Os 10 anos do Instituto Cravo Albin, ao cintilar de lua, velas e brilhantes

A Lua cheia, redondona e amarelada, espiava lá de cima e iluminava mais um jantar naquele pátio, na Urca. Ela já é habituée dos eventos ali, que testemunha desde os tempos em que o decorador Julio Senna montou aquele cenário de inspiração colonial, com vista espetacular para a enseada da Baía de Guanabara, e o batizou de Largo da Mãe do Bispo. Lembra-se, a Lua, enquanto vê os garçons arrumarem as duas mesas redondas para oito, cobertas com toalhas brancas, tendo como centro peças de nosso artesanato – galinhas d’angola de Tiradentes, esculturas de barro do Vale do Jequitinhonha, castiçais de estanho com muitos braços – das festas suntuosas do antigo morador, Senna, que dispunha suas mesas em toda a volta do Largo, formando um quadrado, e seus criados vestiam-se de escravos de Debret, eram altos, negros e lindos, e transportavam dona Maria Cecília Fontes de liteira, escadas acima, pois as pernas já não lhe permitiam a escalada de tantos degraus…

Lembrava-se a Lua dos rodopios da nossa melhor sociedade, na pista ao centro das mesas, dos vestidos longos, e todos de nossa melhor alta costura (época de Zé Ronaldo, Mary Angélica, Iracema, Casa Colette), dos homens de smoking e, às vezes, até de casaca! Festas memoráveis, nos anos 60, 70 e, numa delas, já em meados dos anos 80, Lily de Carvalho fez sua rentrée, no primeiro jantar a que comparecia depois da morte do primeiro marido, Horácio de Carvalho. Para os que não conheciam Lily, Julio cochicou: “Prestem atenção nesta bela mulher. Daqui a um ano ela dará as cartas no Rio de Janeiro“. E, depois do vaticínio do Julio, o resto é História, não é, meus amores?…

Estava a Lua, assim distraída, pensando no passado, quando um brilho a ofuscou. Que brilho incandescente seria esse, a ponto de ofuscar a Lua? Adivinhem… Ora, o brilho do colar e dos brincos fabulosos de brilhantes de Angélique Chartouny. Lépida, sem precisar de escravos nem de liteiras, ela galgou os degraus estreitos que levam ao Largo da Mãe do Bispo, hoje sede do Instituto Cultural Cravo Albin. Em seguida, vieram o ex-cônsul-geral da Grécia no Rio, embaixador Kyriakos Amiridis, Bertha Mendes de Souza, os Serpa, o embaixador Jerônimo Moscardo, a Belita, o Barragat, os cônsules portugueses – embaixadores Almeida Lima, o embaixador René Haguenauer e… que noite esplendorosa!…

Ricardo Cravo Albin celebrava os 10 anos do Instituto Cultural Cravo Albin e, depois do coquetel com croquetes, pasteis de xinxin e empadinhas, no salão da frente, ele reuniu ao ar livre, ao som de um chorinho embriagador, sob mangueiras bicentenárias da época de dom João VI. Impressionado, Haguenauer, quando se serviu da salada com fatias de manga e crudités, comentou: “Vamos comer mangas com 200 anos!”. Assuntos não faltaram ao jantar, depois da visitação, minutos antes, ao acervo do instituto com 150 peças de museu da Era do Rádio, todas da Rádio Mayrink Veiga. O microfone onde cantaram Carmen Miranda e Orlando Silva, fitas de rolo, transmissores e luminosos onde se pode ler em letras grandes: “SILÊNCIO” e “APLAUSOS“. Um belíssimo trabalho…

Também ficamos sabendo que Ricardo Cravo Albin é um gourmet. Ele discorre, à nossa mesa, sobre as receitas dos pratos servidos, o modo de cozinhar a beringela, os temperos. Depois das sobremesas, o discurso de Ricardo, que apresentou a nova conselheira do Instituto – esta que vos fala – e anunciou que, em breve, todos os demais presentes, acaso aceitem o convite, passarão a integrar o conselho…

Em seguida, falou o embaixador Moscardo, presidente de um dos conselhos do Instituto, enaltecendo o gesto nobre e desprendido de Cravo Albin de ter legalmente doado aquele seu imóvel para uma instituição dedicada à memória de nossa música, sua grande paixão. Daí por diante, embalados ao som do grupo Novos Chorões, sorvemos o cafezinho em xícaras antiguinhas, trocamos ainda dois dedos de prosa e, antes de partir feito crianças contrariadas que querem que a brincadeira boa nunca acabe, nos despedimos, reverentes, dos principais personagens naquela noite: as mangueiras centenárias e a Lua cheia com suas tantas memórias…

Fotos de Sebastião Marinho

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Largo da Mãe do Bispo e as mangueiras de 200 anos

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Consulesa Vanda Almeida Lima

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Ricardo Cravo Albin, o anfitrião do Largo da Mãe do Bispo, com o chorinho ao fundo

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