No tempo em que, para a imprensa, grifes valiam menos que a grafia”>No tempo em que, para a imprensa, grifes valiam menos que a grafia

Morreu Ivan Lessa. Os jornais apregoam. Os obituários capricham. Os intelectuais amigos rasgam elogios. Diogo Mainardi afirma que ele foi o melhor escritor brasileiro. Telejornais falam nele sem parar. Globo News faz Especial, explicando a importância de Lessa e do Pasquim. Elsie Lessa, sua mãe, foi a maior cronista do jornalismo cotidiano, nos anos 60/70, em O Globo. Orígenes Lessa, seu pai, romancista, chegou ao posto de “imortal”. Ivan Lessa não estava contratado na imprensa brasileira. Morava em Londres desde a década de 70. Trabalhava para a BBC na internet…

Morreu Millôr Fernandes. As bobinas de papel foram poucas para nossos jornais e revistas imprimirem o muito de elogios que havia e há para se dizer dele, de seu tino, a contribuição de sua inteligência, o talento, o discernimento, o privilégio para a imprensa nacional de tê-lo tido. Ele não estava em revista alguma ou jornal. Ultimamente Millôr podia ser lido apenas em seu próprio blog…

Renato Sérgio, que na minha opinião era um dos mais notáveis textos de nossa imprensa, admirado e respeitado no meio artístico, no qual transitava com a maior desenvoltura, desde seu tempo de Bloch Editores, quando fazia reportagens ótimas, bem, o Renato morreu. Sua missa, numa manhã de sábado, na Igreja de São José da Lagoa, foi triste e concorrida. Nomes importantes da imprensa, do teatro, da literatura, de todos os mundos. De Rosamaria Murtinho e Mauro Mendonça à viúva de Antonio Callado. Ele era the top! Também não estava empregado…

A imprensa brasileira é muito boa para elogiar seus maiores talentos depois que eles morrem. Dar a eles trabalho em vida, isso, nem sempre. Por que as empresas de comunicação se abstêm de oferecer o melhor a seus leitores/ouvintes/espectadores que as fazem lucrativas?…

Enquanto isso, são gritantes os erros históricos, de informação, de conteúdo e até os erros gramaticais encontrados na mídia, impressa ou não. Erros até de concordância, que não raro acontecem, inclusive nas manchetes de primeira página. Hoje pesquei numa legenda de jornal: “os bares atrai…”… Certo, todo mundo erra, mas, num grande jornal, quando isso se torna corriqueiro, é preocupante…

É comum ver na TV jornalistas desses veículos enchendo-se de empáfia, de poses, bocas e caras, óculos com belas armações, bigodes bem aparados. Estão se achando. E a audiência vai consumindo, como se carne de primeira fosse, a capa de filé, a e o acém. Até que um dia morre um daqueles bons de fato, o filet mignon, que andava guardado no freezer do desemprego, enquanto a mediocridade é servida aos nacos, em bandeja cintilante, usando gravata Ferragamo. Bons tempos aqueles em que o jornalismo, antes das grifes, preocupava-se com a grafia e, mais do que o brilho da retórica, com a correção histórica

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