Olhinhos como gotas de mar, Lourdes Lemos de Moraes deixou a lição: “Quem dança também espanta seus males”

Lourdes vivia num mundo de encantamento. Amava apaixonadamente seu marido bonito, de queixo quadrado e furado, e gostava de contar de palácios e príncipes, princesas e, até, rainhas. Tapetes vermelhos, reverências, tiaras, banquetes.

Abria seus olhinhos azul água, que tilintavam como duas gotas de mar clarinho em dia de sol intenso, e contava aquelas histórias com a excitação de uma menina do interior retornando de um baile de debutantes.

E tudo era verdade, sim. Ela tinha, sim, um marido extraordinário, e havia sido escoltada por rainhas e reis, de fato.

Adulada, festejada, ciceroneada pelos faustosos salões europeus e, até, os orientais, nas muitas idas e vindas de negócios com o marido, um dos maiores industriais do Brasil, Wilson Lemos de Moraes.

Ele havia criado e feito expandir o grupo Supergasbrás, além de possuir quilométricas fazendas de gado em Minas Gerais, São Paulo, no Pantanal, indo até a Amazônia, e serem os maiores revendedores da Scania no país. Uma imensidão de negócios.

Lourdes, no pra lá e pra cá dos business, sempre viajando com o marido, pelo Brasil, de fazenda em fazenda, e também pelo mundo.

Afeiçoados à terra, foi no interior que eles escolheram criar os três filhos, Wilsinho, Marisbela e João Flávio, na liberdade que só a natureza pode proporcionar e com os bons valores da simplicidade e das amizades legítimas das cidades pequenas.

Assim, com esse distanciamento geográfico, os Lemos de Moraes se acostumaram a ver o universo cosmopolita das grandes capitais e do alto mundo através das letras do colunismo social da época, das fotos das revistas Manchete e do monitor da TV.

Antes de serem atores protagonistas de nossa alta sociedade, foram também seus entusiasmados espectadores.

Trazendo esse olhar de admiração pelo alto mundo, seus personagens e as celebridades, eles vieram para o Rio de Janeiro, onde se instalaram no mais prestigioso endereço da época, o Edifício Golden Gate, na Avenida Atlântica, tendo entre seus moradores o ex-presidente Juscelino Kubitscheck e dona Sarah, aparentada de Wilson, além de outros sobrenomes que contavam a história social brasileira, como Alckmin, Chateaubriand e Pessoa de Queiroz.

No prédio ao lado, o Golden State, havia os Magalhães Pinto, os Tancredo Neves, os Pedroso, os Mendes de Souza, os Lage. Enfim, era a República de Minas Gerais instalada na Praia de Copacabana, um edifício coladinho no outro.

Um belo dia, toca o telefone em minha mesa no Globo. Do outro lado da linha, Lourdes Lemos de Moraes. Não nos conhecíamos. Eu era a “interina” da coluna da página dupla do suplemento ELA dos sábados. A colunista titular, Nina Chavs, havia se mudado para Paris e eu respondia pelo noticiário local.

Lourdes, aflita, pretendia isentar um importante banqueiro, casado, morador do prédio ao lado, das fofocas iminentes de um romance dele com a Miss Brasil, Eliane Thompson: “Não é ele quem namora a Miss, é meu filho, João Flávio. É que os dois têm carros parecidos”, ela explicava.

Admirei a preocupação daquela senhora de preservar o vizinho, evitando uma possível injustiça. Daí nasceu uma amizade, que se manteve até poucos dias atrás, quando uma hepatite medicamentosa levou-nos Maria de Lourdes Lemos de Moraes.

Acompanhei vários momentos, etapas e facetas de sua vida. Quando íamos para alguns dias em sua fazenda em Campinas, meu filho recém-nascido, ficávamos numa sombrinha da piscina conversando, falando, falando, falando e chupando tangerina poncã. Eram balaios e mais balaios de tangerina. Ela achava que era a melhor poncã do mundo, e eu concordava 100%. Até hoje não encontrei poncã igual.

Voltávamos para embarcar para o Rio, cedinho no aeroporto, quase madrugada, carregadas de poncãs e mais todos os isopores, engradados, embrulhos, cestos e iglus da Lourdes, com ovos, carnes, jabuticabas, queijos e mais tudo de bom que a fazenda produz.

A cada vez, ela trazia a mesma carga para os filhos, para os netos, para os amigos, para toda a prole, que sempre soube prover e cuidar. Era uma provedora de todos, todo o tempo. Com que satisfação fazia isso!

Nos tornamos compadres. Wilson era padrinho de meu único filho, Lourdes assim se considerava madrinha. E como tal agia. Ela foi presente durante toda a infância e a adolescência de meu filho, atenciosa, preocupada. Uma amiga de fato.

Quando Wilson ficou doente, foi nosso também o seu sofrimento, multiplicado pela nossa impotência de ação.

O primeiro a diagnosticar a doença de meu compadre foi o grande clínico, dr. Aloysio Salles. Estávamos em mesa redonda numa festa da Glorinha Pires Rebello. Odaléa Brando comentou: “Dr. Aloysio, o Wilson está tão quieto, ele está bem?”. Ele: “Não, não está. Lourdes, leve Wilson em meu consultório”. Lá, foi diagnosticado o início de um processo de Parkinson.

Determinada a curar o marido, Lourdes peregrinou de grande especialista em grande especialista, de sabichões locais a internacionais, que lhe prometiam milagres, curas salvadoras, pesquisas científicas de ponta.

Diagnósticos contraditórios de grandes medalhões, sempre prescrevendo novas medicações. Wilson servindo de cobaia a toda aquela química, e nada funcionava. Uma fortuna era despendida na busca da saúde perdida. Paradoxalmente, Wilson se mantinha fisicamente bem, um touro forte, corado. Porém, cada vez com menor lucidez, não falava mais, não reconhecia as pessoas.

Por fim, o diagnóstico final: o mal de que ele sofria era mesmo o Parkinson interno (dr. Aloysio estava certo!). Seu grande problema se tornara a intoxicação pela ingestão excessiva de drogas (remédios) por longo tempo, que atingiram seu cérebro, gerando sequelas irreversíveis.

O empresário poderoso foi vítima das promessas vãs de médicos inescrupulosos.

Se não fosse tão rico, quem sabe tivesse conseguido se tratar do Mal de Parkinson interno como qualquer comum mortal?

Foram 30 anos de buscas, expectativa, sofrimento. Trinta anos de morte em vida para Wilson e a doce Lourdes.

Com a presença em casa de um marido ausente, Lourdes buscou fuga na dança. Em vez de chorar, embriagava-se dando piruetas. Tinha como lema “quem canta e dança seus males espanta”, e dançava o mais que podia. Bastava o som de uma canção que Lourdes saía rodopiando sua leveza graciosa e sorridente. Tornou-se um exemplo e referência de alegria, apesar de toda a carga de sofrimento que suportava em seu cotidiano. E não era pouca.

Ela morreu aos 89 anos, completados no último 6 de março, cercada dos filhos e netos, dançando ao som de “Moda Sertaneja”, na fazenda que amava, em Campinas.

Estará sempre dançando, quando nos lembrarmos dela.

Para os que sentiam ternura, carinho, pela Lourdes, ela era, é e sempre será a nossa frágil Lourdinha, mergulhada em suas gotas azuis.

lourdes lemos

Lourdes Lemos de Moraes acostumou-se a usar chapéu para se proteger do sol na fazenda. Tinha a pele frágil, com sardas. Com o tempo, ampliou esse costume. Era comum vê-la com seus chapeuzinhos de palha, de tecido ou de crochê, mesmo à noite. Virou sua marca registrada. O que lhe dava um ar sempre brejeiro, quase infantil.

Foto de Sebastião Marinho especial para este blog

10 ideias sobre “Olhinhos como gotas de mar, Lourdes Lemos de Moraes deixou a lição: “Quem dança também espanta seus males”

  1. Prezada Hilde,
    Conheci Dona Lourdes através do Movimento Monárquico,pois ela era monarquista, e logo me simpatizei com o seu modo esfuziante de viver,que você que privou da intimidade dela, soube tão bem descrever.Uma pessoa muito engraçada,com muita vitalidade.Quando soube da sua morte,lembrei – me com carinho e fiquei triste…Que descanse em Paz!
    Jean

  2. Hilde,

    As vezes é preciso falar pouco para dizer muito!
    Você fez os dois: em poucas linhas disse tudo e em algumas linhas jogou o que havia dentro de você, emocionalmente.
    Desconfio das pessoas que são isentas de emoção. Sou vacinado em relação a essas pessoas, infelizmente ou não.
    Você falou, mais uma vez, de dentro do coração, em relação a uma pessoa que tinha estima.
    Não a conheci nem aos seus familiares; mas me sensibilizei.
    A vida nos pega umas “pecinhas”; mas esse, realmente é o mistério da vida!
    A gente podia questionar, e questionamos, porque e qual o porquê disso com alguém?
    Ah se soubéssemos!
    Continue sendo a Hilde que fala pelo coração; mesmo que esse coração forte, passível de ser machucado e, que conhece – como eu -, um “bocadinho” das armadilhas que nos são jogadas no dia a dia, não se cala e nem “arreda pé” quando há a verdadeira necessidade de se expressar por ele, o coração e para nós, a razão.
    Beijos e permaneça HILDESENTIMENTO.

  3. Se não fosse a Lourdinha a usar, aquele chapeuzinho seria cafona, se não fosse dela… Era engraçado como ela se impunha galhardamente com seu chapeuzinho e seu estilo inusitado de vestir. Eramos amigos de sempre e ela costumava tirar-me pra dançar pois sabia que eu era do time… Era um verdadeiro esparramo, os amigos paravam para nos assistir. Uma vez, num ” reveillon ” da Regina, vários amigos nos filmaram dançando, não por mim mas por Lourdinha que, apesar da idade, acompanhava qualquer criação que eu impusesse pra desafiá-la. Era uma figura, era o máximo, certamente vai alegrar o céu !!!

  4. Hilde, boa noite! Linda e tocante a matéria sobre a saudosa Lourdes Lemos de Morais – que conheci muito no Rio, nos anos 80! Sem dúvida era uma mulher marcante de grande personalidade. Vc soube retratar com sabedoria! Parabéns!

    Jota Mape

  5. ME EMOCIONEI COM A ESTÓRIA DELA!!SOU AMIGO DO NETO DELA JOÃO FLAVIO ,PASSEI MUITOS RÉVEILLON ,NA CASA DA FAMÍLIA SEMPRE MUITO BEM RECEBIDO POR TDS !!LUZIMAR ,ISABELA,GI,JOÃO FLAVIO PAI O REI DA LUTA ,ETC.O JOÃO ,FALAVA COM ELA,VOVOOME DA UMA FESTA DE RÉVEILLON E ELA SEMPRE DAVA PRA ELE ..E ELA AMAVA DESCER DO APARTAMENTO DELA , E DANÇAVA COM TODOS !!ELA TINHA UMA ENERGIA QUE TDS FICAVAM DE QUEIXO CAÍDOS !! SENTAVA PRA CONVERSAR COM ELA ELA ,SEMPRE ME DAVA CONSELHOS BONS..INCLUSIVE ELA ESTAVA ME DANDO CONSEHOS NESTE DIA DA FOTO ESTAVAMOS SENTADO JUNTOS AI!!FALA PRA MIM ANDAR COM A CABEÇA SEMPRE EM LINHA RETA !!
    QUE EXISTIA MUITA GENTE RUI NESTE MUNDO..MAIS QUE EXISTI MUITAS BOAS TBM!!PRA MIM SABER COM QUEM EU ANDO!!E PEDIA PRA FALAR PRO JOÃO, FILHO PRA CUIDAR DO PAI DELE !!EM FIM SOU DO INTERIOR E CONHECIA A FAMÍLIA ATRAVES DO JOÃO FLAVIO,FILHO,UM MENINO LINDO DE SE VER TBM!!SE FOR FALA DELE AQUI ..FICO ATÉ AMANHÃ !!!EM FIM LURDINHA LINDA !!QUE O PAPAI DO CÉU ESTEJA AO SEU LADO SEMPRE!!
    OBRIGADO POR TUDO TE AMAMOS ..FERRERA JR

  6. Fiquei chocada com esta noticia. Acompanhei por muitos anos o sofrjmento de D.Lourdes Lemos de Morais, aparando as arestas entre filhos, problemas de saúde do João Flavio Filho, enfim tudo ela conseguia contornar. Enfim um dia Deus a levou, que descanse em paz.

  7. Pingback: Leilão dos reis do gás: tradição mineira, raízes rurais paulistanas, o apogeu do refinamento | Hildegard Angel

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