Só cachorro pode procurar osso, as famílias dos mártires brasileiros não


Quando o governo do Brasil impede a busca dos ossos dos desaparecidos políticos, ele evidencia que ainda há muitos mais mortos a serem encontrados. Ninguém melhor para saber quantos eles são, e onde estão, do que aqueles que enterraram os cadáveres.


O presidente, que aprova as torturas e achou poucos os assassinatos na ditadura, é contraditório quando impede a procura dessas ossadas. Afinal, seria a oportunidade, a cada esqueleto achado, de ele demonstrar sua alegria, armar palanque, providenciar salva de tiros, reger banda de música e bater continência para eventuais autoridades estrangeiras.

Festejos sinistros de um dirigente para quem procurar osso é coisa de cachorro e mais 30 mil brasileiros deveriam ter sido eliminados. Hoje haveria mais 30 mil mães sem túmulo para chorar, mais 30 mil famílias à procura dos restos de seus entes amados.

A crueldade pelo menos não impede os cachorros de procurarem os ossos dos seus. Afinal, cachorros são filhos de Deus.

Hildegard Angel

Milionária Maria Geyer doa fardão de Cacá Diegues

Em sua posse, hoje, na Academia Brasileira de Letras, o cineasta Cacá Diegues estará ostentando um precioso fardão sob medida, confeccionado pelo alfaiate Diógenes, seguindo o costume dos demais imortais.

Cacá Diegues na prova do fardão – montagem

É hábito que tal vestuário seja doado pelo estado ou cidade de origem do novo acadêmico. Mas como estados e municípios do país estão todos com a faca no pescoço, coube à milionária Maria Geyer, herdeira do dono da Unipar, Paulo Geyer, o gesto generoso, ao custo de R$ 50 mil. Paulo Geyer foi, ele também, um generoso mecenas, chegando a doar, junto com a mulher, Maria Cecília, toda a fantástica coleção de arte que cobria as paredes, e até os tetos, de sua majestosa casa no Cosme Velho.

DIVAS SOCIAIS SAEM DO FOCO DA MÍDIA, SUCEDIDAS PELO “PADRÃO KARDASHIAN”

As divas sociais partem, uma a uma, e seu mundo se extingue. Divas que eram proclamadas, aduladas e aplaudidas pela mídia e por todos, sem constrangimentos de ambas as partes.

Naquele outro mundo – que agora dá seus últimos suspiros – havia uma tolerância da sociedade menos favorecida para com as diferenças de status e privilégios. Sobretudo na América, onde o conceito do self made man sempre foi cultivado. Ser rico não era uma agressão, era um estímulo. Porém, quando o mundo dos mortais descobriu na pele que a “Meritocracia” era uma fábula de Polichinelo, que o mérito precisa do impulso das oportunidades, e que estas jamais são iguais no universo capitalista, o ressentimento social aflorou.

Kim Kardashian, uma beleza construída

PADRÃO KARDASHIAN

Os ricos da elite, hoje, se preservam, se escondem e isolam em seu pequeno mundo virtual restrito aos que tenham a senha de acesso ao seu Instagram, como um dos “escolhidos”. A retração dessa elite, que detém e exerce os códigos clássicos da vida em sociedade, deu margem a que surgissem as socialites “padrão Kardashian”. A primeira delas, mérito lhe seja dado, foi Paris Hilton, que, em vez de se mostrar humilhada, após ser divulgado na rede um vídeo seu fazendo sexo com o namorado, abraçou a fama e passou a ganhar dinheiro com ela.

RECATO TOTAL

As socialites “’padrão Kardashian” escancaram a casa em reality shows, mostram tudo, inclusive seus nudes, e formam opinião nos costumes, gostos, atitudes, moda. Até no shape do corpo. Elas fizeram da bunda, que tantas se esforçavam por reduzir, um objeto do desejo mundial e do preenchimento artificial. São liberadas e modernas; se casam com rappers e atletas negros; seu pai assumiu sua porção mulher, e se tornou uma; as crianças são superstars desde o berço. Tudo que delas emana se torna produto e faturamento de milhões de dólares. Inclusive as roupas das crianças…

Enquanto isso, a elite dos sobrenomes abre mão de seu protagonismo na mídia, que alcançou o ápice na segunda metade do século XX, e se recolhe ao recato em que vivia no final do XIX.

As irmãs Kardashian, Kim e Kourtney, vestindo Versace

SOCIEDADE MUTANTE

Interessante observar essas transformações em nossa sociedade, processos mutantes, que devem servir de observação e aprendizado. O advento do Facebook causou graves prejuízos às personalidades do Society, que, inebriadas com a autossuficiência que lhe dava o aplicativo, dispensando os colunistas sociais como intermediários, passaram a fazer a crônica deles mesmos. O que motivou uma nada elegante exacerbação de vaidades e egocentrismos. Ostentação de luxos e exageros. Pior: aliada à superexposição de luxos e belezas, veio também a dos erros de português, de interpretação de texto e de posicionamento crítico. Enfim, não foi um período “chic” para a sociedade brasileira.

NOVA ERA

Bem faz nossa elite, que atualmente se recolhe no Instagram e se expõe apenas entre as quatro paredes de seu ambiente social, com a liberdade e a segurança da convivência dos iguais. Um clube privado virtual. Nasce mais uma Nova Era.

A DESPEDIDA DA ELEGANTE IRMÃ PRINCESA DE JACQUELINE KENNEDY ONASSIS

Correta, articulada e elegante, Lee Radziwill, diva do alto mundo, morreu na sexta-feira passada, em casa, na rua 72 East, Nova York, duas semanas antes de fazer 86 anos. Viveu bem, bebeu e fumou até os últimos dias, e já começava a sentir o isolamento próprio da idade, de quem perde os amigos, que se vão primeiro, inclusive sua irmã, Jackie O., quatro anos mais velha.  No último ano, Lee perdeu a mobilidade, mas não capitulou da vida social. Continuava a conviver em almoços e jantares em casa. Lee foi casada com o príncipe Stanislas Radziwill, o que glamourizou ainda mais sua imagem. Mas, a vida foi glamourosa desde sempre, filhas que ela e Jacqueline eram de Janet e John Verner Bouvier III, conhecido como Black Jack Bouvier.

BEM-VINDAS

Mas foi só após a morte do pai, em 1957, e com a fortuna herdada dele, que as irmãs Lee e Jacqueline Bouvier passaram a integrar o mundo do high Society, que conquistaram com o mesmo charme de seu pai e a mesma ambição de sua mãe. Elas não eram propriamente do círculo  WASP, da sociedade de Nova York, mas foram muito bem-vindas nele, pois representavam tudo que todos adoram, classe e juventude. Naquele auge da prosperidade do pós-Guerra, houve uma abertura para novos nomes sociais.

UM NOVO TEMPO

Para sua geração, as Bouvier foram “as irmãs que se casaram bem”. Porém, a fama lhes chegou foi com a ascensão de Kennedy a presidente. No período Kennedy, as irmãs personificaram o surgimento de um novo tempo. Quando os da chamada alta sociedade se tornaram celebridades da mídia.

Lee Radziwill em seu apartamento de Nova York

SÓ PARA CONVIDADOS

Foi “para convidados only” a missa de morte de Lee Radziwil, a princesa irmã caçula de Jacqueline Bouvier Kennedy Onassis. Às 10 da manhã de segunda-feira, na Igreja de São Thomas More, em Manhattan, East, 89th Street. Eram cerca de 300 pessoas, inclusive sua sobrinha, Caroline Kennedy Schlossberg, a socialite Deeda Blair e os nomes da moda Marc Jacobs e Carolina Herrera, com Reinaldo. Os eventos fúnebres nos Estados Unidos são umm acontecimento. E quando são nomes dourados, é um festival de limousines na porta da Igreja e um desfile de elegância, com mulheres e homens de preto, elas com meias de nylon escuras e chapéu negro. Quando também não calçam luvas, como nos filmes de antigamente

No roteiro musical da miss de Lee, Coro e a Orquestra da Catedral do Divino São João, regidos por Ken Tritle, o organista David Briggs e a soprano Suzanna Philips, interpretando Puccini – “Música sem palavras”, a preferida de Lee para dormir – Bach, Brahms e Faure.

Sofia Coppola leu a primeira leitura, o Livro da Sabedoria – “as almas dos justos estão nas mãos de Deus, e nenhum tormento as tocará”. A filha de Lee, Tina, leu EE Cummings. Um amigo fez o Elogio à Lee. Em seguida, o coro e a soprano cantaram Amazing Grace. Havia enormes arranjos de flores rosa, verdes e brancas. Um convidado disse: “quando saímos da igreja, o Sol explodiu por trás das nuvens como se a própria Lee tivesse ordenado seu calor e brilho para que completássemos o dia.”

Lee Radziwill era protagonista. E o show da sociedade repete o enredo do show business, em que protagonista gosta de conviver apenas com protagonistas. Entre os poucos amigos ou conhecidos brasileiros da irmã de Jacqueline Kennedy, estavam o empresário brasileiro André Jordan, com quem o marido príncipe de Lee trabalhou no lançamento de um de seus resorts em Portugal; Lourdes Catão, no período em que viveu em Nova York; a empresária Vivi Nabuco; e os saudosos Jua e Fernanda Hafers, que recebiam o grande mundo social americano em casa, em Park Avenue, NY.

As divas sociais da geração de Lee Radziwill partem, levando tudo o que aprendemos a admirar e a acreditar, em se tratando de elegância, inspiração, bom gosto e refinamento.

O historiador holandês que colocou o dedo na ferida em Davos: a taxação dos ricos.

Hildegard Angel – Jornal do Brasil – 21 02 2019

Consultei o Google e não encontrei registro na imprensa brasileira de que o historiador holandês Rutger Bregman, autor do livro “Utopia para realistas”, foi a maior estrela no fórum de bilionários de Davos. Ele “causou” abordando um tema tabu para tal plateia: a insensata “isenção de impostos” aos… bilionários! Saiba aqui.

 AS COISAS VÃO de mal a pior. No Brasil e no mundo todo. O meio ambiente em frangalhos, a precarização do mercado de trabalho, a compulsória submissão do trabalhador em condições de semiescravidão, a ausência de voz dos sindicatos para defende-los, a multiplicação de facilidades e privilégios para muito poucos em detrimento da grande maioria, a indiferença ante as tragédias humanas e climáticas à nossa volta… E TUDO CONTINUA como dantes, findo o recente encontro em Davos, onde Rutger Bregman, 30 anos, um idealista do nosso tempo, foi o frisson do Fórum Econômico Mundial no mês passado. A mídia o chamou de “o herói folk de Davos”, pelo seu destemor e a impaciência, colocando o dedo na grande ferida do mundo… E QUE FERIDA será essa? O historiador Bregman botou as cartas na mesa: “É a primeira vez que venho a Davos e, francamente, achei desconcertante 1500 jatinhos voarem para cá para ouvir Attenborough (famoso naturalista britânico) falar sobre, reparem, ‘como estamos destruindo o planeta’! E, digo mais, ouvi pessoas falando em termos de ‘participação’, ‘igualdade’, ‘transparência’, mas, vejam, ninguém levanta a questão da ‘isenção de impostos’. Certo? Os ricos não estão pagando a parte que lhes cabe. Me sinto como se estivesse em uma reunião de bombeiros na qual é proibido falar em ‘água’. De fato, há somente um grupo de discussão.”… E O MODERADOR: “Tivemos dois grupos. Você é o segundo.”… PROSSEGUE RUTGER Bregman: “Tá, mas espera aí, além deste, houve somente um grupo, escondido da mídia, discutindo ‘isenção’ de impostos. Fui um dos 15 participantes. Alguma coisa precisa mudar aqui”… BREGMAN PROSSEGUE inquisitivo: “Há 10 anos este fórum perguntou-se sobre o quê? O que o mundo dos negócios poderia fazer para evitar um enorme cataclisma social. A resposta é bem simples: parem de falar sobre filantropia e comecem a falar sobre impostos. Impostos. Impostos. Há dois dias esteve aqui um bilionário, Michael Dell, e fez uma pergunta do tipo ‘me digam um país onde uma *taxa marginal de imposto de 70% tenha funcionado?’. Bom, vocês sabem, sou um historiador. Funcionou nos Estados Unidos! Nos anos 50, durante o Governo do Republicano Einsenhower, um veterano de guerra, como vocês sabem, a *taxa marginal de impostos para pessoas como Michael Dell foi de 90%. Vejam: a taxa mais alta do governo para pessoas como Michael Dell era mais do que 70%. Quer dizer, não é complicado. Podemos gastar um tempo enorme falando sobre toda essa bobagem de projetos filantrópicos; podemos convidar o Bono outra vez, mas, ora, o que temos que fazer é discutir sobre impostos. É isso: impostos, impostos, impostos. O resto é besteira.”… EM SEGUIDA, falou a diretora executiva da Orxam International, a ugandesa Winnie Byanyima, 59 anos, engenheira, política e diplomata aeronáutica: “Temos um sistema de impostos que deixa ‘vazar’ muito, que permite a fuga anual de 170 bilhões de dólares para paraísos fiscais; e, desse modo, retirados de países em desenvolvimento mais necessitados. De tal maneira que precisamos rever o modelo de negócios e a ação governamental na arrecadação e destinação dos impostos na vida das pessoas.”… UM MEMBRO DA PLATEIA se manifesta: “Devo dizer, honestamente, que esse é um grupo de discussão unilateral. Os Estados Unidos, basicamente, têm a menor taxa de desemprego de todos os tempos. A menor taxa de desemprego entre afrodescendentes. A menor taxa de desemprego entre jovens. Temos, de fato, reduzido a pobreza mundial, e ninguém fala sobre isso! De modo que eu gostaria que este grupo discutisse, além das questões sobre taxação, a respeito da qual todos vocês falaram – aliás, a única coisa sobre a qual falaram neste grupo sobre desigualdades – o que é realmente possível fazer para combater a desigualdade, além de discutir sobre impostos?”… A RÉPLICA DE Winnie Byanyima vem contundente: “O cavalheiro que pediu a palavra agora; que disse que só falamos sobre impostos; e que ‘os empregos estão aí’; que as taxas de desemprego estão baixas, permita-me dizer-lhe algo: estamos falando sobre empregos, mas sobre a qualidade destes empregos. Trabalhamos com operários em frigoríficos de aves no país mais rico do mundo, os Estados Unidos. Trabalhadores em frigoríficos. Mulheres que cortam e embalam o frango que compramos nos supermercados. Uma das mulheres com as quais trabalhamos, Dolores, nos contou que ela e suas colegas têm que usar fraldas enquanto trabalham, pois não é permitido a elas intervalos para ir ao banheiro. Isto no país mais rico do mundo. Este não é um emprego digno! É sobre este tipo de trabalho que estamos falando, que a globalização está promovendo. A qualidade do trabalho importa. Importa sim! Estes não são empregos dignos. Em muitos países os trabalhadores não têm mais voz. Não se lhes permite mais se sindicalizarem, não se lhes permite mais negociarem salários. De modo que estamos falando sobre empregos, mas empregos que tragam dignidade. Estamos falando sobre assistência médica”… WINNIE CONCLUI com dados: “O Banco Mundial nos informou que 3,4 bilhões de pessoas que ganham 5, 50 dólares por dia estão ‘no limite’, a um passo de mergulhar na pobreza. Não têm auxílio-saúde. Apenas mais uma safra ruim e essas pessoas vão mergulhar uma vez mais na pobreza. Elas não têm ‘seguro contra quebra de safra’. Então, não me venha falar sobre níveis de desemprego. Você está mal informado. Não está considerando a dignidade das pessoas. Você está se referindo a pessoas que são exploradas”…
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*A taxa de imposto marginal é um tipo de sistema fiscal progressivo que impõe uma taxa de imposto sobre o rendimento mais elevado às pessoas com rendimentos mais elevados e uma taxa de imposto sobre o rendimento mais baixa em pessoas com rendimentos mais baixos.

PARÁBOLA DO FILHO PREDILETO

Na parábola do filho pródigo, o filho problemático, que mais dá trabalho e preocupações, é o melhor acolhido pelo pai, com festas, carinhos, atenção. O filho trabalhador, cumpridor de seus deveres, se revolta e questiona o pai, que lhe diz: ”Filho, tu estás sempre comigo, e tudo o que é meu é teu. Mas era preciso festejar e alegrar-nos, porque este teu irmão estava morto e tornou a viver; estava perdido, e foi encontrado.” Jesus também tinha o discípulo mais amado, era João, que o acompanhou do princípio ao fim de seu ministério. Ele está ao lado de Jesus na Última Ceia. Natural que os comuns mortais tenham também seu filho predileto.

O grande articulista político Janio de Freitas colocou a questão: Quanto poder terão os filhos do presidente? E se nós fossemos mais adiante na pergunta: Quanto poder tem o filho dileto do presidente? Não é incomum um pai ter seu filho preferido. No caso de Jair Bolsonaro, as evidências apontam para o filho Carlos Bolsonaro, aquele com quem o presidente eleito dividiu glórias e aplausos, no dia da posse, dando-lhe o assento sobre a capota aberta do Rolls Royce. O inusitado da situação, ao se arbitrar posição inexistente, valeram a Carlos o apelido nas redes sociais de “bebê conforto”. Para convencer o pai de participar daquele show, ele pode ter usado o argumento de que Dilma desfilou ao lado da filha. Mas Dilma não tinha um “príncipe consorte” para chamar de seu, enquanto Bolsonaro tem Michele. Naquele momento, soubemos qual seria o filho mais influente nas decisões do presidente. No episódio de Gustavo Bebianno, não foi o presidente quem o demitiu. Foi Carlos, com um post no Twitter. Fritura de uma frigideirada só. E o que levou Carlos, também chamado de “Carluxo”, a colocar tanta gordura na panela? Os mais próximos dizem que o ciúme. E ciúme de homem é pior do que o de mulher. Que dirá o de filho do homem. Bebianno foi aquele colaborador grudado em Bolsonaro, desde o início da campanha. Havia entre eles identidade e uma confiança absoluta. A ponto de Bebianno dormir no chão, junto à cama de Bolsonaro, no vaivém dos compromissos de campanha eleitoral. Gustavo Bebianno Rocha era o único “rival” de Carlos na disputa pela maior ascendência sobre o Presidente da República e no prestígio conferido por ele. Diz-se, nos bastidores, que foi equivocada a notícia no jornal O Globo de que Bebianno afirmou ter falado três vezes com Jair Bolsonaro naquele dia em que despontou o laranjal.  Bebianno teria dito que ligou três vezes para Bolsonaro. Mas não foi atendido. O repórter interpretou que ele falou três vezes, e se criou o imbróglio. Bebianno foi chamado de “mentiroso” por Carlos, sem ter tido a oportunidade de se explicar com o presidente. Gustavo Bebianno, além de aliado, foi um elemento útil para Bolsonaro. Entre outras coisas, foi quem indicou Paulo Marinho para suplente de Flávio Bolsonaro, e foi em casa de Marinho que Bolsonaro & filhos se aquartelaram durante a campanha, multiplicaram apoios na elite, à qual não tinham qualquer acesso, e contatos na mídia, que hoje rejeitam. Em seu modo rude, têm aversão à mídia que não seja mera repetidora de seus press releases e comunicados oficiais. Despreparado para a função, desambientado dos rituais do poder, o presidente Bolsonaro parece não ter noção do que se tratam as palavras Democracia e Republicanismo. Age como um tirano medieval, que manda para a forca quem não lhe satisfaz as vontades. E seu oráculo é o filho mais atraído por sangue, Carlos, aquele que, durante a campanha, postou no Twitter a foto de um homem sendo supostamente torturado com um saco de plástico enfiado na cabeça ensanguentada. É isso que devem esperar os que cruzarem o caminho do filho predileto? Saco de plástico na cabeça, até que lhes falte completamente o ar?

 

AS LUZES DA RIBALTA SE APAGAM: MORREU BIBI FERREIRA!

Uma Elisa Doolittle fantástica, em My Fair Lady; Joana, em Gota D’Água; Dulcinéia, em Don Quixote. Atriz e diretora de incontáveis sucessos, simbolizava a tradição do melhor teatro, dedicação plena, rigor total. Brilhou no Teatro, no cinema, na TV, e sempre liderando audiências. Engajada politicamente. Profissional plena, mulher plena, referência sempre. Bibi!

Bibi em Gota d’Água

Morreu ontem a estrela de todas as épocas e todos os gêneros, a intérprete com tradição, patrimônio do Teatro Brasileiro, Bibi Ferreira. Acompanhada de enfermeiros, ela despertou às 13h50m, reclamando de falta de ar. Deu um suspiro e foi se encontrar com Dioniso, o deus grego do teatro.

Eu tinha por Bibi uma devoção que só se costuma ter pelos santos. Eu a achava uma divindade extraterrena, uma aparição iluminada, um toque de Deus sobre a Terra. Seu talento extrapolava definições, classificações, elogios e comparações. Era sem limites. Certa vez, em Ouro Preto, houve uma apresentação de Bibi, nos festejos de inauguração do museu de Angela Gutierrez. Foi montado um grande palco ao ar livre, e eu tive a sorte de um lugar na primeira fila. Ela apresentava “Piaf”, espetáculo que eu já havia assistido incontáveis vezes. Mas, naquela noite, Bibi superava a própria Bibi. Ao fim da apresentação, ajoelhei-me diante dela, que havia nos brindado com momentos para sempre.

Bibi Ferreira era generosa. Éramos amigas. Quando me casei, ela me deu um abridor de luvas, peça antiga. Eu, que nunca havia visto um abridor de luvas, achei que devia ser alguma coisa como um quebra-nozes, e o guardei no armário dos faqueiros. Lá ficou a peça durante anos, até que, recentemente, procurando determinada colher, encontrei o estojo com – agora eu sei – o abridor de luvas. Imediatamente, ele foi incorporado ao Acervo Bibi Ferreira, em nosso museu da moda, Casa Zuzu Angel, na Usina. Lá já está o vestido de festa, longo, coberto de paetês, em tons do creme ao laranja, que minha mãe fez para ela, e Bibi teve a gentileza de presentear ao Instituto Zuzu Angel, quando soube do museu. A roupa veio junto com o par de boás de plumas que a completavam. Não foram os únicos presentes de Bibi. Em certa premiação, uma das centenas de homenagens que já recebeu, ela se comoveu com crônica minha a respeito, e me enviou de presente o troféu. Consiste numa folha ondulada de ouro, que pode ser usada como um adorno de roupa, um clip. Mas o real valor da peça era ter pertencido a Bibi Ferreira. Lá se foi a folha para o museu

Acessível e franca, Bibi foi sempre solidária à luta de minha mãe, em busca do corpo de meu irmão, Stuart. Tanto que, quando inaugurei o Instituto Zuzu Angel, eu a convidei para ser Zuzu por uma noite, em espetáculo no Palácio da Cidade, do prefeito, dirigido por Pedro Sayad. No palco, vestida de preto, véu cobrindo a cabeça e grande crucifixo no pescoço, Bibi reviveu a mater dolorosa com grande emoção, narrando sua vida, na primeira pessoa, e falando de sua moda, enquanto os modelos, das diferentes fases da criadora eram desfilados na passarela.

Choveu muito naquela noite, e era o Dia de Nossa Senhora da Conceição. O show aconteceu entre raios e trovoadas, de que Bibi tomou partido, adicionando ainda mais dramaticidade à sua interpretação. Na plateia, Adolpho Bloch chorava feito criança. Por Zuzu e pela Bibi, que protagonizou o maior momento de seu Teatro Manchete: como Dulcinéia, em Don Quixote, ao lado de Paulo Autran.

Seu amor pelo marido, o dramaturgo talentoso Paulo Pontes, foi infinito. E conturbado. Era uma passional, intensa em seus romances e paixões. Eles viviam o Céu e o inferno, na mais absoluta plenitude. Com ele, Bibi fez em 1972 a extraordinária Gota D’Água, texto de Pontes, música de Chico Buarque. Um dos mais notáveis desempenhos de sua carreira, toda ela notável.

Era a filha do monstro sagrado Procópio Ferreira, pequeno como ela, olhinhos puxados, ombros retos, pescoço curto, Bibi era Procópio 2. Bem, não era uma mulher bonita, mas em cena ficava incrivelmente bela, se assim desejasse. Daí minha teoria de seu dom de se transfigurar.

Visitei-a, uma vez, num apartamento, no imenso prédio pertencente ao Clube Flamengo, na Av. Rui Barbosa, ainda morando com sua mãe, dona Aída. Era o cenário de uma diva, e com muitas antiguidades. A começar pelo piano majestoso de cauda, preto, com pés torneados, esculpido. Poderia ser um piano do Scala de Milão. Sobre ele, um xale franjado, encimado por porta-retratos.

Foto José Roberto Serra CpDoc JB –  Bibi e seu piano de cauda

Morreu na mesma Av. Rui Barbosa, mas em outro prédio, mais luxuoso, num apartamento de último andar com a vista mais bonita do mundo: o nariz esbarrando no Pão de Açúcar, o Iate Club e o mar coalhado de barquinhos. Bibi havia colocado o apartamento à venda, e sua empregada fiel o mostrava aos visitantes, cômodo por cômodo. Mas havia um especial: a sala em que a diva passava seus dias, ensaiava, solfejava. Uma sala escurecida por cortinas pesadas, com móveis preciosos, poltrona de veludo boutonné, e franjas. Estávamos em Paris da Belle Époque.

Quando estava em temporada, ela estendia o sono pela manhã, entrando pela tarde. Não atendia a telefonemas, para não sobrecarregar a voz, e não aceitava convites. Era de casa para o teatro, do teatro para a casa. Bibi obedecia a um ritual severo de tranquilidade e método, visando exclusivamente o aspecto profissional: a atriz. Preservava a voz, economizava o físico e o tempo, que se tornou longevo para ela, e nos concedeu a sorte de ter Bibi por 96 anos.

O mesmo rigor que tinha consigo mesma, tinha com os elencos que dirigia. Ensaiava à tarde até, pontualmente, oito horas da noite, e mandava todos embora, dizendo que descansassem bastante e, pela manhã, estudassem o texto da peça em casa, para retornar à tarde. Mantinha seus atores em imersão total, no desafio de atuar o melhor possível.

O cenógrafo José Dias, parceiro de Bibi em várias montagens, lembra que ela precisava ver a maquete dos cenários antes da marcação dos atores, para ter a precisa noção do espaço. Ele levava a maquete pronta à casa de Bibi diretora e, juntos, passavam a peça, cena por cena, de acordo com os cenários. Uma profissional atenta a tudo. E também respeitosa. Quando precisou mudar de posição uma bérgère, na peça “O preço”, de Arthur Miller, chamou o cenógrafo e pediu autorização para virar a cadeira para a frente, porque queria Paulo Gracindo encerrando a peça, dando uma gargalhada de frente para o público, e não de lado. Surpreso, José Dias comentou: “É esse o problema? Mas você podia fazer isso sem precisar me consultar, você é a diretora!”. E Bibi: “Eu sou a diretora, mas o cenógrafo é você”.

Sua criatividade e seu rigor como intérprete e como diretora eram absolutos. Na peça “A sauna”, no Teatro Villa Lobos, inventou um final espetacular: quando as atrizes Maitê Proença, Claudia Jimenez, Angela Leal, Nivea Maria, Sura Berditchevsky, todas nuas, mergulhavam numa imensa piscina. Várias cortinas de aplausos.

Ultimamente, havia entregue a administração de sua vida a seus empresários, Montenegro e Raman. Nada fazia sem a autorização deles. Fui emissária de uma sondagem, se Bibi aceitaria ser membro da Academia Brasileira de Artes, uma academia centenária, das mais antigas e respeitadas do país. Bibi pareceu encantada com o convite, ficando de retornar para combinar uma eventual posse. Ligou de volta para agradecer o convite e dizer à academia, que, sem o aval de seus empresários, não fazia nada, não aceitava nada, não se mexia, sem sua autorização: “Estou nas mãos deles”, disse.  Bibi é imortal por ela mesma.

A última vez em que vi um espetáculo de Bibi, fiquei preocupada. Foi na reinauguração do Teatro Serrador. Uma linda apresentação da estrela. Ao final, começaram discursos e homenagens, e Bibi, visivelmente exausta, tentava encerrar o evento, mas, bisou quantas vezes foi pedido por autoridades presentes, patrocinadoras do teatro no Rio – o Secretário de Cultura, o prefeito etc. Mesmo cansada, jamais falhava.

Bibi era maravilhosa e interminável. Atuou até o final de 2017. Em 2018, começou a ensaiar um tributo a Dorival Caymmi em seus 10 anos de morte. O proposta era cumprir o circuito teatro Casa Grande no Rio, Renaissance, em São Paulo, e viagem pelo Brasil inteiro, como ela costumava fazer. Até que ela chamou Raman, o empresário, em casa e sugeriu que suspendessem o projeto. Assim foi feito. Frágil, foi hospitalizada e, em agosto do ano passado, teve alta. Em setembro, Raman e Montenegro publicaram na página da atriz uma carta de despedida dos palcos e das entrevistas. Ousada e modesta, dizia que atuar era “80% coragem e o resto é talento”. Bibi era exceção: talento cem por cento.

Bibi Ferreira em My Fair Lady

 

O novo Brasil, em que a barbárie saiu do armário, faz outra vítima

A cada dia, um novo susto, uma decepção maior, um golpe, um aperto no coração. Suicidou-se no sábado, em Barcelona, onde vivia, a ativista e fundadora do COAME, movimento de Combate ao Abuso nos Meios Espirituais, Sabrina Bittencourt. Foi ela quem ajudou a desmascarar João de Deus e Prem Baba como abusadores. Para seu filho, foi apenas “seu último passo pra gente poder viver”. “Eles mataram minha mãe”, disse. A ONG Vítimas Unidas, com que colaborava, distribuiu nota assinada por sua presidente, Maria do Carmo Santos, que se encerra com a frase “A luta de Sabrina jamais será esquecida e continuaremos, com a mesma garra, defendendo as minorias, principalmente as mulheres que são vítimas diárias do machismo.”

Sabrina foi abusada desde os 4 anos por integrantes da igreja mórmon, frequentada por sua família. Adolescente, engravidou de um de seus estupradores e abortou. Fez de sua vida uma plataforma de denúncia contra os religiosos abusadores, espiritualistas, padres, pastores, gurus. Além de tantas mulheres abusadas por João de Deus, Sabrina também ajudou a própria filha do curandeiro a denunciar que foi sua vítima. Sempre em mudança, devido às permanentes ameaças de morte, Sabrina precisou se mudar para o exterior.

 

DEPOIMENTO DE SABRINA

Doutora Honoris Causa por seu trabalho humanitário pela UCEM – Universidad del Centro, no México, Sabrina morreu por volta das 21 horas de sábado, 2 de fevereiro. É pedido que ninguém procure entrar em contato com seus familiares, já que, dos três filhos, dois desconhecem esse fato, e a família tenta preservá-los. Sua mensagem, que foi postada em seu Facebook na mesma noite de sua morte, é um importante documento, e retrata a realidade de todas as mulheres fragilizadas pelos abusos e opressões dos homens e do sistema.Eis o comovente depoimento deixado por Sabrina:

“Marielle me uno a ti. Somos semente. Que muitas flores nasçam dessa merda toda que o patriarcado criou há 5 mil anos! Eu fiz o que pude, até onde pude. Meu amor será eterno por todos vocês. Perdão por não aguentar, meus filhos. VOCÊS TERÃO MILHARES DE MÃES NO MUNDO INTEIRO. Minhas irmãs e irmãos na dor e no amor, cuidem deles por mim… Eu sempre disse que era só uma pequena fagulha. Nada mais. Só pó de estrelas como todos. USEM A SUA PRÓPRIA VOZ. A SUA PRÓPRIA VONTADE. TOMEM AS RÉDEAS DE SUAS PRÓPRIAS VIDAS E ABRAM A BOCA, NÃO TENHAM VERGONHA! ELES É QUEM PRECISAM TER VERGONHA. Não aguento mais. Todas as provas, evidências, sistemas de apoio, redes organizadas e sobretudo, meu legado e passagem por aqui está entregue ou chegará às mãos corretas. As REDES DE APOIO AOS BRASILEIR@S FORAM CRIAD@S E SE EXPANDIRÃO NA VELOCIDADE DA LUZ! Não se desesperem. Dessa vida só levamos o mais bonito e o aprendido. Paulo Pavesi, eu sinceramente sinto muito pela morte do seu filho. Tenha certeza, que se eu soubesse da sua história na época, implicaria minha vida e segurança como fiz com centenas de pessoas. Damares, eu sei que você não teve tratamento psicológico quando deveria e teve sequelas, servindo de marionete neste sistema de merda que te cooptou, acolheu e com o qual você se sente em dívida o resto da sua vida. Não tenho dúvidas que você amou e cuidou da sua “Lulu” como gostaria de ter sido cuidada e protegida na sua infância, mas ela nao é uma bonequinha bonita que você poderia roubar e sair correndo… Giulio Sa Ferrari, eu te considerei um irmão e você sabia de todas as minhas rotas de fuga… eu vi em você a pureza de um menino que nunca foi notado por uma sociedade neurotípica que não entendia os neuroatípicos, mas reputação é algo que se constrói e não é de um dia ao outro. Gabriela Manssur, muito obrigada por me fazer ter esperança de que elas serão ouvidas e atendidas em suas necessidades. João de Deus, Prem Baba, Gê Marques, Ananda Joy, Edir Macedo, Marcos Feliciano, DeRose Pai, DeRose filho, todos os padres, pastores, bispos, budistas, espíritas, hindús, umbandistas, mórmons, batistas, metodistas, judeus, mulçumanos, sufis, taoístas, meus familiares, Marcelo Gayger, Jorge Berenguer, eu desconheço a sua infância e a sua criação pelo mundo, mas sei no meu íntimo que TODO MENINO NASCEU PURO e foi abusado, corrompido, machucado, moldado, castrado, calado, forçado a fazer coisas que não queria, até se converter talvez, cada um à sua maneira, em tiranos manipuladores (em maior ou menor grau) que ao não controlar os próprios impulsos, tentam controlar a quem consideram mais frágil e assim praticam estupros, pedofilia, adicções diversas… Eu sei, eu sinto, eu vi. Mas ainda assim, preferi SEMPRE ficar do lado mais frágil nesta breve existência: mulheres, crianças, idosos, jovens, povos originários, afrodescendentes, refugiados, ciganos, imigrantes, migrantes, pessoas com deficiência, gays, pobres, lascados, fodidos, rebeldes e incompreendidos… Essa vida é uma ilusão e um jogo de arquétipos do bem e do mal, de dualidades… desde que o mundo é mundo. Vivo num outro tempo desde que nasci e sempre senti que vivia num mundo praticamente medieval. Volto pro vazio e deixo minha essência em PAZ. Aos meus amigos, amadas e amantes, nos encontraremos um dia! Sintam meu amor incondicional através do tempo e do espaço. SIM e FIM.”

NA PÁGINA DE SABRINA, POR SEU FILHO, GABRIEL

Gabriel Baum – 09 de Novembro de 2018

“Mainha!
Ela eh minha melhor amiga. A mulher foda q eu sei q jamais vai ficar do meu lado se eu fizer qq pessoa sofrer.
Cara, eu reclamava tanto disso qdo era mais pirralho! Hoje entendi que ela me educou assim pra q nunca eu fosse omisso, conivente ou fechasse os olhos para as injustiças do mundo! Ela não me defende qdo eu piso no tomate e me lambuzo na jaca.

Mas ela cruza os oceanos até pedindo carona em cargueiro se precisar para me apoiar nos meus sonhos.
Mãe, você tirou do papel o meu sonho do veggathome.com junto com nossos amigos. Eu não conheço ninguém como vc! A gente planejou tudo qdo vc ainda tava com câncer, lá no México, num pedaço de papel e um monte de post its coloridos… Precisamos dar umas paradas pra focar na tua cura e deu certo!!! sua Highlander kkkk

Minha véia, que não aguenta uma ladeirinha num passeio, mas que movimenta milhares de pessoas incríveis pra gente não desistir de sonhar.

Vlw mãe! A gente se tromba pelo mundo! Te amo
Não esquece viu dona esquecida!! Saudade é o amor que fica.”

  • Esta matéria se baseia em informações da reportagem a respeito, postada domingo, 03/02/2019, no site da revista Marie Claire, e em material colhido no Facebook de Sabrina Bittencourt.

O funeral em que Mamã Grande não foi

A foto do enterro de Genival Inácio da Silva, o Vavá, irmão de Lula, mostra gente modesta, tristeza e uma ausência – Foto de Ricardo Stuckert

HILDEGARD ANGEL – JORNAL DO BRASIL – 31/01/19

Na novela Os Funerais de Mamã Grande, de Gabriel García Márquez, Mamã Grande foi a soberana absoluta deste mundo, morreu aos 92 anos, com a fama de santa, e a seu funeral compareceram do Presidente da República ao Papa, passando por contrabandistas, prostitutas e camponeses, produtores de arroz e bananeiros. Eram incontáveis os bens terrenos de Mamã Grande, que os herdeiros passaram a disputar avidamente, após a partida do corpo da defunta de sua casa. Eles somavam “a riqueza do subsolo, as águas territoriais, as cores da bandeira, a soberania nacional, os partidos tradicionais, os direitos do homem, as liberdades dos cidadãos, o primeiro magistrado, a segunda instância, o terceiro debate” etc.

O funeral de ontem não foi o de Mamã Grande. Foi o de Vavá, estimado cidadão de São Bernardo do Campo, morador há 40 anos na mesma casa, que modesto viveu, modesto morreu. Esse legado de dignidade, ninguém quis reivindicar ou comentar. O que se disputou vorazmente foi de quem seria o maior vexame. Do Judiciário, da Polícia Federal ou do Ministério da Justiça? Nesse vale tudo, até rasgar a Constituição foi permitido. Em causa, porém, estavam, sim, “a riqueza do subsolo, as águas territoriais, as cores da bandeira, a soberania nacional, os partidos tradicionais, os direitos do homem, as liberdades dos cidadãos, o primeiro magistrado, a segunda instância, o terceiro debate”. A vida imitava a literatura.

O que parecia se pretender, naquela pantomima real e farsesca, era fazer um ser vivo de morto, e tornar seu tesouro legado daqueles sem seus méritos, sem seu brilho, a legitimidade das urnas, a competência e o apreço pelas causas brasileiras.

Gulosa pretensão daqueles que hoje desmandam e mandam, prendem e arrebentam, mentem e desmentem, vão em frente e voltam atrás, neste país pelo avesso, em que a marcha à ré vai pra frente, o errado virou certo, o herói se tornou vilão e versa-vice.

A respeito, Gabo escreveria novela mais mágica do que toda a sua obra reunida: “O funeral em que Mamã Grande não pôde ir”.

A comovente tentativa de todos de retribuir a Gisella Amaral o tanto que fez por todos

Em outros países, figuras dedicadas ao próximo e à sua comunidade, como Gisella Amaral, têm as cerimônias de sua despedida devidamente documentadas. Lamento aquelas que se foram e não tiveram esses momentos finais registrados para a memória futura. É a história e são os costumes de um tempo, de certo grupo social e de suas personalidades representativas.

As despedidas de quem morre merecem rituais em todas as religiões. Como se cumprindo um protocolo de desapego, fazem-se, na Igreja Católica, velório, missa, discursos, coroas de flores, féretros, enterra-se ou crema-se. Depois virão as missas de sétimo dia, de 30º, de 1 ano, e de sempre que o falecido é lembrado. Assim, os que ficam vão se acostumando com a inexorabilidade da ausência, com a falta, a saudade. Os católicos acreditam que suas muitas orações e velas iluminam os caminhos celestiais de quem parte para a vida eterna. Os espiritualistas creem na reencarnação da alma, e no poder de se comunicar com ela. Mas o que concretamente ocorre é um processo de adaptação e conformidade diante da ausência do ser querido.

CAMÉLIAS BRANCAS

A missa de corpo presente de Gisella Amaral foi missa de estadista. O cardeal dom Orani Tempesta oficiou, cercado por vários padres, que ministraram a comunhão. Os membros da Ordem do Santo Sepulcro compareceram, reverentes, com suas imponentes capas pretas (as mulheres) e brancas (os homens). Os testemunhos de amigos foram incontáveis. A irmã caçula, Monica, veio do Chile, onde mora, e fez preleção comovente. Mais de uma dezena de jovens, filhas e netas de amigas de Gisella, as netas de Gisella fizeram a coleta de esmolas. As coroas de flores enviadas decoraram, enfileiradas, lado a lado, as laterais da Igreja de São José, superlotada. Algumas pessoas de pé. Gisella, serenamente imóvel, em seu esquife diante do altar, coberta de camélias brancas (a sua flor), maquiada com o batom claro que costumava usar, o risquinho com lápis fazendo os olhos ainda mais amendoados. Estava linda.

De preto, na primeira fila, Ricardo Amaral, que na hora da comunhão se levantou e ficou junto ao corpo, enquanto as pessoas que comungaram passavam por ele e o cumprimentavam. As três netas, o filho Bernardo e a nora Alessandra, junto com ele. No outro banco da primeira fila, Rick Amaral com a tia, Monica, o marido dela, as filhas e maridos.

BONDADE SILENCIOSA

Aqui e ali, ouvíamos comentários sobre boas ações de Gisella. O que mais me impressionou foi o do cabeleireiro panamenho Ricardo de la Rosa. Antes de sair, cochichou em meu ouvido: “Serei eternamente grato a ela. Quando iniciei a carreira no Brasil, a primeira vez em que precisei ir ao Panamá, e não tinha dinheiro, Gisella pagou a minha passagem”. Ao meu lado no banco, Tereza Nunes Ferreira escutou e comentou comigo: “São esses os depoimentos que valem”. Nada mais significativo do que a bondade silenciosa.

PRESENÇA SOCIAL

Os nomes sociais do Rio estavam todos lá. Nos dois sentidos, os da vida social e os da assistência social. Freiras, presidentes de entidades de benemerência, médicos vários, damas da caridade. Os antigos frequentadores da noite carioca, no reinado de Ricardo, e os novos da night, amigos de Rick Amaral, que foi companhia permanente da mãe em seu tratamento. Assim como foram inúmeras boas amigas, como Iná Arruda, Kiki Garavaglia, Tereza Seiler, Regina Ximenes, Ana Luiza Nogueira. Difícil citar nomes ou destacar personalidades, quando a pessoa em pauta é unanimemente amada. Saíram de casa para a missa, aquelas que a gente raramente vê. Deixaram os escritórios, por algumas horas, aqueles a quem é impraticável conseguir acesso. Todas as portas deram passagem aos que desejavam chorar a perda dramática dessa amiga rara.

ESTREPOLIAS DE GISELLA

Gisella foi a última a baixar armas. Na quarta-feira da semana passada, desobedecendo todas as orientações, “fugiu” do tratamento para ir ao enterro de Dayse Mene, casada com seu médico, Rômulo Mene. E ainda fez mais estrepolia, esticando numa missa noturna na Igreja Nossa Senhora da Paz. Na sexta-feira passada foi compulsoriamente internada no Pró-Cardíaco e retirada de circulação pelos médicos e pelo Ricardo. Já era a pneumonia, como um arremate de todos os outros sofrimentos da doença. O outro filho, Bernardo, em Miami, retornou a tempo das cerimônias de ontem.

GRANDE DAMA

E fica a pergunta: quem serão as grandes damas sociais sucessoras desta geração de Gisellas, Carmens, Lillys e outras que se vão?

Foram mais de cinco décadas de seu casamento com Ricardo Amaral, e Gisella aconteceu sempre. Não falo dos seus eventos, viagens e festas cintilantes, que levaram seu fascínio a Paris, Nova York, Miami, Lisboa, o mundo afora, ou da sua beleza e do seu estilo particular e elegante. Falo da grande dama e benfeitora que foi.

Gisella tinha a fé de que quando morremos renascemos para a vida eterna. Amém!

Esta página documenta a missa de ontem na São José, com fotos de Marcelo Borgongino.

As damas da Ordem do Santo Sepulcro, Eliana Moura e Vera Tostes

“Giselinha, meu Amor Eterno, Ricardo Amaral”

Cardeal dom Orani Tempesta, padres Omar, Jorge e Sérgio

A reverência do cavaleiro do Santo Sepulcro

Na primeira fila da esquerda, Ricardo Amaral e o filho, Bernardo. No cortejo, Iná Arruda, Alessandra Amaral com as três filhas e as amigas de Gisella. No banco da direita, Rick Amaral e sua tia, Monica, irmã de Gisella, com o marido.

Maitê Proença

.Rick e seu pai, Ricardo Amaral

Mariza e Jair Coser com Ricardo

Dom Orani cercado de padres e sacristães, com a oficial do Santo Sepulcro, Isis Penido, ao fundo