Socialistas e socialites, na entrega do Prêmio Zuzu Angel pelo PSB

Estávamos no auditório da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro. Eu ali na mesa do palco. Olhei para a plateia lotada, superlotada, gente em pé nos corredores laterais, gente se espremendo na porta pra entrar, e vi, na primeira fila, Mario Priolli, Gisella Amaral, Maria Raquel de Carvalho. Fechei os olhos. Apertei os olhos. E eles já estavam molhados…

Era como se eu visse a primeira fila da Santa Margarida Maria, há 36 anos, na missa de sétimo dia de minha mãe, Zuzu Angel. A igreja do Jardim Botânico cheia de agentes da repressão. Era o ano 1976, em plena ditadura militar, e a igreja lotada, superlotada, gente em pé nos corredores laterais, gente se espremendo na porta pra entrar. Priolli, o boêmio dono do Canecão, famoso por trocar o dia pela noite, pela primeira vez visto de pé às 10 da manhã! A história se repetia…

Como tem se repetido ao longo de todos esses anos, nas missas, nas inaugurações, nas homenagens, nas premiações que celebram minha mãe, Zuzu, e meu irmão, Stuart, ambos eliminados pela impiedosa máquina de matar os que pensavam diferente, que foi implantada neste nosso amoroso país a partir de 1964, com a Ditadura Militar, e por longos e penosos anos. A história se repetia, pois meus amigos, aqueles que ali estavam naquela noite na Alerj, jamais me abandonaram…

Era a minha vez de falar, agradecendo a homenagem in memoriam à minha mãe, prestada pelo Partido Socialista Brasileiro, que instituía, naquela data, o Prêmio Zuzu Angel, honrosíssimo, uma iniciativa da Secretaria de Mulheres do PSB – Rio de Janeiro. Daqui para a frente, este prêmio, com o nome de minha mãe, será entregue anualmente a bravas mulheres que lutaram ou lutam por um país mais justo, sem temer qualquer tipo de obstáculo…

E eu falei assim. Ou mais ou menos assim…. “Quero agradecer ao PSB, aos seus dirigentes, ao ministro Roberto Amaral, que aqui está, ao presidente estadual do partido, deputado federal Alexandre Cardoso, presente nesta mesa da solenidade, à secretária estadual de Mulheres do PSB, Regina Flores, ao deputado estadual, Gustavo Tutuca, à secretária-geral da Executiva Nacional de Mulheres do PSB, Neide Lima, também presentes. Quero agradecer à chefe da Polícia Civil, delegada Martha Rocha, aqui presente. À deputada do PSB, Luiza Erundina, pela delicadeza da carta enviada, bem como à presidenta da República, Dilma Rousseff, pelo mesmo motivo…”

Depois das formalidades, o sentimento: “Mas, sobretudo, quero agradecer aos meus amigos, que aqui estão, e que me acompanham por todos esses anos, em todas as solenidades honrando a memória de meu irmão, assassinado em 1971, e de minha mãe, em 1976. São amizades que eu construí como colunista social. Certamente não têm a ideologia do PSB e do meu irmão, nem pensam como pensava a minha mãe. Mas foram eles que me acompanharam, lotaram os eventos, me confortaram, emprestaram seus ombros para eu chorar, durante todas essas décadas. E também muito graças a eles os nomes e o heroísmo de Zuzu e de Stuart mantêm-se até hoje vivos e lembrados. E sabem por quê eles sempre estiveram ao meu lado, mesmo durante os anos da ditadura? Porque eles não concordam com a tortura! Não concordam! Não concordam com as atrocidades que eram cometidas nos porões de nossos quartéis, sem direito a julgamento, sem nada. Não concordam, jamais concordaram!…

São a elite, sim. São ricos, sim. Mas não concordam que os fundamentos constitucionais de nosso país sejam de tal forma violados. Não concordam! Não concordam que uma mãe de família sofra uma cilada na calada da madrugada e seja assassinada, como foi minha mãe, apenas pelo pecado de buscar o corpo de seu filho. Não concordam! Não concordam porque são pessoas de bem, porque não foi este o Brasil que buscaram. E por isso, nos anos 70 e 80 e até hoje, eu os tive e os tenho ao meu lado, me confortando, amigos sempre”…

E lá estavam Simone Rodrigues, a viúva de Ibrahim Sued, que entusiasmada fez um hurrah! E vi Ilka Bambirra, o empresário Jair Coser, a empresária de moda Mary Zaide com sua filha, a joalheira Henriqueta Hermmany, Renata Fraga, Mylene Peltier de Queiróz, Norma Aleixo, Diana Vianna, Ana Maria Leite Barbosa, Maria Luiza Mendonça. Chegando mais tarde, Ignez e Sergio Costa e Silva. E Anna Clara Herrmann. E Suzana Galdeano. Celina de Farias, Lucia Acar, Lucia Abdenur, além de Andrea Cardoso (com o filhinho João Marcelo), Mary Carvalho, José Ronaldo Müller, Marina Giustino (meus companheiros do IZA e do Blog!). Waldir Leite e Marília Guimarães, a corajosa que sequestrou um avião e foi para Cuba com os filhos, nos idos dos anos 70. Do Tortura Nunca Mais, a Carminha Lapoente. E me perdoem as demais omissões…

Durante a cerimônia, não só a luta de mamãe foi lembrada, mas, também, a de homens e mulheres, como minha cunhada, Sonia Angel Jones, que lutaram bravamente contra a ditadura militar brasileira, muitos deles torturados, mortos ou dados como “desaparecidos”. O ministro Roberto Amaral, vice-presidente nacional do PSB, ressaltou a importância do papel que tem a Comissão da Verdade de esclarecer o que ocorreu durante aquele período, para que as novas gerações tenham conhecimento e aqueles fatos jamais se repitam!

Foi preciso meu marido, o Francis, “contrabandear” para mim um lenço seu, da plateia para o palco, quando Monica Gonçalvez, Coordenadora de Mídias Sociais do partido, leu o texto que, segundo ela, inspirou a cúpula do PSB a “plantar a sementinha deste prêmio”. Trata-se do texto que escrevi e postei neste blog , quando um grupo de militares se reuniu no Clube Militar para “festejar o niver” do Golpe de 64, enquanto, do lado de fora, jovens, que sequer haviam nascido nos anos de chumbo, protestavam com coragem contra aquele ato debochado dos milicos. Eram os “Quixotinhos”, como os chamei, valentes e destemidos…

Para a nossa surpresa, após Monica concluir sua leitura, alguns dos jovens corajosos que vi naquele protesto em frente ao Clube Militar, ali estavam presentes na Alerj e, em coro, clamaram pelos nomes de minha mãe, “Zuzu”, de meu irmão, “Stuart”, e de minha cunhada, “Sonia”. Respondendo, eles mesmos, a cada menção: “Presente!”. Todos se arrepiaram, todos choraram, todos responderam junto. Os socialistas e os socialites. Pois a verdade é só uma e, quando dói, é na alma de todos

Depois da cerimônia, seguimos juntos, socialistas e socialites, para a estátua de Tiradentes, diante do Palácio Tiradentes, cada um levando na mão uma vela, que foram todas acesas em memória daqueles que tombaram na luta contra a ditadura militar brasileira…

Quero abraçar fortemente a todos que estiveram presentes, conhecidos ou não, e aqueles que contribuíram, de alguma forma, para a linda homenagem. Jamais esquecerei…

É preciso lembrar para que não se esqueça. E não esquecer para que nunca mais aconteça!…

Confiram, abaixo, algumas imagens…

Premio Zuzu Angel 1 Socialistas e socialites, na entrega do Prêmio Zuzu Angel pelo PSB

Premio Zuzu Angel 22 Socialistas e socialites, na entrega do Prêmio Zuzu Angel pelo PSB

Premio Zuzu Angel 3 Socialistas e socialites, na entrega do Prêmio Zuzu Angel pelo PSB

Fotos de Sebastião Marinho e cedidas pelo PSB

Pedindo desculpas a todos pela demora em publicar essa reportagem: foi difícil escrevê-la!

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