidente, a jornalista juizforana Leda Nagle, o filho de Djalma Morais, Rodrigo Morais, representando o pai que se encontrava em missão da Cemig em Portugal, o diretor superintendente do Museu Mariano Procópio, Douglas Fasolato, representando também o prefeito de Juiz de Fora, Custódio Mattos, o empresário Alfredo Marques Vianna, o deputado estadual mineiro por Juiz de Fora, Bruno Siqueira, e seu pai, o ex-deputado federal Marcello Siqueira. Todos irmanados naquela tarde de homens de terno, com a postura e a compostura que o momento bem pedia e, ao mesmo tempo, uma tarde simples, em torno de um homem que soube ser simplesmente grande…

Mineiramente impecável, o senador Aécio Neves não falhou e compareceu através de uma carta, em que lembrou a tradição desenvolvimentista de Minas, seus grandes engenheiros, desde Christiano Ottoni, deputado federal do Império, construtor de ferrovias. Tudo isso para ele lembrar que Itamar Franco, engenheiro formado em Juiz de Fora, voltou-se para a política justamente “motivado pelo drama social da periferia pobre de sua cidade”. Enalteceu sua defesa dos interesses do povo de Minas e do Brasil, como foi no caso da tentativa da privatização de Furnas e na recuperação do controle da Cemig, e concluiu: “sempre convergimos quando estavam em jogo os interesses de Minas e os interesses do Brasil“. Bonito, bonito…

Mas tocante de fato foi o depoimento ao vivo do ex-deputado Marcello Siqueira, que fiz questão de anotar em meu bloquinho (adoro esses hábitos “retrô”). Marcello, ex-presidente de Furnas e da Copasa, que trabalhou com Itamar desde 1950, revelou o que a grande maioria daquela plateia formada por 99% de engenheiros desconhecia: “Itamar Franco, até hoje, foi o único engenheiro Presidente do Brasil. Advogados foram uns 30. Houve vários militares, um médico, um sociólogo, um líder sindical, mas engenheiro só Itamar“. Com este dado importante da formação de Itamar, Marcelo procurou explicar o impulso desenvolvimentista dado por ele ao país, a partir de 1994, “quando passávamos por um período de estagnação e calmaria, com aquela maquininha remarcando os preços nos supermercados de manhã, de tarde e à noite”. “O Governo Itamar reverteu esse processo, quando a inflação ultrapassava 60% ao mês e 2% ao dia”, prosseguiu. Então, Siqueira fez uma pausa e perguntou, olhando para a plateia: “Será que, com aquela maquininha a marcar os preços, Fernando Henrique Cardoso teria todo êxito que teve? Lula teria? E a presidente Dilma?”…

Leal ao companheiro, Marcello Siqueira empenhou-se em colocar os pontos nos iiis, segundo a visão do Itamar saudoso. Disse: “O Plano Real teve início com o ministro Eliseu Resende. Só no final de seu governo, Itamar chamou o sociólogo”. Reiterou: “O embrião do Plano Real sempre teve o patrocínio de Itamar Franco, para quem os pobres não poderiam ser penalizados. Depois, vieram os ministros FHC, Ricúpero, Ciro Gomes“. Siqueira voltou ao tema dos Genéricos, dando seu testumunho de que a Lei dos Genéricos é oriunda do Governo Itamar Franco, criada pelo seu ministro da Saúde, Jamil Haddad, “um dos homens mais honrados que conheci”, sublinhou…

Lembrou também alguns dados que bem evidenciam a personalidade do homenageado que, quando prefeito de Juiz de Fora, indignou-se ao ver a Companhia de Saneamento quebrar a rua em que ele morava com sua mãe, dona Itália, para instalar ali canos de fornecimento de água. Não deixou: “A cidade toda está sem água. Não há de ser a rua em que eu moro a primeira a ser servida dela”. A mesma seriedade tinha dona Itália, que jamais, em todo o seu tempo como “primeira-mãe” de Juiz de Fora, usou um carro oficial como transporte…

Por tudo isso, ao encerrar a solenidade, e depois de fazer a entrega de uma placa comemorativa à família Itamar Franco, por intermédio de seu irmão ali presente, Augusto Franco, o presidente Bogossian, do Clube de Engenharia do Brasil, anunciou o propósito de fazer erigir um busto do ex-presidente da República engenheiro, para ser colocado no hall de entrada do histórico Edifício Edison Passos, na Avenida Rio Branco, sede do Clube. Merecidíssima homenagem…

itamar franco A merecida homenagem a Itamar Franco, o presidente ético

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