Quando a noite vem…

Foi um fim de semana alegre e triste…

A alegria ficou por conta de uma boa descoberta carioca, o Peixaria, ali na General San Martin, ao lado do L’Ami Martin, com decoração azul e branca do Jimmy Bastian Pinto, e a casa reuniu numa mesma noite o Jimmy, a Verinha Bocayuva, o Pedro Guimarães, festejando aniversário, o Robert Caballero e um elenco inteiro de Nabuco, Afraninho inclusive. O Peixaria é uma casa com cheirinho, charme e DNA de Rio de Janeiro. Carioquice total. E o precinho ó…

A tristeza, por conta de três mortes sentidas e três velórios, com as pessoas chegando e partindo de um para os outros, onde se reencontravam para novamente chorar amigos mortos: o antropólogo Gilberto Velho, o cineasta Paulo Cesar Sarraceni, a psicanalista Ana Lia Vianna Ambrosio, considerada uma das maiores poetas prosistas da atualidade e também figura muito estimada da sociedade do Rio, irmã do Eduardo “Verde” Vianna, ex-presidente do Bradesco Seguros e do Country Club

E concluo aqui este post com um texto de Ana Lia Vianna Ambrosio, praticamente uma despedida…

QUANDO A NOITE VEM

Quando a noite vem — mais uma jornada que se foi, levando um pouco de mim e a eterna incerteza do amanhã. Respiro fundo, recuperando energia, brisa, ânimo, para um novo tempo. Namoro as primeiras estrelas a despontarem no mesmo céu de antes, tão exigente e mau, frente aos meus tímidos passos. Quando a tarde cai.

Quando vem a noite — relaxo ao som natural das enluaradas canções e causos, que espelham o itinerante caminho reinventado a cada momento. Retorno, alívio, à morada ilusória dos sonhos recuperados após imensas travessias: doloroso não possuir abrigo, acalanto, nem amigos. Quando cai a tarde.

Triste é viver na solidão…

Quando a noite vem — meus olhos palpitam incessantes, enternecem rasgos de generosidade bem como os de egoísmo. Salvos pelo valente príncipe que habita corações e cativeiros: vizinhos no paraíso? Nas verdes matas, nas profundezas dos arquipélagos, nas colisões do dia-a-dia. Quando a tarde cai.

Quando vem a noite — de mansinho recolho imponderáveis rastros espalhados por onde andei. Fagulhas perpetuam andanças e andanças: mergulhadas nos poemas a ti dedicados, repletos de rimas, mel, métricas. Certeiro o pêndulo, oscilando sob o marulho das tristes ondas, mas curioso no olhar. Meu. Quando cai a tarde.

Triste é viver na solidão…

E se a noite não vier? Falhar ao fim do derradeiro ato? Esperança, onde andarás? Nas asas de um fiel pássaro de fogo? Adormeço qual um anjo, aguardando… Quando a noite vem.

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