Aniversário de um príncipe de verdade, numa fazenda de conto de fadas…

Catito Peres, o empresário Omar Resende Peres, é amigo de infância do príncipe Francisco de Orléans e Bragança. Catito é dono de uma fazenda com histórias que remontam aos tempos imperiais, brasão na entrada, retratos dos antigos proprietários com títulos de nobreza, relatos de passagem por lá do imperador. É a Fazenda Guaritá. O príncipe Fancisco, assim como todos os seus irmãos, costumavam brincar naquela fazenda quando eram crianças e moravam por aquelas bancas, em vassouras. Então, vejam a ideia boa que teve o Catito: convidar a família toda de Francisco para, juntos, comemorarem os 60 anos dele na Fazenda Guaritá, com quartos para todos, apesar dos incontáveis irmãos, dos múltiplos filhos, do mundão de netos. Sem esquecer as babás. Mas não é só o casarão do Catito que é grande, o coração é imenso, e a generosidade, ainda maior.

Assim sendo, para tornar a celebração inesquecível, o anfitrião quis o melhor do melhor. The best of the best. Contratou o chef francês Laurent Suaudeau para preparar o jantar, tendo como referência o livro “Os banquetes do imperador”, que reúne a coleção de menus de dom Pedro II, guardada na Biblioteca Nacional. Inclusive o cardápio do Baile da Ilha Fiscal. Catito e Laurent escolheram o mesmo jantar servido ao imperador há 150 anos na cidade mineira de Leopoldina, berço da família Resende Peres.

Para a sobremesa, Omar “Catito” contratou os serviços do chef Dominique Guerin, que é seu sócio na boulangerie carioca Guerin.

E tudo foi descontração, brincadeiras, alegria e sabor de infância, cortesia, cordialidade, entre amigos de fato e grandes cavalheiros de verdade.

A. FRANCISCO EUDES E OMAR PERES FERNANDO PEDRO ORLEANS E BRAGANCA

 Omar Resende Peres entre os irmãos príncipes Orléans e Bragança: dom Francisco, dom Eudes, dom Fernando e dom Pedro

A. ELEONORA ORLEANS E BRAGANCA

 Dona Eleonora de Orléans e Bragança de Ligne exibe o livro com os cardápios dos banquetes da Família Imperial Brasileira, que inspirou o jantar

A. EUDES FRANCISCO MERCEDES ORLEANS E BRAGANCA

 Dom Eudes e Dom Francisco com Mercedes de Orléans e Bragança

A. FATIMA E PEDRO ORLEANS E BRAGANCA

Fátima e dom Pedro de Orléans e Bragança

A. DANIELA SEADE ANTONIO PAULO SEABRA DA VEIGA

 

Daniela Seade e Antonio Paulo Seabra Veiga

A. LENISE FIGUEIREDO OMAR RESENDE PERES ELEONORA ORLEANS BRAGANCA (1)

 

Lenise Figueiredo, Omar Resende Peres e princesa Eleonora de Ligne

A. CHEF. DOMINIQUE GUERIN CHEF. DE CUISINE LAURENT SUAUDEAU

 

Os chefs Dominique Guerin e Laurent Suaudeau, o preferido de Lily Marinho em seus jantares no Cosme Velho

A. MARIA ELISABETH ORLEANS E BRAGANCA PABLO TRINDADE

 

Maria Elisabeth de Orléans e Bragança e Pablo Trindade

A. DIOGO LO FIEGO MARIA EDUARDA RESENDE PERES

 

Diogo Lo Fiego e Maria Eduarda Resende Peres

A. FERNANDA PIGNITARI SIMONE RORIZ ANNE MARIE LOPES DA CUNHA

 

Fernanda Pignatari, Simone Roriz e Anne Marie Lopes da Cunha

A. GRACA E FERNANDO ORLEANS E BRAGANCA

 

Graça e Fernando Orléans e Bragança

A. MARIA TEREZA MARIA ELISABETH ANIVERSARIANTE FRANCISCO ORLEANS BRAGANCA VALESKA SILVEIRA

 

Dom Francisco de Orléans e Bragança com as filhas, Maria Tereza e Maria Elisabeth, e Valeska Silveira

A. MARITZA E ALBERTO DE ORLEANS E BRAGANCA

 

Maritza e Alberto de Orléans e Bragança

A. MIRIAN CINTRA GODINHO JACQUELINE PERES

Mirian Cintra Godinho e Jacqueline Peres

A. ELEONORA ORLEANS E BRAGANCA MICKEU DE LIGNE

 

Príncipes Francisco de Orléans e Bragança, Eleonora e Michel de Ligne

A. ANNE MARIE PAULO HENRIQUE LOPES DA CUNHA

 

Anne Marie e Paulo Henrique Lopes da Cunha

A. MARIA TEREZA ORLEANS E BRAGANCA MARCOS PILLI

 

Maria Tereza de Orléans e Bragança e Marcos Pilli

A. ANIVERSARIANTE FRANCISCO ORLEANS BRAGANCA OMAR RESENDE PERES

 

O anfitrião, Catito, com o aniversariante, Francisco, e suas filhas gêmeas, diante do bolo com a coroa imperial

A. MARCELO PERES FRANCISCO ORLEANS E BRAGANCA

 

Marcelo Peres e  príncipe Francisco de Orléans e Bragança

Fotos de Armando Araujo

 

Réquiem para Maria Cláudia Bonfim

Morreu hoje a jornalista Maria Claudia Mesquita e Bonfim. Foi colunista Social do Diário de Notícias, Colunista de Moda, assessora de imprensa no Governo Wellington Moreira Franco, assessora da Academia Brasileira de Letras. Mulher de grande classe, elegante, culta, uma aliada da moda brasileira, que ela muito apoiou, juntamente à então primeira-dama do Rio de Janeiro, Celina Moreira Franco, por ocasião do movimento Moda Rio. Tinha um grande círculo de amizades em vários ambientes: cultura, jornalismo e a chamada alta sociedade. Uma pessoa, ela sim, altamente estimada. Rest In Peace, querida Maria Cláudia.

Cesgranrio lança série Anos Radicais com reflexão sobre universo jovem

Com a presença do presidente da Fundação Cesgranrio, professor Carlos Alberto Serpa, foi lançada no Artflex Botafogo a série para a televisão “Anos Radicais”, produzida pelo Núcleo Audiovisual do Centro Cultural da  Cesgranrio, com direção de Alexandre Machafer, autoria de Décio Coimbra, produção de Marisa Monteiro e assistência de direção de Ricardo Soares.
Destinada ao público adolescente e exibida em quatro capítulos, a série aborda o decisivo rito de passagem que o estudante enfrenta na escolha de uma profissão e trata de modo realista temas como família, escola, amigos e a descoberta do amor, sob as perspectivas de jovens de diferentes contextos sociais.
O elenco foi escolhido entre os alunos das oficinas de atores da fundação Cesgranrio.
Serpa saudou os convidados apresentando o projeto, concretização de um antigo sonho:

– Há anos pensávamos em desenvolver um filme ou uma série para estimular a reflexão sobre novos caminhos no processo de formar e educar as jovens gerações. Hoje, é um orgulho estar aqui para assistir a “Anos Radicais”, que não é o fim deste trabalho, mas sim o início de uma atividade para a Fundação.

Agora, a próxima etapa: negociar a exibição de Anos Radicais com os canais de TV.

No elenco, nomes que todos haveremos de ouvir falar muito, e esperamos que em pouco tempo: Hugo Carvalho (Mateus), Gustavo Tavares (Cristiano), Eli Ferreira (Bruna), Cynthia Senek (Fernanda), Christian Villegas (Diego), Ingrid Conte (Laís), Fernanda Martinez (Darlene), Ana Carolina Rainha (Vânia), Ronaldo Gontijo (Roberto), Val Perré (Cláudio).  Palmas para eles!
Fernanda MartinezFernanda Martinez
Isa Kristin Isa Krisitin
Eli Ferreira Eli Ferreira
1° oficina de atores da Fundação Cesgranrio
Serpa e os artistas que cursaram a Oficina de Atores da Fundação Cesgranrio
Etiene Mascarenhas Etiene Mascarenhas
Alexabdre Machafer, Arnaldo Niskier, Carlos Serpa e José DiasAlexandre Machafer, Arnaldo Niskier, Carlos Alberto Serpa e José Dias
Carolina Simões e  Monique CuriCarolina Simões e Monique Curi
Alexandre Machafer, Carlos Serpa e o autor do filme Decio CoimbraAlexandre, Serpa e o autor, Décio Coimbra
Decio Coimbra, Cynthia Senek e Alexandre MachaferDécio Coimbra, Cynthia Senek e Alexandre Machafer
Ana Carolina RainhaAna Carolina Rainha
Paula Almeida, Beth Serpa e Marisa GomesPaula Almeida, Beth Serpa e Marisa Gomes
Tatiane Albernaz e Jessica ObaiaTatiane Albernaz e Jéssica Obaia
Hugo CarvalhoHugo Carvalho
Ricardo Soares , Daniela Carneiro. e Ronaldo GontijoRicardo Soares, Daniela Carneiro e Ronaldo Gontijo
Gustavo TavaresGustavo Tavares
Fotos Marcelo Borgongino

Com aval de Clarice, Drummond, Bárbara, Secchin, eu lhes apresento o novo acadêmico carioca: Sérgio Fonta

O auditório do último andar do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro fervilhava, já praticamente lotado 20 minutos antes da hora marcada para a solenidade. Subi no elevador com dois imortais, Antonio Carlos Secchin e o bom amigo Murilo Mello Filho, ainda mais elegante e mais magro, de paletó pérola ajustado. Era a posse do escritor ator Sérgio Fonta na Academia Carioca de Letras, sucedendo à vaga do escritor astrônomo Ronaldo Mourão.

Imortais de academias várias em todas as direções. Eu tinha sentado à minha direita o Arnaldo Niskier, da ABL, e à esquerda o Mello Filho, que contabiliza cinco colares acadêmicos. Com sua postura ereta, coluna sempre rija, Murilo tem vigor físico e intelectual para portar quantos colares acadêmicos lhe destinem.

Piñon, Domício, Torres, Sandroni, Camila Amado, Ana Callado, José Dias, Mendonça Telles, Tanussi Cardoso, o ir e vir, o chegar e o procurar lugar de personalidades da vida cultural brasileira é grande. Não havendo mais cadeira na plateia, elas se acomodam nas reservadas aos imortais da casa. Afinal, todos pertencem a alguma academia, mesmo que não à Carioca de Letras, cujo presidente, Ricardo Cravo Albin, está atrasado.

A dramaturga Miriam Halfin, membro da Academia Carioca de Letras, toma a iniciativa de abrir os trabalhos. E assim compõe-se a mesa com enorme prestígio: o presidente da Academia Brasileira de Letras, Geraldo Holanda Cavacanti, o presidente do PEN Clube do Brasil, Cláudio Aguiar, e o presidente do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, anfitrião de todos, Arno Wheling.

O acadêmico Antonio Carlos Secchin faz a saudação ao novo membro. Traça o perfil do jovem talentoso e persistente, que teve em Clarice Lispector a primeira a estimular sua produção literária. Depois veio, imaginem, Carlos Drummond de Andrade. E ainda houve a passagem memorável com Rubem Braga, sabiá que não dava um pio, mas que, com Sérgio, além de piar numa entrevista, presenteou com vários livros de sua Editora Sabiá. Conta Secchin de outros exigentes admiradores da obra de Fonta, como a já saudosa Bárbara Heliodora.

Uma fala leve, colorida, cumprindo amplamente seu propósito, com o brilhantismo próprio do mestre, e que o presidente Albin, da Academia Carioca, chega a tempo de ouvir e aplaudir, justificando seu atraso com o trânsito impraticável do nosso Centro da cidade.

Noite esplendorosa. Cadeiras extras. Silêncio. Mesmo os de pé, no corredor, não se movem, magnetizados, enquanto o novo acadêmico Sérgio Fonta faz seu discurso.

“Não foi um discurso, foi uma poesia”, definiu depois Rejane, mulher do Domício Proença.

Tentei destacar aqui alguns trechos do discurso para vocês, mas é tudo tão bem concatenado, que achei melhor postar na íntegra, abaixo, para quem quiser se deleitar com a leitura boa. Os aplausos vigorosos da plateia da melhor qualidade, ao final do speech, recomendam.

Afinal, lá também estavam os escritores Gilberto Mendonça Telles, Nelson Mello e Souza, Sylvio Lago, Laura Sandroni, Denise Emmer, Marcus Vinicius Quiroga, Godofredo da Silva Telles, Suzana Vargas, Roberto Athayde, Maria Inez Barros de Almeida, Haroldo Costa, a editora Maria Amélia Mello, as atrizes Suzana Faini, Thereza Amayo, Maria Pompeu e Jalusa Barcellos;  o Secretário-Geral da Academia Brasileira de Arte, Victorino Chermont de Miranda, representantes da Funarte, da Sbat, do Instituto Cultural Chiquinha Gonzaga, do Conselho Regional de Administração do Rio de Janeiro, da Academia Luso-Brasileira e da União Brasileira de Escritores.

Com tamanho aval, acredito que vocês lerão, sim, o discurso inteirinho do Fonta.

DISCURSO DE POSSE DE SERGIO FONTA NA ACADEMIA CARIOCA DE LETRAS

Cadeira 14  – Patrono: D. Pedro II  – Sucessão a Ronaldo Rogério de Freitas Mourão

Posse:  Sala Pedro Calmon  –   9 de abril de 2015

Exmo. Sr. Presidente da Academia Carioca de Letras, Ricardo Cravo Albin, ilustres membros que compõem esta Mesa, Srs. Acadêmicos e Acadêmicas que me honram com suas presenças, meus confrades e confreiras da Academia Carioca de Letras, familiares de Ronaldo Rogério de Freitas Mourão, minha mãe, meu irmão, minha família e meus amigos, minhas senhoras e meus senhores, meus colegas do teatro brasileiro – vejo aqui atores e atrizes, autores, críticos, diretores, produtores, cenógrafos, são a minha tribo. Não posso deixar de registrar também a gentileza do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, ao abrir suas portas para esta cerimônia.

E meu agradecimento comovido ao acadêmico, professor, crítico e poeta Antonio Carlos Secchin por sua recepção. Vocês sabem que é uma temeridade falar depois dele, pois seus discursos são sempre brilhantes…

Muito obrigado, Secchin, por suas palavras tão generosas. Igualmente generosos foram aqueles acadêmicos que acolheram na primeira hora a minha candidatura à sucessão de Ronaldo Mourão , plenos de entusiasmo, a incentivar uma caminhada que, em pouco tempo e para minha surpresa, se mostrava viva, estimulante, era um caminho sem volta e promissor, com apoios fortes e solidários vindos de perto e também de longe, a desenhar meus passos de carioca para a Carioca, alguns velhos amigos, outros amigos novos, meus guerreiros e guerreiras – sim, guerreiras, pois elas também estavam lá com suas vozes solidárias e presentes -, a todos e todas que me acolheram com seus votos no início ou no percurso, sempre a minha gratidão.

Mas voltemos nossos olhos para uma outra dimensão. Recordemos os antigos sonhos que envolvem a imaginação de toda criança, quando ouve histórias fantásticas a respeito de mundos que não conhece, habitados por fadas, feiticeiras, reis, príncipes e… magos. Recordemos os contos que começam com aquela frase-chave: “Era uma vez”. Assim eles começavam e assim continuarão pela existência de todos os que ainda estão por vir.

Pois bem…

Senhoras e senhores, era uma vez um telescópio chamado… Alma. Alguns talvez questionem como é possível um telescópio, fabricado pela mão humana, chamar-se alma? No entanto, a verdade é que ele existe e tem o nome de alma, tanto naquele instrumento científico desenhado e projetado pelo homem, quanto naquele homem desenhado e projetado pela vida para descobrir os segredos do universo. O primeiro, aquele de longo alcance, que investiga o céu, teve imenso avanço neste século XXI e um novo modelo foi criado com uma potência nunca vista. Seu nome é mesmo alma, iniciais de Atacama Large Millímeter Array. A-L-M-A. Fica, evidentemente, no deserto de Atacama, no Chile, e é o maior observatório astronômico do mundo, um telescópio de última geração que estuda a radiação produzida por alguns dos objetos mais frios do Universo. No meio interestelar, estes objetos são provenientes de imensas nuvens moleculares com temperaturas de algumas dezenas de graus acima do zero absoluto e também das primeiras e mais longínquas galáxias. Quanta minúcia para encobrir mistérios do Universo… Pois o ALMA os descobre. O nosso Alma também. O nosso telescópio chamado Alma é brasileiro, nascido no Rio de Janeiro, com coração carioca e cabeça nas estrelas. Hoje, mesmo distante da Terra, ele é, foi e continuará sendo chamado de Alma, pois foi com alma que Ronaldo Rogério de Freitas Mourão estudou o Universo. Uma alma repleta de brilhantismo, inteligência e ciência na mais pura essência desta palavra e sobre a qual falaremos em breve. Antes, porém, giremos o telescópio da vida e miremos no túnel do tempo, daqui ao começo de uma Cadeira de no 14, da Academia Carioca de Letras. Quem vemos lá…? O poeta Álvaro Faria, os escritores Paulo Coelho Neto e J. Paulo Medeyros e, meu Deus, um imperador! Ele mesmo, o Imperador D. Pedro II, patrono da Cadeira 14. No entanto, na sutil neblina do passado, ao garimpar o caleidoscópio do tempo, descobrimos o nome de Luis Francisco da Veiga, não lembrado em discursos de posse anteriores, mas, ele, sim, o patrono original da Cadeira 14. Antes de Pedro II. Mais adiante, entenderemos por que. Ao contrário do habitual, quando o empossando fala em ordem cronológica de seus antecessores até chegar à vida e à obra daquele a quem sucede, faremos um pouco diferente. Iniciemos esta rápida viagem, girando o telescópio para trás, um pouco antes de Ronaldo, até chegar à origem de tudo, de seu patrono, e retornar. Álvaro Faria, a quem Ronaldo Mourão sucedeu, além de jornalista, era um trovador. Isso fica bastante claro em alguns livros de sua vasta produção:

Trevo de trovas, a antologia Trovadores brasileiros e um de seus últimos volumes, lançado em 1980, com o simpático título de Troviela. Publica também coletâneas de contos, crônicas, conferências literárias e discursos.

Hoje, que tenho a alegria e o orgulho de ingressar na Academia Carioca de Letras justamente nas comemorações dos 450 anos do Rio de Janeiro, vejo que Álvaro Faria recebeu a Medalha Pereira Passos, comemorativa do 4º Centenário da fundação de nossa cidade, uma feliz coincidência e um vínculo seu com os dias festivos deste 2015 tão carioca.

Álvaro Faria sucede a Paulo Coelho Netto, cujo pai não é outro senão Henrique Maximiliano Coelho Netto, ou, simplesmente, Coelho Netto, autor de obras célebres na literatura e no teatro. Seu filho Paulo, nascido em Campinas, integra uma família de sete irmãos, entre eles João, o popular jogador Preguinho do Fluminense Football Club, e Violeta Coelho Netto, famosa cantora lírica. Deve ser um peso incomum carregar a marca de um pai ícone, seja em que setor for. Coincidência ou não, Paulo só estreia na literatura em 1942, quase dez anos após a morte de Coelho Netto. A partir daí publica perto de 20 livros, inclusive teatro, com a peça Metamorfose. No entanto, é ainda a presença do pai que o cerca. Além de novelas, contos e romances, escreve a biografia documentada de seu pai, os volumes Páginas escolhidas de Coelho Netto e Bibliografia de Coelho Netto. Era um polemista nato e mais uma vez a sombra paterna o envolve, pois no livro Silhuetas, defende a obra de Coelho Netto e ataca seus críticos com unhas e dentes. Escreve muito também sobre o Fluminense, sua paixão, e sobre discos voadores. Foi um dos mais respeitados ufologistas do país.

Paulo Coelho Netto sucede ao escritor J. Paulo Medeyros, ou Paulo de Medeyros, jornalista nascido em Belém, mas radicado no Rio, é um disputado colaborador da imprensa. Nos anos 1920 já escreve para os melhores jornais e revistas. Em seguida, muda-se para São Paulo, mas retorna definitivamente ao Rio após a Revolução de 30. Sem abandonar o jornalismo, transforma-se num bem sucedido contista, cronista, tradutor, historiador, crítico de artes plásticas e de música. Tem grande influência na aproximação Brasil-Argentina com sua tradução de Juan Facundo Quiroga e do primeiro volume da Coleção Brasileira de Autores Argentinos.

Como historiador produz trabalhos de expressão como o volume A missão do General Mitre no Brasil, comemorativo do centenário do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, aqui onde estamos agora, nesta cerimônia de posse. No discurso de saudação a Paulo de Medeyros, seu orador não esconde a emoção quanto ao resgate da figura de Mitre, “para mostrardes, ao fim, aos olhos curiosos do mundo, as mãos honradas de Pedro 2º estreitarem as mãos gloriosas de Mitre, nos salões do Paço de São Cristóvão, na radiosa manhã de 17 de agosto de 1872”. Bem, por um inesperado atalho, chegamos a Pedro II. Mas… um momento: graças aos alfarrábios cujas comportas nos foram abertas, a nosso pedido, pela secretária da Carioca, Maria José, a Peneluc, pinçamos o nome de Luis Francisco da Veiga, o Luis da Veiga, primeiro patrono da Cadeira 14, perdido no limbo do tempo.

Uma parte da explicação está claramente exposta no portal da própria ACL, em sua página na internet. O primeiro nome da Academia Carioca de Letras, fundada em 1926, foi Academia Pedro II e teve sua última sessão pública com este nome três anos depois, no dia 2 de dezembro, quando se comemorava o centésimo quarto aniversário do imperador. A mudança, como conta Othon Costa, presidente no cinqüentenário de fundação da Academia, não teve cunho político e ficou a promessa de preservar a memória do grande monarca dando seu nome para uma das Cadeiras. A escolhida foi, justo, a de no 14. O nome de D. Pedro II legitima qualquer modificação. Mas não se pode colocar Luis da Veiga como alguém que nunca existiu. Segundo Costa, Veiga era uma pessoa de gênio difícil e, trabalhando sob a chefia de Machado de Assis no Ministério da Agricultura, teve uma séria altercação com o genial escritor, insultando-o, fato deplorável. No entanto, faz-se necessário que fiquemos acima da discórdia e ao lado da História. Nascido em 1834 e morto em 1899, o nome de Veiga aparece na oração de saudação feita a Paulo de Medeyros como um jornalista combativo. Veiga escreve também a obra O primeiro reinado e, na Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin, em uma edição de 1863, também aparece seu nome como o autor da introdução ao livro Cartas chilenas, obra atribuída a Tomás Antonio Gonzaga.

A partir deste momento Luis da Veiga encontra seu espaço na memória carioca e, quem sabe, agora sereno, oferece sua cadeira-trono ao monarca que tem uma digna história de vida e reina, para sempre, como patrono de uma Cadeira de no 14.

Não vamos tecer aqui nenhum extenso painel histórico sobre a biografia de D. Pedro II, já por demais conhecida. Vamos nos deter na figura humana, no homem dos livros, no panorama teatral de sua época e na sua paixão pelos… astros. Sim, pelos segredos do céu. Exatamente como Ronaldo Mourão.

É um fardo ser declarado imperador aos cinco anos de idade. Significa perder a infância, possivelmente a adolescência e ser adulto num rosto em que sorrir não é fácil tarefa. Alguém conhece alguma foto ou pintura de D. Pedro II sorrindo? Embora se diga, algumas vezes, que ele esteve no poder durante 58 anos, somadas as datas da abdicação de seu pai, em 1831, até sua deposição, em 1889, é claro que Pedro só assumiu verdadeiramente o império e a liderança por volta dos 21 anos, já mais dono de si mesmo. Mas o sofrimento sombreará sua vida com frequência. Pedro nasce em 1825, sua mãe, a Imperatriz Leopoldina, morre em 1826, seu pai casa-se novamente em 1829, abdica dois anos depois e parte para Portugal. Seu mosaico de perdas não para aí: quando lhe arranjam um casamento com uma princesa europeia que ele sequer conhecia – como era comum nos grandes reinados daquele tempo – para convencê-lo, foi-lhe mostrada uma pintura de Rugendas com a imagem de uma suave e linda jovem. Entusiasmado, Pedro aguarda com ansiedade a Princesa Teresa Cristina de Bourbon-Duas Sicílias, mas, ao vê-la, a tela do artista alemão desprega-se da moldura e cai a seus pés: sua futura esposa era o oposto do que ele vira no quadro. Rugendas talvez tenha sido, sem querer, o precursor do photoshop… Com tutor e aia a dar-lhe educação e estudo noite e dia, a preparação do Príncipe Imperial para Imperador do Brasil foi dura. Em compensação, Pedro é um leitor contumaz, absorve cultura e conhecimento, chega a falar quatorze línguas, entre elas grego, árabe, hebraico, chinês e tupi. Era chamado por José de Alencar de o “Augusto Protetor das Letras” Mas o estigma do sofrimento continua a acompanhar Pedro II: com Teresa Cristina teve cinco filhos, um deles a Princesa Isabel, mas perdeu dois, justamente os homens, o que o deixa arrasado para sempre. Mas eis que entra em sua vida um amor à margem: embora continuasse casado, mantém um relacionamento de trinta anos com Luísa Margarida de Barros Portugal, a Condessa de Barral. Há um livro bastante completo desta personagem concebido pela historiadora Mary Del Priore, recém-eleita para a Academia Carioca de Letras.

Ao começar a exercer o poder, posiciona-se contrário à escravidão, é um monarca discreto, justo e trabalhador, qualidades raríssimas no mercado político de hoje em dia. E mais: procura indicar para cargos políticos figuras de real valor e também combate a corrupção. Não é incrível? Seria hoje matéria para o programa “Fantástico”, da TV Globo… Embora tenha enfrentado importantes conflitos políticos, entre eles a Guerra do Paraguai, é um homem da paz, sabe amar seu povo e sua terra, é extremamente popular e querido. Amante das artes e da ciência, curioso pelas novidades tecnológicas de seu tempo, é o primeiro brasileiro a tirar uma fotografia. Convive com Nietzsche, Victor Hugo, Alexandre Herculano, corresponde-se com Wagner, Pasteur, Graham Bell. Durante seu reinado são criados o Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro e o Colégio Pedro II, ambos vivos e sólidos até hoje. Sempre prestigia também as iniciativas no segmento cênico, estimula o surgimento de vários teatros pelo Brasil, comparece a muitas estréias, frequenta salas também em outras cidades. E também patrocina espetáculos – sem que existisse nenhuma Lei Rouanet – como a peça A confederação dos Tamoios, de Gonçalves Dias, em 1851.

Com a proclamação da República, embora venerado pela população, é deposto sem reação, declarando-se cansado e com uma missão já cumprida. Exila-se primeiro no Tejo e Porto, em Portugal, depois em Paris, onde vive com poucos recursos e morre, aos 66 anos, a 5 de dezembro de 1891. Para 2016 há um atraente projeto de cinema: baseado em escritos do acadêmico José Murilo de Carvalho, o também acadêmico e cineasta

Nelson Pereira dos Santos planeja filmar a vida de D. Pedro II. Vocês já imaginaram que maravilha vai ser isso, com tantos personagens arrebatadores, romances secretos, guerras, golpes, um rei de personalidade singular, com cenas vigorosas ou delicadamente humanas?

Alguns anos antes, ainda reinando no Brasil, D. Pedro II mandou construir um observatório astronômico em São Cristóvão, dirigido pelo cientista Luis Cruls. Muitas vezes durante a noite tomava assento na carruagem real, parava em frente à cúpula do observatório, batia em sua porta e Cruls gritava lá de dentro, interrompendo o trabalho: “- Quem é”? E o imperador respondia com simplicidade e humildemente: “- Luis, aqui é o Pedro…”. Era apenas o Pedro. Em breve, nos melhores cinemas do Brasil.

Giremos novamente e pela última vez este telescópio de longuíssimo alcance, que atravessa a memória, a história e os sentimentos. Posicionemos este instrumento potente num despojado terraço, diante de uma imensa noite clara. Estamos em 25 de maio de 1935, data que marca o nascimento de Ronaldo Mourão. Antes de ser o cientista excepcional, louvado nas mais importantes cátedras do Brasil e da Europa, Mourão, claro, foi criança e nele já moravam a curiosidade e o fascínio por tudo aquilo que transitava pelos céus. Na excelente entrevista realizada, em 2011, pelo escritor e atual presidente do PEN Clube do Brasil, Cláudio Aguiar, para o portal daquela entidade, fica-se sabendo que o pequeno Ronaldo, aos sete anos de idade, a cada novo cometa anunciado, pedia que sua mãe telefonasse para o Observatório Nacional a fim de saber a que horas o cometa apareceria, qual era a sua posição no céu e qual o melhor local para observá-lo . Para Ronaldo Mourão esta vocação sempre foi clara como a via láctea.

Alguns anos após pedir à mãe que ligasse para o Observatório, houve um escritor, conhecido e admirado por todos, na época com um cargo na Casa Civil do então Palácio do Governo, no Catete, que percebeu o diferencial daquele jovem talentoso e resolveu ajudá-lo para uma nomeação como astrônomo-auxiliar do mesmo Observatório. Para isso, este escritor contou com a colaboração de um presidente. Foi assim que o romancista e acadêmico Josué Montello, em 1956, escreveu ao seu amigo Juscelino Kubitschek o seguinte bilhete: “Meu caro Presidente. Este pedido de nomeação de um astrônomo interino sou eu que lhe faço, para ajudar um jovem de dezoito anos que é, no presente, uma das maiores vocações científicas do Brasil. Aos 20 anos, os títulos dele são os da lista em anexo. Vamos amparar esta vocação. O rapaz é pobre – pobre como nós fomos na idade dele. É um pedido que lhe faz o Josué Montello”. Esta foi a única nomeação feita por Juscelino naquele momento. O original deste bilhete, tempos depois, foi dado pelo próprio Montello a Mourão. Quem sabe, um dia, esta pequena preciosidade possa vir a fazer parte do acervo da Academia Carioca de Letras…?

É assim que Ronaldo Mourão pousa de vez no Observatório Nacional, onde, tempos depois, mora até morrer em casa construída especialmente para ele. Ali, no Observatório, inicia seus estudos ligados à astronomia esférica e fundamental, começa a enveredar por suas pesquisas e descobertas até chegar aos primeiros contatos com cientistas europeus e aprofundar os conhecimentos sobre as Estrelas Duplas, que viriam a ser uma de suas marcas registradas.

Fui até lá. Não às estrelas duplas, claro, mas ao Observatório Nacional… Queria sentir a atmosfera onde ele viveu. Fui a São Cristóvão em companhia de Marcelo Bello, o jovem que Ronaldo acolheu como filho, embora tenha tido outros de dois casamentos anteriores. Do final dos anos 1980 para cá, Marcelo foi seu filho de todas as horas, seu secretário, sua companhia em muitos eventos e palestras. E em minha ida ao Observatório, foi o meu guia. Chegamos à vasta área do Observatório que, por pouco, algumas décadas atrás, não foi engolida pela sanha imobiliária que queria transformá-la, em sua maior parte, num imenso condomínio de prédios. Na ocasião, Ronaldo combateu com vigor esta tentativa e venceu ao obter, por decreto oficial, que aquele local era “Patrimônio da Humanidade”. Dentro do terreno do Observatório, vi sua casa, hoje desativada. Ali, do lado de dentro da casa, com uma grande janela, subdivida por basculantes, Ronaldo estudava e escrevia, rodeado por uma imensidão de livros e também de cães, pois gostava de animais. Passeei em torno das inúmeras cúpulas onde, em duas delas, repousam dois telescópios ou, como são chamados por lá, lunetas equatoriais. Na Grande Luneta Equatorial, quase assustadora de tão grande com seus olhos de aço voltados para o céu, Ronaldo pesquisou ininterruptamente, desvendou mistérios, revelou segredos, compartilhou estrelas. Sua presença está em todos os lugares, inclusive no Museu de Astronomia e Ciências Afins, concebido e fundado por Ronaldo em 1985 e que ele fez questão de inaugurar num dia 8 de março para homenagear as mulheres. Em seu interior encontra-se um vitral reproduzindo a figura de “Urânia”, a deusa da Astronomia.

Nos anos 1960 têm início algumas de suas muitas viagens internacionais, já lidando, aqui no Brasil, com as novas tecnologias que iriam incorporar os computadores definitivamente aos cálculos da astronomia. Mas, antes mesmo de se formar, com apenas 17 anos, publica seus primeiros trabalhos na revista Ciência Popular. Posteriormente, recebe os títulos de Bacharel e Licenciado em Física pela Faculdade de Filosofia, Ciência e Letras, da UERJ, e, em 1967, ganha o título de doutor pela Universidade de Paris, com menção “Très Honorables”. Nesta época seus estudos já se concentram nas Estrelas Duplas e em corpos distantes do Sistema Solar.

São incontáveis suas contribuições para a astronomia, em especial no campo das estrelas duplas, dos asteróides, cometas e estudos das técnicas de astrometria fotográfica. Em 1971 descobre uma companheira invisível da estrela dupla visual Aitken 14, confirmada depois por renomados astrônomos europeus. Descobre também diversos asteróides e é o primeiro brasileiro a ter um deles com seu nome: o asteróide 2590, descoberto em 1980, batizado com o nome de Asteróide Mourão.

A partir de seu primeiro livro, seguem-se mais de 100 até o fim de sua vida, uma infinidade de artigos e mais de mil ensaios, o que demonstra sua operosidade, sua energia criativa, sua prodigalidade. Mourão elabora todos os verbetes sobre astronomia e astronáutica do Novo Dicionário da Língua Portuguesa, de Aurélio Buarque de Holanda, e da Enciclopédia Encarta, edição portuguesa da Microsoft, além de coordenar os setores de matemática e astronomia da Enciclopédia Mirador Internacional, publicada pela Enciclopédia Britânica do Brasil. Colabora para revistas e periódicos, entre eles Folha de S. Paulo, Jornal do Brasil, O Globo e o Jornal do Commercio. Trabalha também em rádio e televisão, sempre divulgando tudo que se relacione à Astronomia.

Entre as inúmeras entidades às quais pertenceu, foi membro do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, da Academia Luso-Brasileira de Letras, da Academia Brasileira de Filosofia, membro correspondente da Sociedade Geográfica de Lisboa e, por fim, em março de 2001, da Academia Carioca de Letras, na Cadeira no 14. Ganha inúmeros prêmios, como o Jabuti, na categoria Ensaios, com o livro Astronomia na época dos descobrimentos, e, em 2005, o título “Suprema Honra ao Mérito”, da Universidade Soka, de Tóquio, no Japão. É agraciado com várias comendas, entre elas a Medalha Tiradentes, a Medalha Luis Cruls (aquele de D. Pedro) e a Medalha Austregésilo de Athayde.

Não podemos deixar de ressaltar o intelectual que Mourão foi, além do astrônomo e ensaísta. Para a Revista da Academia Carioca de Letras, escreve diversos trabalhos. No número que comemora os 80 anos da ACL (2006), envia o artigo “A inteligência brasileira e a relatividade de Einstein nos anos 1920” e faz um balanço da pesquisa científica no Brasil desde as primeiras décadas do século XX. No ensaio “Ciência em Balzac”, sua última colaboração para a Revista, em 2013, já na gestão de Nelson Mello e Souza, discorre, em profundidade, sobre Honoré de Balzac.

E Ronaldo Mourão também teve seu “momento Urânia”, a deusa da Astronomia, como já dissemos há pouco, inspirando músicos como Almeida Prado em “Cartas celestes” e Maria Emília Mendonça em “Viagens interplanetárias”, ou poetas como Fernando Py, em “Os anéis de anti-universo”, e o eterno Carlos Drummond de Andrade, no texto “O céu”. Era um apaixonado por Júlio Verne e por poesia, campo em que, muitas vezes, trafega, seja num original de poesias suas que deixou inédito, seja em seu discurso de posse aqui na ACL, quando fez questão de citar poemas de seu antecessor, de Pedro II e de nossa confreira Marita Vinelli, seja em prefácios e apresentações de livros de poetas, como em A equação da noite, da poeta, musicista e astrofísica Denise Emmer– aqui presente -, quando afirma que “(…) poucos poetas, com exceção de Murilo Mendes e Joaquim Cardoso conseguiram em nossa língua esta associação entre o cosmo, a física e a matemática na transmissão de sentimentos às vezes tão abstratos como os próprios conceitos geométricos”. No livro Memórias profissionais de Ronaldo Mourão, em depoimento a Jorge Calife, falando sobre cometas e sobre a fantasia de pegar carona em uma sonda espacial, diz o nosso lírico matemático: “(…) Sobrevoando os mundos azuis de Urano e Netuno, começaríamos a penetrar no frio e na escuridão do espaço interestelar. Em Plutão olharíamos para trás e perceberíamos que o Sol se tornara apenas uma estrela muito brilhante, uma bolinha de luz encolhida, incapaz de nos fornecer qualquer calor. À nossa volta a Via-Láctea desenharia um arco de fosforência pálida, leitosa, marcando os contornos das nuvens de estrelas de nossa galáxia. Nesse ponto teríamos alcançado o nosso destino, o vazio gelado e negro da nuvem de cometas que cerca o nosso sistema solar”. Embora não se dissocie do profissional de astronomia, transparece sempre sua alma de poeta. É sempre o olhar que vem do espaço e se apropria da condição humana.

A verdade é que seria impossível, no âmbito de um discurso, concentrar todas as atividades, conquistas e vitórias da trajetória de Ronaldo Rogério de Freitas Mourão, nem que tivéssemos a força, a consistência e a dimensão de um asteróide…

Alguns talvez possam perguntar em qual esfera nos interligamos, ele, um cientista, um astrônomo, e eu, este escriba saltimbanco que vos fala. Pois, sim, por incrível que possa parecer, nos assemelhamos, com limpidez, em algum ponto luminoso de nossas profissões. Ele, na engenharia do universo, nós, na engenharia do palco, na engrenagem do sonho e de muitos universos, a identificar mistérios, a conviver com astros e estrelas, criadores da palavra e dos atos, de infinitos personagens. Ronaldo Mourão, além do escritor profícuo, era também um grande personagem, não só de sua própria história, mas também da persona que o caracterizava. Haveria alguém mais personagem que o astrônomo Ronaldo, perfeito no tipo sensível, humano, delicado e genuino, com suas suíças, seus cabelos longos e nevados em busca da próxima descoberta? Nós, autores e atores, e também os poetas, sabemos bem o que é isso. Nós, de certa forma, o entendíamos, secreta e docemente, como um mago. Não seria nenhum espanto se, na fantasia dos enredos, o imaginássemos com uma longa capa de cetim às costas, coalhada de pequenas luas, um chapéu em cone e uma vareta nas mãos a reger segredos que, num passe de mágica, se transformariam em mais uma estonteante revelação.

Ajustemos, por fim, o telescópio e foquemos em uma fulgurante estrela nunca vista antes e recém-chegada à luz do céu, desde 25 de julho de 2014. Ajustemos mais ainda o nosso ângulo de visão: agora, sim! Ali está Ronaldo Rogério de Freitas Mourão, de posse real do universo que ele tanto perscrutou, investigou, desvendou e… amou. Ali está ele, finalmente, senhor de seu espaço.

Muito obrigado.

Carioca P S Fonta Abr 2015_0053

O novo acadêmico Sergio Fonta entre Nélida Piñon e Camila Amado

Carioca P S Fonta Abr 2015_0002

Fonta com Heloísa Vinadé e Antonio Gilberto, diretor de Artes Cênicas da Funarte

Carioca P S Fonta Abr 2015_0096 (1)

Com a amiga Suzana Faini, da sua “tribo” do teatro

Carioca P S Fonta Abr 2015_0044Haroldo Costa, o historiador Paulo Roberto Pereira e, atrás, os acadêmicos da ABL Arnaldo Niskier e Antonio Carlos Secchin,

Homenagear Nélida Piñon é o must da temporada e motivos para isso não faltam

 Motivos sobravam para celebrar a escritora Nélida Piñon naquela sexta-feira quase tão adorável e iluminada quanto ela. Havia como boa razão o prêmio “El Ojo CríticoIberoamericano”, conferido a Nélida pela Rádio Nacional da Espanha, e outro bom motivo era sua posse na USP, há duas semanas, na Cátedra José Bonifácio, de Estudos Íberoamericanos, sucedendo a Enrique Iglesias.

A casa dos anfitriões da homenagem, Ronald e Henriqueta Levinsohn, extremamente bem cuidada, conserva-se tal e qual quando foi construída e inaugurada, nos anos 70, e este é seu grande charme.

É uma casa datada em sua arquitetura, na decoração, nos jardins, nas obras de arte que a ornamentam. Isso a faz única e lhe agrega valor especial.

Ela inspira histórias, momentos, pessoas que deixaram seus rastros naqueles ambientes de blindex, aço escovado, pedras e madeiras nobres, persas, santos barrocos, artistas brasileiros modernos, do século 19 e abstratos.

Naquele bar com ótimas safras paira a sugestão dos ecos das conversas de personalidades influentes dos últimos 40 anos e do chacoalhar de seus copos on the rocks.

Cenário bem adequado à verve dos talentos literários presentes, que se distribuíam pelas mesas redondas da varanda em torno da residência: Antonio Torres, Domício Proença Filho, Francisco Weffort, Mary Del Priori, Geraldinho Carneiro, Ferreira Gullar, o médico-escritor Almir Ghiaroni.

Editores para publicar tantos nomes, havia Sonia Machado, Carlos Leal, Paulo Rocco, José Mario Pereira.

Jornalistas Christine Ajuz, Augusto Nunes e Roberto D’Ávila.

O ex-ministro Lampreia, das Relações Exteriores. Os cineastas Luiz Carlos Barreto e Paula Barreto. O médico Jair de Castro, o advogado Roberto Halbouti, o pioneiro da televisão brasileira José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o educador Carlos Alberto Serpa, o precursor do merchandising em nossa TV, Jorge Adib.

Gisella Amaral chega toda florida, no momento em que está sendo servido o cozido com vista para o jardim, parecendo projeto de Burle Marx. Henriqueta Levinsohn me conta que ela mesma orienta o jardineiro a bordar orquídeas nos troncos das árvores, “como fazem os porteiros da rua Garcia D’Ávila”. Uma visão que garante o bom humor para o dia inteiro. Henriqueta é uma doce figura. Nélida também é. Não admira os amigos todos terem acorrido tão prontamente atendendo ao convite. Sem recusas.

Levinsohn Francisco Weffort, Helena Severo, Ronald Levinson e Roberto D'AvilaFrancisco Weffort, Helena Severo, Ronald Levinsohn, Roberto D’Ávila

LEvinsohn Henriqueta Levinson e Beth Serpa 1

 Henriqueta Levinsohn e Beth Serpa

Levinsohn Hildegard Angel e Mary Del Priore

 Hildegard Angel e Mary Del Priore.

Levinson Nélida Piñon e Helena Pedrosa

 Nélida Piñon e Helena Pedrosa

Levinson Antonio Torres e Paulo Rocco

 Antonio Torres e Paulo Rocco

Levinson Beatriz Paredes (Emb. México) e Ferreira Gullar

Beatriz Paredes, do México, e Ferreira Gullar

Levinson Almir Ghiaroni, Roberto Halbuti e Mary Del Priore

 Almir Ghiaroni, Roberto Halbouti e Mary Del Priore

LEvinson Domicio Proença Filho e Sonia Machado

Domicio Proença Filho e Sonia Machado

L

Levinsohn e Nélida Piñon chamam para o cozido

Levinson Soraia Cals, Hildegard Angel e Roberto Halbuti

Soraia Cals, Hildegard Angel e Roberto Halbouti

Levinson Beth Lagardère e Carlos Alberto Serpa

 Bethy Lagardère e Carlos Alberto Serpa

Levinson Carlos Leal e Claudia Levinson

 Carlos Leal e Claudia Levinsohn

 Fotos de Marco Rodrigues

 

Babilônia: a sociedade, para ser dobrada em seus conceitos, não dispensa certa dose de hipocrisia

Postei na quarta-feira no Facebook:

“Mudanças Babilônia serão radicais. Casal de lésbicas, Natália e Fernanda, depois da big celebração festiva da oficialização de casamento, parte em lua de mel e só retorna lá perto do final. O público rejeitou…
A audiência de 20%, a mais baixa da história daquele nobre horário, realmente preocupa. Mas a trinca de autores talentosos vai saber dar a volta por cima, não tenho dúvida”.

babilonia1

 Nathalia Timberg e Fernanda Montenegro. Como bem disse o personagem Teresa, o amor é difícil de ser compreendido. A rejeição do público ao homossexualismo das duas senhoras, exposto logo no primeiro capítulo, deverá afastar os dois personagens da novela por um tempo, é o que se ventila nos bastidores de Babilônia. O que será um pena. Este seria um importante instrumento de quebra de preconceito, diminuindo a rejeição sofrida por muitas mulheres. Uma abordagem mais sutil do tema, com maior vagar, ao longo dos meses da novela, talvez alcançasse sucesso nessa intenção dos autores. Como aconteceu com o personagem homossexual Félix, de Mateus Solano, que terminou a novela Amor à Vida como ídolo popular, amado por todos.  


 

Suspeita para dar minha opinião, pois sou uma gilbertobragófila conhecida, faço isso neste sábado, e de modo cuidadoso, já que apenas desejo ver a novela rumar logo ao seu garantido sucesso, como tudo que traz a assinatura do grande autor com os parceiros de alto nível, Ricardo Linhares e João Ximenes, todos possuidores de ótimo texto:

Sinceramente, creio que o problema da baixa audiência da novela das 21 horas não são as maldades “em excesso” nem o lesbianismo. Maldades há e sempre houve nas novelas. E homossexualismo na TV já está se tornando lugar comum, inclusive o feminino. Acredito que, mesmo se todos os núcleos passarem a ser hetero, apenas com machos alfa e fêmeas beta, e formados só por criaturas bondosas, de corações adocicados, o ponteiro do ibope não oscilará para o alto, caso não se façam mudanças estruturais na história.

Vou abordar três pontos.

1 – A novela dá a impressão de se passar nos anos 80 e não no século 21, ano 2015. Favela com samba e sem funk? Sem Mcs, Popozudas, Anittas etc.? Advogada top, de escritório top do país, super antenada na moda, subindo a favela de mototáxi e morando num quarto sem reboco, nos dias de hoje? Nos anos 80, talvez. Favela “ilha da fantasia”, sem riscos, traficantes e PMs truculentos? Anos 1950.

2 – Muitas repetições de situações de outras novelas – em cartaz e passadas. a) Amiga “mui amiga”, como é o caso da atual novela das 7, os personagens Itália x Gabi. Bem, a trama Inês x Beatriz agora passou de ‘amiga invejosa obsessiva’ para ‘amiga rancorosa vingativa’, vamos ver se funciona. b) Atletismo na piscina (ao que parece para exibir torso masculino), como acontece na novela Alto Astral (com a estreia de Babilônia, as cenas de piscina da trama das 7 tiveram diminuição radical). c) O antiquário de Nathalia Timberg lembra o cenário de Julia Lemmertz (casa de leilões) da novela Em Família de Manoel Carlos. d) Sem esquecer que Fernanda Montenegro tem um filho homofóbico, tal e qual tinha José Mayer, o pai homossexual  em Império. Fosse uma filha homofóbica seria menos repetitivo.

3 – O artificialismo de algumas situações, como Beatriz (Glória Pires), mulher sem passado profissional importante, de repente, tornar-se presidente de um dos maiores conglomerados de empreiteiros do país, e a dona de casa ociosa Inês “virar” advogada, da noite pro dia, do mesmo grupo, acertando todas.

Novela é novela. No embalo da trama, a gente pode até encarar duas “Coras”, mas aceitar de início, quando ainda não há o envolvimento, esse coquetel de fantasia com realidade, é mais complicado.

Quanto ao homossexualismo das senhoras, acredito que o público o aceitará, se for com mais vagar, tato, sutileza (sic). A sociedade, para ser dobrada em seus conceitos, não dispensa essa dose de hipocrisia.

 

Colunista Alex Deneriaz sofre parada cardíaca e seguirá de Manaus para São Paulo

O querido colunista social amazonense Alex Deneriaz teve uma parada cardíaca quando fazia exames hospitalares para tratar uma virose, que de fato era uma bactéria no coração, e será transportado hoje, de Manaus para São Paulo, em jatinho UTI, providência tomada por sua amiga e chefe Cristina Calderaro, dona do jornal A Crítica, onde ele mantém coluna há algumas décadas. Quem acompanha o passo a passo dos cuidados com Alex, via What’s App, desde o primeiro momento da internação, é sua grande amiga Luiza Brunet, com quem ele costumava comparecer a todos os Bailes do Copa.

A família Deneriaz está esperançosa de que tudo terminará bem para Alex. E nós, seus amigos devotados, também estamos com esse pensamento.

Jesus-Luz-Alex-Deneriaz_ACRIMA20120528_0017_18

 

Alex Deneriaz com Jesus Luz, em foto de sua coluna em A Crítica de Manaus

Consulado da Venezuela no Rio não fechou e afastamento do cônsul foi por motivo de saúde

Boas notícias são sembre bem vindas. Sobretudo quando dizem respeito a um país vizinho de gente amiga, como a Venezuela.

O ex-decano do Corpo Consular do Rio de Janeiro, Edgar Alberto González Marín, cônsul geral venezuelano no Rio, faz saber a esta coluna que a representação diplomática carioca permanece aberta e funcionando plenamente, no mesmo endereço, e que sua repentina ausência se deu por motivos de saúde e não por outra causa qualquer, conforme especulado por este blog, relacionando à crise no país.

Bem, as notícias boas são relativas, pois com saúde não se brinca, e o cônsul Edgar fez muito bem de se afastar para se cuidar.

Abaixo a gentil carta que recebi. Estimando melhoras ao cônsul, e que em breve retome o posto.

Hildegard

 

Prezada Sra. Hildegard Angel,

Tenho o prazer de me dirigir à senhora, na oportunidade de fazer menção ao seu artigo God save the Queen! E também ao Sanjeev Chowdury, o novo decano do corpo consular do Rio de Janeiro!, publicado no seu blog online, em 01 de abril de 2015.

Sobre esse particular, gostaria de esclarecer dois pontos que não procedem em quanto a informação verídica. A primeira é que continuo sendo o Cônsul Geral da República Bolivariana da Venezuela no Rio de Janeiro até que o Governo Bolivariano indique o contrário. Atuo nesta jurisdição desde 2008 e é natural que em algum momento deva retornar ao meu país ou qualquer outro lugar que me seja indicado, sempre em acordo com os interesses nacionais e, até o presente momento, não tenho data para terminar minhas funções nesta cidade maravilhosa, mas não posso ignorar o fato que posso ser chamado a qualquer instante.

Atualmente, passo por um problema de saúde, o que me impede de continuar como Decano do Corpo Consular e durante a última reunião, foi colocado na pauta a minha sugestão sobre a reestruturação da diretiva, recebendo com alegria a indicação do Cônsul Geral do Canadá para ocupar o cargo.

Por outro lado, no final do seu texto, diz o seguinte:

A propósito e em tempo: quanto ao retorno do cônsul-geral venezuelano a Caracas. mencionado no início deste texto, não há maiores justificativas para o fato. Acredita-se que o momento político tenso que vive aquele país e sua situação econômica difícil expliquem o fechamento da representação, que se espera seja apenas temporário.

Tal afirmação me preocupa muitíssimo pelo fato de que a senhora informa que este Consulado Geral estaria fechado temporalmente por conta da situação que enfrentamos na Venezuela. Gostaria de assegurar que este Consulado Geral se encontra funcionando normalmente de segunda-feira a sexta-feira das 09h00 às 13h00 para o atendimento ao público e das 14h00 às 17h00, para o serviço interno.

Independente dos problemas que a Venezuela possa estar atravessando, posso garantir que o Governo Bolivariano continua trabalhando de forma continua e veemente para o bem-estar da sua população e, isto também é aplicado neste Consulado Geral, atendendo a comunidade Venezuela no exterior, como a todos os brasileiros interessados de certa forma pelo nosso país.

Outrossim, permita-me solicitar-lhe, gentilmente, sua valiosa colaboração para esclarecer a informação equivocada no seu blog e aproveito a ocasião para estender o convite para conhecer a sede do Consulado Geral no dia da sua preferência.

Atenciosamente,

Edgar Alberto González Marín

Cônsul Geral no Rio de Janeiro

Consulado General de la República Bolivariana de Venezuela
Río de Janeiro – Brasil
+5521 2554-59/2554-6134
riodejaneiro.consulado.gob.ve

Juristas alertam: Redução da Maioridade Penal contraria Convenção da ONU, faz Brasil regredir ao século 19 e multiplicará bandidos!

Acreditem-me, a Opinião Pública nem sempre está com a razão.

Na Roma antiga, era senso comum crucificar cristãos ou jogá-los aos leões, diante de estádios cheios de famílias, que torciam, pai, mães, crianças…em favor dos leões famintos. Eles vibravam vendo as feras devorarem as vísceras dos infelizes. A Opinião Pública partia do Coliseu satisfeitíssima.

Na Idade Média, seguia o povo feliz da vida, com suas melhores roupas, para assistir nas praças aos enforcamentos ou à queima, em fogueiras, de supostas feiticeiras ou de desafetos do rei. Pediam sangue, gritavam para que a execução fosse acelerada. Era a Opinião Pública, o senso comum, em seu exercício pleno.

O mundo caminhou uma estrada comprida, cheia de percalços, lutas, idas, vindas e sofrimentos, para chegar ao atual estágio de civilização. E com ela ao Estado constitucional, a um conjunto de leis, códigos, que estabelecem, dentro dos critérios da civilidade, da moral, da ética, da razoabilidade, os parâmetros para possibilitar uma grande Nação democrática, como esta chamada Brasil.

Daí que, enquanto grande parcela da sociedade brasileira se rejubila com a recente PEC da Redução da Maioridade Penal, juristas de grande sabedoria e renome se escandalizam com retrocessos que consideram até possível quebra de cláusula pétrea constitucional.

O conceituado Instituto Carioca de Criminologia expediu esta semana Nota Pública expondo seu repúdio e sua indignação. A nota destaca que a proposta é regressiva ao patamar de 14 anos praticado por nosso código de 1890 e que a iniciativa está na contra-mão da Convenção da ONU sobre os Direitos da Criança que preconiza que a prisão dos menores seja separada dos adultos.

O Instituto alerta para o fato de que a reincidência dos menores infratores presos é pequena, enquanto a dos adultos é imensa, e o mesmo passará a se dar com os menores que doravante compartilharão da prisão com adultos de grande periculosidade, numa viagem sem retorno.

A Nota Pública também enfatiza que, ao contrário do que supõe a opinião pública, os menores, crianças e adolescentes, não são os vilões deste cenário cotidiano doloroso. São eles, isto sim, as vítimas das execuções policiais sumárias, esta em proporções bem mais significativas do que a participação real da delinquência juvenil no total da criminalização do país.

Nota pública

O Instituto Carioca de Criminologia vem a público repudiar com veemência a nova campanha – desta vez, com o apoio de parlamentares – em favor da redução da idade-limite da imputabilidade penal.

Antes de mais nada, a iniciativa está na contra-mão da Convenção da ONU sobre os Direitos da Criança (aprovada, ratificada e promulgada no Brasil), cujo artigo 37 preconiza que a privação de liberdade, que cabe utilizar “como último recurso”, tenha “a duração mais breve possível” (al. b), e seja “separada dos adultos” (al. c). Nós, que jamais pensamos em denunciar a Convenção de Viena – sob cuja égide mantém-se uma legislação interna de drogas responsável pela execução sumária diária de duas ou três crianças ou adolescentes pobres – seríamos capazes de denunciar a Convenção sobre os Direitos da Criança para restringir direitos dos sobreviventes da estúpida “guerra” perdida?

Ainda preliminarmente, observe-se que os constituintes quiseram que a juventude brasileira estivesse imune ao poder punitivo, e fossem os adolescentes infratores submetidos a medidas de caráter sócio-educativo. Não constituirá tal norma uma cláusula pétrea? O argumento topológico – não estar a norma incluída nos incisos do artigo 5º – é inconvincente, e não prevaleceu quando esteve em julgamento o princípio da anterioridade tributária, que a Corte Suprema considerou protegido pela proibição de regresso (art. 60, § 4º, inc. IV CR). A proposta de redução da maioridade penal é regressiva, e aponta para o patamar de 14 anos praticado por nosso código de 1890.

Para além, contudo, desses óbices intransponíveis, está a inconveniência da proposta. A despeito das terríveis condições sob as quais se dá a privação da liberdade nos estabelecimentos para adolescentes infratores – e algumas peças publicitárias da campanha, as matérias do Jornal Nacional há duas semanas sobre tais estabelecimentos, revelaram sua prática similitude com as carceragens para adultos – e a despeito da precariedade de dados estatísticos, é possível afirmar que a reincidência dos adolescentes infratores egressos é menor do que a astronômica reincidência penitenciária adulta. Assim, a proposta carrega em si esta inconveniência notável: ela aumentará a reincidência dos jovens criminalizados, com o resultado concreto de mais crimes. Pior ainda: ela aproximará os adolescentes infratores das facções que se estabelecem e se reproduzem no sistema penitenciário, impondo-lhes através da sociabilidade carcerária uma viagem sem retorno.

Embora a grande mídia outorgue escandalosa publicidade a delitos graves com a participação de algum(ns) adolescente(s), sempre utilizados para reavivar essa velha campanha, a participação real da delinquência juvenil no total da criminalização é pouco significativa (ao contrário das execuções policiais sumárias de crianças e adolescentes).

O Instituto Carioca de Criminologia manifesta sua esperança de que o Congresso Nacional não sucumbirá a essa campanha e não demonstrará ao mundo que, ao invés de ministrar educação, saúde e cultura a nossos adolescentes, deliberamos trata-los pelo encarceramento.

Rio de Janeiro, 6 de abril de 2015

       Instituto Carioca de Criminologia

Jantar libanês, com odores de rosas e romãs, para celebrar um homem de muitos amigos e méritos

Com raízes libanesas, o homenageado, o advogado Roberto Halbouti, aniversariante da semana, inspirou ao casal amigo que recebia em torno dele um Jantar Libanês, preparado pela mais celebrada especialista nessa culinária, a chef Madeleine Saade.

Eram 20 convidados em três mesas – duas redondas – decoradas com orquídeas em bacias chinesas e postas com sous plats dourados, pratos brancos de Limoges e copos de cristais variados.

foto (55)

À exceção das cabeceiras da anfitriã e do homenageado, na mesma mesa, não havia lugares marcados. Halbouti convidou as duas amigas que desejava ter ao seu lado. E todos escolheram onde preferiam sentar-se. Jantar servido no móvel buffet, de dimensões um tanto reduzidas diante da variedade, da quantidade e da opulência gastronômica do menu da chef Saade – de encher os olhos!

Confesso que, depois do ritual ininterrupto de ir e vir da garçonete vestida à oriental, transportando os aperitivos em gaiolas com o formato dos tetos de mesquitas, recheadas com gostosuras, julguei que todos resistiríamos àquelas tentações do jantar.  Enganei-me.

Depois dos quibezinhos pe-que-ni-nos recheados, das esfihinhas de carne e verdura, do capuccino de lentilha e champignon em copinhos, do ceviche de salmão com creme de tahine e pisco servido nos “entretantos”, ainda houve apetite para os “finalmentes”.

foto (50)

Ela serviu no jantar: Salada de tabule; pasta de grão de bico e paprica; pasta de berinjela e romã; coalhada seca e hortelã; quibe cru e mouhamssa; folha de uva com ganache de limão siciliano; risoto de cordeiro e costelinhas french cut; molho de amêndoas; peixe cherne assado acompanhado de camarão e taratur.

Além disso, ao saber que Bebel Niemeyer iria, acrescentou o prato de quiabo com damasco cozido no vapor do romã, que Bebel ama de paixão.

foto (47)

foto (52)

Como sobremesa, ataife com calda de flor de laranjeira; “Noites do Líbano”; cassata de pistache com calda de damasco; macedônia de frutas exóticas e espuma de rosas… sucedidos por suculenta, deliciosa, apetitosíssima saudação ao homenageado, pela imortal das letras Nélida Piñon, falando por todos nós.

Do muito que a escritora disse sobre ele, foi mais ainda a frase: “O que me encanta em Halbouti é ver que a cada dia ele cresce como pessoa”.

Enquanto Nélida o louvava com suas palavras, eu repetia mentalmente o texto enaltecedor com que Técio Lins e Silva justificou sua ausência ao jantar: “Parabéns pela homenagem ao Roberto, digno de todo o nosso carinho e afeto, meu colega de Turma há 50 anos, advogado admirável e amigo muito querido”.

Técio estava em Brasília para os festejos dos 207 anos do Superior Tribunal Militar.

E prosseguia a Nélida: “Ele se empenha por seus amigos, é aquele que não se poupa, cumpre a agenda das amizades, vai às missas”.

Todos concordaram, aplaudiram com entusiasmo. Halbouti pediu a palavra. Agradeceu com a mesma verve aos anfitriões, à Nélida e a todos os presentes.

foto (63)

Eis que a luz se apaga e uma velinha singela brota acesa sobre um bolo iluminando a sala, ao som de um prosaico coro de “parabéns pra você!”. Era um jantar de aniversário, afinal!

A forma de Ponto de Interrogação da vela era apenas uma provocação, pois todos se lembravam da concorrida festa dos 70 anos de Halbouti, na Casa Julieta de Serpa, no ano passado.

Uma rodada de chá de rosas e dragées arrematou o jantar, antes de passarmos das mesas de volta à sala de estar.

Encerrando os trabalhos, o dono da casa abriu uma garrafa de poire, com big pera dentro. O licor foi degustado devagar, empurrando pra longe a vontade de ir embora e permitindo mais conversa boa.

A razão contava o tempo com os ponteiros da emoção de se estar ali entre grandes divas, como Tatiana Leskova, do balé, Christiane Torloni, do teatro, Nélida, da literatura, Soraia Cals, do colecionismo, e outras mais e mais… Sem esquecer os divos…

foto (65)

Gaiolas, inspirando formato de mesquitas, transportando minúsculas esfijas

foto (58)

Halbouti tinha à direita Nélida Piñon

foto (59)

Belita Tamoyo se serve da cassata de pistache

foto (56)

Tatiana Leskowa, Christiane Torloni, Nélida

foto (64)

Lucia Rocha Miranda, Belita Tamoyo, Helena Pedrosa

foto (67)

Fred Sills, que introduziu a Paramount no Brasil

foto (73)

foto (74)

Leskowa, Torloni e Nélida: raro encontro de três nomes femininos de nossa cultura – e como se divertiram por estar juntos!

foto (93)

Halbouti e seu naipe de divas: Nélida, Christiane e Tatiane. Sills ao fundo

foto (96)

O homenageado com Soraia Cals e Evandro Carneiro

foto (79)

Bebel e Paulo Niemeyer

helena pedrosa

Helena Pedrosa

belita

Belita Tamoyo

paulo niemeyer

Paulo e Bebel Niemeyer

vilma

Peter Reeves e Vilma Guimarães Rosa

foto (71)

 

Hora do bolo e parabéns pra você

Fotos domésticas de Hildegard Angel