Para quem curte arte em sua melhor forma: a expo de Lilian Pacce: Yés, nós temos biquíni!

Se havia ainda algum resquício de preconceito quanto a moda ser arte, arte ser moda, ou as  duas coisas ao mesmo tempo, ou vice versa ao contrário, toda e qualquer dúvida se dissipará depois de uma visita à mostra Yés! Nós Temos Biquíni, que ontem abriu portas e várias salas, no CCBB.

Com a curadoria da jornalista especializada em moda, Lilian Pacce, a exposição transcende o mero relato do advento daquele traje, há 70 anos, e nos faz, logo de cara mergulhar num passado glamouroso, de maiôs dourados, peitos empinados, mulheres pudicas encobrindo “monte de vênus” nos maiôs de látex, maillots com as bainhas lá em baixo, quase uns macaquinhos, duas peças bem intencionados, tudo isso sob um pano de fundo azul celeste, com manequins que são “mulheres de areia” (com textura de areia), plantadas sobre ondas brancas, achados cenográficos sensacionais da dupla de artistas, muito talentosos, Pier Balestrieri e Sergio Fuentes, cenógrafos que assinam a mostra.

Os trajes de banho vêm na sequência de sua evolução, e vemos os primeiros biquínis, aqueles de lacinhos e rendinhas, os de pano, e depois os ‘asa delta’, os ‘fio dental’, os biquínis da Bumbum, e lá vêm eles evoluindo, se impondo, com o Brasil dando as cartas nessa especialidade. Um painel interessantíssimo composto por Pacce.

Na sala seguinte, um paralelo das tangas contemporâneas, inspiradas na cultura indígena, com sua matriz: as tangas indígenas propriamente ditas, que, perdoem-me os estilistas de hoje, são incomparáveis em sua beleza profunda. Tangas marajoaras do período pré-colombiano, cedidas pelo Museu de Arqueologia e Etnologia – USP, mostram que elas eram usadas por aqui muito antes do descobrimento, mas os portugueses colonizadores, moralistas, não as viam como “roupa”.

Uma sala em que os biquínis estampados são preenchidos por corpos etéreos, com ares de ficção científica…

Os grandes artistas da moda praia, Amir Slama, Isabela Frugiuele (Triya), Adriana Degreas, Azulay, Jacqueline De Biase (Salinas) fazem pas de deux de seus trabalhos com artistas de outras praias, como Marcela Tiboni, Claudio Edinger, Elen Braga, Beatriz Milhazes, Glauco Rodrigues, Jorge Fonseca,  Gonçalo Ivo, J. Borges, Maria Martins.

As lentes sensíveis da expressão humana e da moda, lá estão com algumas de suas obras-primas expostas – Alair Gomes, Cartiê Bressão, Fernando Schlaepfer, Frâncio de Holanda, German Lorca, Julio Bittencourt, Otto Stupakoff, Pierre Verger, Rochelle Costi,  Thomaz Farkas, Antonio Guerreiro, Bob Wolfenson, Tripolli, Claudia Guimarães, Daniel Klajmic, Klaus Mitteldorf, Marcelo Krasilic, Miro, Vavá Ribeiro. e Willy Biondani.

Um espaço inteiro para Leda Catunda – e bem ela merece, que beleza! Na última sala, barulho e cheiro de maresia, experiências de praia, a pele pinica imaginando a areia, pena não ter levado o baldinho pra molhar o pé, diante das obras de Cássio Vasconcellos e Katia Maciel.

No mais, com a palavra o gerente geral do Centro Cultural Banco do Brasil, Fabio Cunha:  “A moda, para além de seu propósito inicial que é vestir o corpo, sempre esteve relacionada a questões sociais, culturais, políticas e econômicas. Esta exposição traz uma diversidade, que sempre buscamos para a programação do CCBB e apresenta um diálogo entre o elemento de maior representação brasileira na moda mundial com obras de arte contemporâneas que desafiam o visitante a interpretar essas associações”.

Depois de Yves Saint-Laurent, é a segunda vez que o CCBB se abre para a moda, mas, com esta visão cultural abrangente demonstrada por Cunha, acreditamos que mais moda virá por aí. Os admiradores, penhorados, agradecem.

FICHA Técnica
Cenografia: Pier Balestrieri e Sérgio Fuentes
Comunicação visual: Kiko Farkas.
Consultoria de arte contemporânea: Sandra Tucci
Coordenação geral e produção executiva: Com Tato Agência Sociocriativa.
Curadoria Lilian Pacce, autora do livro O Biquíni Made in Brazil.
SERVIÇO
Yés! Nós Temos Biquíni
Exposição: de 15 de maio a 10 de julho
Mostra reúne 120 obras para celebrar os 70 anos do traje que transformou o comportamento da mulher,
De quarta a segunda, das 9h às 21h
Rua Primeiro de Março, 66. Centro, Rio de Janeiro, RJ. 20010-000
Telefone: (21) 3808-2020
E-mail: [email protected]
http://www.bb.com.br/cultura
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http://facebook.com/CCBB.RJ
A primeira relíquia à entrada da exposição é o maiô dourado de látex aveludado, década de 1950, com aquele “saiote” pudico, para encobrir o “monte de Vênus”, diretamente de um mergulho na piscina do Copacabana Palace para o CCBB.  Um empréstimo do museu da Casa Zuzu Angel de Memória da Moda do Brasil, a peça integra a “Coleção Karolina Lewandovski”.
Os duas-peças clássicos, dos anos 50, bem como o composto maiô Catalina, preto de bolinhas brancas – da “Coleção Martha Rocha”, empréstimo do museu da Casa Zuzu Angel de Memória da Moda do Brasil
Este maiô “engana mamãe”, da Salinas, encerra a primeira parte da exposição e é  representativo de tudo que a moda pode ousar, inspirar e extrapolar os limites com elegância e grandeza de espírito. Ele pretende celebrar o corpo humano, o Rio de Janeiro e, mesmo, a liberdade da crença. Contudo, a Cúria Metropolitana interpretou de outra forma e, como ela possui a patente do Cristo Redentor, vetou esta obra de arte da moda, proibiu sua comercialização. O maiô estava guardado, escondido, debaixo da piscina de Jacqueline de Biase, criadora da Salinas, e de lá saiu exclusivamente para fazer história nesta mostra de Lilian Pacce no CCBB.
Esta jornalista, presidente do Instituto Zuzu Angel e diretora da Casa Zuzu Angel, que cedeu peças à mostra, com Lilian Pacce, curadora da exposição tão importante, que merece muito ser visitada.
A faixa de Miss Brasil é um clássico do universo dos maiôs. Ela era usada pelas vencedoras dos “certames” sobre os maiôs “Catalina”, marca tradicionalmente patrocinadora, e era uma apoteose! Esta é a faixa das faixas, pois pertenceu à miss das misses: Martha Rocha! Foi usada em 1954. Bordada com fios de ouro, a faixa de Martha está destacada numa vitrine na primeira sala no CCBB. Ela integra o acervo da Casa Zuzu Angel de Memória da Moda do Brasil – “Coleção Martha Rocha”
A roupa performática, com zipers, de Nelson Leirner, vai se desconstruindo até se transformar em biquíni…
A produção do evento esqueceu de incluir a Casa Zuzu Angel nos banners, mas a gente não ficou chateada e se inclui neles, aqui, com photoshop 😉

3 ideias sobre “Para quem curte arte em sua melhor forma: a expo de Lilian Pacce: Yés, nós temos biquíni!

  1. Belo resumo da exposição! Adorei! e muito obrigada pelos maiôs cedidos para a mostra – eles são fundamentais na linha do tempo!
    obrigada e grande beijo
    Lilian Pacce

  2. Querida Hildegard, ter o trabalho reconhecido por vc é uma grande felicidade. Muito obrigado pelo generoso texto e sem dúvida a expografia não poderia estar completa sem os maiôs e a faixa da eterna miss Brasil Martha Rocha, que fazem parte do acervo da Casa Zuzu Angel .
    Viva Zuzu! Viva a moda brasileira!
    beijos
    Pier Paolo Balestrieri

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