Quando os cavalos puros-sangues chegaram ao Vale do Cuiabá, levados por Julio Cápua

Prosseguindo a série desta coluna sobre as famosas propriedades do Vale do Cuiabá, que após a grande enchente da Região Serrana tenta se reerguer, e onde uma parte dourada da Sociedade Brasileira escreveu sua História de elegância, bom gosto e de pioneirismos…

O engenheiro Julio Cápua nasceu com uma paixão pelos cavalos. Na adolescência, aprendeu a montar e a saltar na Sociedade Hípica Brasileira e, com o espírito pioneiro próprio do começo dos anos 50, fundou e construiu a única fábrica de cimento branco no Brasil , a Cia. de Cimento Portland Branco Irajá, gerando grande economia de divisas, já que o cimento branco até então era todo importado…

Na Hípica, conheceu sua mulher, Marília, e nos fins de semana seguia para Petrópolis, onde os pais dela possuíam uma casa. Como Julio sofria de asma e a umidade da cidade serrana não lhe fazia bem, começou a procurar áreas próximas, que não fossem tão úmidas. Logo, descobriu e se encantou pelo Vale do Cuiabá, em Itaipava

Julio Cápua comprou lá sua propriedade e, com seu instinto e o conhecimento de engenharia, além do interesse por cavalos, afastou morros e deslocou rios para construir uma casa e um centro hípico com um picadeiro coberto maior do que o da Sociedade Hípica Brasileira…

Além do picadeiro, na área da propriedade havia um ginásio coberto com quadras poli-esportivas, que, quando os filhos, Marilda, Dário, Fábio, Priscila e Elizabeth, cresceram tornou-se um ponto de encontr0 da juventude dourada do Vale…

Ao mesmo tempo, nessa época inicial da propriedade, cresce no Brasil o interesse por cavalos de corrida, com os aficionados passando a adquiri-los e importá-los da França. Ao contrário de outros criadores da época, Julio Cápua nunca teve mais do que 11 éguas em seu plantel de criação, fiel ao lema de que qualidade era mais importante do que quantidade…

Seu interesse por cavalos de corrida levou Júlio a pesquisar na literatura inglesa a forma como criá-los. Assim, descobriu o grande estudioso italiano de cavalos Federico Tesio e, a partir das pesquisas desenvolvidas por ele, Julio concluiu que um centro de treinamento para cavalos de corrida em Itaipava seria um passo inteligente, inovador, criativo e à altura dos desafios que ele gostava de enfrentar…

Tudo foi analisado: desde a altitude de Itaipava em relação ao nível do mar, o clima seco, a distância do Jockey Club do Rio, chegando até à pureza da água no Vale do Cuiabá. Boa companheira, Marília Cápua aprendeu a montar e passeava nos seus cavalos puro-sangue pelo Vale, em um estilo muito elegante que os visitantes e outros moradores do lugar definem como inesquecível…

Nos estudos de Federico Tesio, Cápua aprendeu que um cavalo, vivendo e treinando em uma razoável altitude em relação ao nível do mar, produzia mais glóbulos vermelhos e, portanto, mais resistência do que outro animal vivendo e trabalhando ao nível do mar. Logo, se a corrida fosse ao nível do mar, o cavalo que chegasse da montanha horas antes do páreo teria enorme vantagem sobre os concorrentes. Hoje, a teoria é utilizada em larga escala, até por maratonistas, mas na época ninguém sabia sobre sua aplicação em cavalos, não fosse pelos estudos de Tesio…

Assim, após adquirir uma área vizinha ao centro hípico e novamente afastando morros e deslocando rios, uma área plana de aproximadamente 400 mil m² foi conseguida para a construção da pista além de cocheiras, residência do treinador e demais benfeitorias para dar suporte ao centro de treinamento…

Um verdadeiro paraíso também para os demais criadores, pois, quando Julio Cápua dispunha de vagas em suas cocheiras, ele recebia animais de outros haras, que também podiam desfrutar do centro de treinamento…

Os filhos cresceram nesse ambiente e, junto com eles, uma turma de amigos que aprenderam a montar e também se apaixonaram pela criação dos puros-sangues. Algumas gerações da socioedade carioca conheceram o Haras Boa Esperança e a casa dos Cápua e nunca se esqueceram dos momentos maravilhosos que desfrutaram na propriedade…

A preocupação social também mobilizava Julio Cápua e Marília, que, impressionados com a comunidade carente do Vale da Boa Esperança e Cuiabá, onde crianças morriam de sarampo, no final dos anos 40 adquiriram, próximo ao Centro de Treinamento, uma área de 150 mil m², onde construiram a sede da Assistência Social Santa Terezinha

A obra social é composta por duas Igrejas, a escola Santo Antonio, com capacidade para 300 crianças que cursam todo o curso primário, campo de futebol, área de recreação, além de assistência religiosa extensiva à comunidade. A obra foi totalmente mantida por Marília Cápua, até a sua morte, em 2009, e após isso prosseguiu, com o apoio do Instituto Pró-Saber, da Secretaria de Educação de Petrópolis…

Em novembro de 2010, no centro do Vale do Cuiabá, foi inaugurada a Praça Marília Cápua, em gratidão a essa personagem lendária do Vale do Cuiabá, mulher caridosa e também, assim como o marido, uma pioneira da região…

Infelizmente, toda essa área maravilhosa foi devastada pela inundação do rio, coberta de lama, com grandes, imensos, prejuízos!…

Abaixo, fotos antigas, da época dos “retratos em preto e branco”, da propriedade dos Cápua, com seu haras…

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