No Xou da Xuxa não cabia a verdade. Agora cabe!

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No Xou da Xuxa não cabia a verdade. Agora cabe!

 

Pasma com as manifestações que leio no Facebook a propósito das declarações da Xuxa, postadas pela melhor elite brasileira. Pasma e entristecida pela incompreensão humana. A fúria com que as pessoas se atiram sobre as vísceras alheias. Com que se outorgam o papel de julgadoras, vestindo capelo e toga, inclusive, mas sem colocar a venda da imparcialidade.

Chocada por ver entre elas até uma psicanalista, que teria como princípio profissional a compreensão da mente humana e os caminhos tortuosos que esta percorre até formar uma pessoa. E quando vemos esta pessoa pronta, existindo, ela não é nada mais do que uma coleção de retalhos, um juntamento de pedaços de todos os fatos de sua vida, que a constituíram e fizeram do jeito que ela é e está, do jeito que deu pra ficar.

Assim é a Xuxa, assim somos nós quando adultos: uma colcha bem costurada e cicatrizada dos carinhos e des-carinhos da infância e da juventude; da compreensão e do desprezo; dos bons exemplos e das más companhias; das premiações e das rejeições; da proteção e do descaso; do cuidado familiar e da distração dos que nos cuidam; do conhecimento e da ignorância; do afago e da violência.

E quando não temos tempo nem de ter juventude, quando – como aconteceu com Xuxa – saltamos a parte da juventude e pulamos da infância diretamente para o campo de guerra que envolve a idade adulta, aí ficam muito piores as cicatrizes e costuras desta colcha, já tão mal ajambrada quando o peso é só pro lado das coisas ruins.

São costuras franzidas, sem arremates, rombudas, desencontradas e tortas. São cicatrizes cheias de quelóides e imperfeições. Costuras e cicatrizes que os olhos não vêem, mas a alma sente e as atitudes da pessoa expõem. Assim, quando Xuxa confessa, de maneira desabrida, o quanto “suja” se sentia por ser abusada em criança, eu, uma psicóloga de meia tigela, ouso teorizar que a imagem que ela passou a projetar quando jovem “modelo e atriz” da sexy e tesuda era uma versão punitiva dela mesma.

Xuxa, coitadinha, menina e adolescente, se julgou e se puniu, aos olhos dela própria, projetando-se assim para a opinião pública, da forma como aquela violência sexual a “transformou”. Bem, assim vejo. Será que os outros não?

Quanta severidade, quanta ausência de compreensão, falta de piedade, de olhar o outro como a si próprio, falta de um livrinho tipo “amai-vos uns aos outros” à cabeceira – aquele best seller milenar ditado pelo barbudo JC, conhecem?

Mas Xuxa teve a capacidade de se reinventar. Reconstruir-se. Mesmo sobre esses pilotis sofridos e contraditórios. Fosse uma anônima, não estaria sendo julgada. Fosse uma hipócrita, muito menos. Porém, por força das circunstâncias, é um personagem que sempre se expôs, sempre, sob a lente de aumento dos olhares nacionais. Radiografada, escaneada, tomografada. A favor ou contra, todos têm algo a dizer sobre Xuxa…

Mas não podem dizer que ela não seja uma vitoriosa. Não podem negar que ela seja uma artista iluminada, que se mantém em evidência desde os primórdios da década de 80. Não podem ignorar sua responsabilidade social, pois é das raríssimas celebridades artísticas que criaram e mantiveram com seu próprio dinheiro uma instituição de apoio aos desvalidos.

Xuxa não tem cultura, é certo. Mas tem coração. Não tem coerência, é verdade, mas não é a única. Não tem bom timing, concordo, pois poderia ter feito esse desabafo mais cedo, quando ainda trabalhava diretamente com crianças e a eficiência e o impacto provavelmente seriam maiores. Mas será que estou correta nesta última assertiva? E o timing do país? Estaria o Brasil preparado, uma década atrás, para ouvir um desabafo desses do último domingo sem espernear? Pelo exemplo dos que agora esperneiam, duvido muito. Tivesse ela aberto seu coração naquela época do Xou da Xuxa, a apresentadora iria era ter perdido seu horário na TV…

 

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