Memória Social Brasileira: Do ‘Joujoux et Balangandãs’ de 1939 ao ‘Cantores do Bem’ deste Terceiro Milênio

Via Alta Privacidade, site “for members only”, de Hildegard Angel, em fase de implantação

Não se constrói um prédio sem fundações, bem como uma sociedade não se funda sem tradições. Para ela efetivamente consagrar-se como um grupo social sólido, deve lastrear-se sobre um conjunto de valores, códigos de comportamento, regras, fatos, que periodicamente lhe inspirem e evoquem memórias exemplares, fazendo-a retornar a situações passadas, revivendo-as de modo renovado, como que numa predestinação.

Dessa forma, as novas gerações reverenciam feitos de seus antepassados, prestando-lhes homenagens, neles redescobrindo experiências e encantos adormecidos.

Foi o que fez a sociedade carioca ano passado e novamente dias atrás, quando reviveu, no Copacabana Palace Hotel – agora sob a bandeira Belmond – o espetáculo ‘Joujoux et Balangandans’, épico da alta sociedade brasileira, apresentado em 28 de julho de 1939 no Theatro Municipal do Rio de Janeiro, em benefit da primeira-dama dona Darcy Vargas, mulher do ditador Getúlio, dentro das comemorações do Estado Novo.

O diferencial daquela encenação foi que dela participaram apenas nomes da elite, talentos ignorados do público, até então restritos aos ‘saraus’ da alta sociedade.

Em cena, um espetáculo de revista, na época uma coqueluche nacional, autoria de Henrique Pongetti, com a colaboração das damas sociais Léa Azeredo da Silveira e Ilda Boavista e cenografia do multitalentoso Gilberto Trompowsky, colunista de O Globo e artista plástico. Na trilha sonora, músicas de Nássara, Ari Barroso e Lamartine Babo. No elenco em cena, estava Mario Reis, dublê de colunável e cantor de sucesso, que se apresentou interpretando a marcha de Babo, ‘Joujoux et Balangandans’, fazendo dueto com Maria Clara de Araújo, conhecida como a Mariah da alta Roda, e que foi a música mais cantada no carnaval daquele ano de 1939.

Moças da sociedade cantaram e se apresentaram no palco, em danças coreografadas, causando furor, o teatro veio abaixo em aplausos. Dona Darcy arrasou com sua iniciativa.

Os depoimentos da época eram de que “parecia aquelas festas de cinema, elegantes, de sonho, só com pessoas lindas e bem vestidas”. E houve quem se lembrasse do casaco de peles brancas de dona Darcy Vargas, num tempo em que fazia frio pra isso no Rio de Janeiro.  O Cassino da Urca gostou e repetiu em seu palco uma festa parecida, com jovens do high.

Vamos juntos passear por essas memórias e essa tradição, até sua repetição nos dias de hoje, pelo Copacabana Palace, numa iniciativa da diretora geral do hotel, Andréa Natal…

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Nos Anos 30, era uma exceção – praticamente um tabu – haver nomes da alta sociedade pontificando profissionalmente no mundo do show business. Vê-los em quantidade no palco do Theatro Municipal, só mesmo com as bênçãos, a obra e a graça da mulher de um ditador da República, em nome da divulgação do Estado Novo, a pretexto de se fazer caridade… Porém, preconceitos são superados, tabus caem por terra e, de lá para cá, as mentes se abriram e todos ganhamos com isso. No cinema, Greta Garbo e Audrey Hepburn, jovens da aristocracia, brilharam como grandes divas. As netas do escritor Ernest Hemingway, o neto de dona Filomena Matarazzo, o filho de Walther Moreira Salles e da ‘Mais Bem Vestida do Mundo’ Elisinha Gonçalves, o bisneto do barão do Rio Branco estão entre os nomes e sobrenomes pinçados aqui para indicar a vocês como a elite do mundo e, particularmente, a do Brasil evoluiu nesse capítulo e liberou suas novas gerações, suas ‘Joujoux’ e seus ‘Joujoux’, para seguirem o rumo de seus talentos e suas veias artísticas, lado a lado com os ‘Balangandãs’, para felicidade geral das plateias e o enriquecimento das artes em geral da Nação brasileira…

Vejam seus rostos coroados e consagrados no painel abaixo…

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Grace Kelly, antes mesmo de se tornar Princesa de Mônaco, já havia nascido em berço de ouro, em uma família abastada, na Filadélfia. Estudou nos mais prestigiados colégios católicos para meninas quando, aos 18 anos, decidiu estudar teatro na Academia Americana de Artes Dramáticas.

O cantor Mario Reis, dito O Bacharel do Samba, foi um cavalheiro dos círculos mais fechados da alta sociedade brasileira.Se formou em Ciências Jurídicas e Sociais na então Faculdade de Direito da Universidade do Rio de Janeiro, hoje Faculdade Nacional de Direito da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ),  na mesma turma de 29 de Ari Barroso, de quem se tornou grande amigo e incentivador, foi ele quem  gravou o primeiro sucesso de Ari: ‘Vamos deixar de intimidades’. Com sua voz bem limitada, estilo João Gilberto, há quem diga que Gilberto inspirou-se nele.

Outra diva de Hollywood também nascida em berço de ouro, foi Audrey Hepburn. A atriz nasceu na Bélgica em uma família de sangue-azul. Sua mãe, descendente de reis ingleses e franceses e seu pai, banqueiro.

A top model Cara Delevingne faz parte de uma família que pertence à alta aristocracia inglesa. Sua avó era uma das damas de companhia da princesa Margaret.

Supla, além de filho de Eduardo e Marta Suplicy, é herdeiro de uma das famílias mais tradicionais de São Paulo, e neto de dona Filomena Matarazzo.

Brooke Shields tem histórico de descendentes nobres. Seu pai era um alto executivo da Revlon, seu avô um tenista consagrado e sua avó uma princesa cuja família ganhou fortunas através da administração das finanças do Vaticano.

O cineasta Miguel Faria Jr é desde o advento da idade adulta verbete do livro Sociedade Brasileira. Cacá Diegues também é. Desde que se casou com Renata de Almeida Magalhães.

 Rosita Thomáz Lopes era uma das Dez Mais Elegantes do colunista Ibrahim Sued até ser descoberta pelo teatro e revelar-se uma notável atriz nos palcos e na TV. Ela estreou no teatro amador, no Tablado, e percorreu uma carreira respeitável e muito importante.

Sylvia Bandeira foi outra de berço de ouro, que começou como “cocadinha” das colunas sociais, fez um casamento coroado com o herdeiro da cadeia Bob’s de lanchonetes, mas resolveu abraçar a carreira de atriz, foi obstinada, e mostrou sua grande presença cênica, nos palcos e nas novelas de televisão. Hoje, é produtora de si mesma, fazendo espetáculos itinerantes por todo o país, com casas cheias. Grande Sylvia.

O fotógrafo consagrado internacionalmente Miguel Rio Branco, bisneto do barão do Rio Branco, é filho do embaixador Miguel Paulo José da Silva Paranhos do Rio Branco,

A diva Lana Del Rey é filha do acionista Ray Grant, que detém as ações em uma agência de marketing avaliada em mais de 2 bilhões de Reais.

O roqueiro Julian Casablancas, vocalista do Strokes, é filho do falecido John Casablancas, dono da agência de modelos Elite. O mesmo homem que descobriu Gisele Bundchen e tantas outras ultra-super models. Julian cresceu em Nova York e frequentou as melhores escolas na Suiça.

O diretor Walter Salles é filho do banqueiro e embaixador Walther Moreira Salles e da embaixatriz Elisa Margarida Gonçalves.

O ator e escritor Gregório Duvivier nasceu na tradicional família Duvivier. Seu pai, o escultor e saxofonista Edgar Duvivier. Sua mãe, a cantora e violinista Olivia Byington.

As irmãs atrizes Mariel e Margaux Hemingway dispensam apresentações: netas de ninguém menos que o grande escritor Ernest Hemingway.

A crítica de arte e dramaturga  Barbara Heliodora é filha da poetisa Anna Amélia Carneiro de Mendonça, um dos nomes mais proeminentes da cultura nacional..

O artista plástico Luiz Áquila também é verbete  do Sociedade Brasileira. Letra R, de Rocha Miranda. Família que muito se distinguiu em vários setores na vida empresarial brasileira. Notadamente nos loteamentos e seguros.

Guilhermina Guinle vem da prestigiada família Guinle. Seus avós, Otávio Guinle e dona Mariazinha, construíram nada menos que o hotel mais famoso e esplendoroso do Brasil, o Copacabana Palace.

As irmãs atrizes Kate e Rooney Mara são herdeiras de dois times de futebol americano. A mãe fundou o Pittsburgh Steelers. Já o avô por parte do pai, Tim Mara, é ninguém menos do que o fundador do famoso New York Giants.

O músico Adam Levine, do Maroon 5, é herdeiro da cadeia de lojas de departamento M.Fredric, fundada por seu pai.

Abaixo, o registro do segundo evento Cantores do Bem, no Copacabana Palace, com a partiicpação especial de Paulo Ricardo, o único profissional no palco,L

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Fotos de Miguel Sá

Em benefício do Solar Meninos de Luz, obra social que tem feito trabalho importante com a infância nas comunidades mais desassistidas de Copacabana, Cantagalo e Pavão e  Pavãozinho, a diretora-geral do Copacabana Palace Hotel, Andréa Natal, arregimentou um grupo de amigos interessados em ajudar e realizou o 2º evento Cantores do Bem – desta vez ‘Cantam Roberto Carlos’.

Um espetáculo nos moldes da revista ‘Joujoux et Balangandans’ que fez história na década de 30, reunindo no palco do Cristal Room do Copa  nomes da sociedade carioca, que – e isso eu pude pessoalmente atestar – só não fizeram carreira no mundo artístico porque assim não desejaram.  Não digo todos eles, mas pelo menos uns 80%, e olha que o percentual é alto!

O show dirigido por Haroldo Costa, também mestre de cerimônias, abriu com Andréa Natal e Jayme Drummond, brilhando e interpretando “Amigo”, homenageando o saudoso amigo (de todos nós) Zau Olivieri, que assistiu à performance e se deliciou de seu camarote no andar de cima deste mundo, mundo, vasto mundo…

Seguiu-se Ana Cristina Villaça, em longo enviesado prata, acompanhada de sax, dizendo em seu gogó cheio de romantismo que ‘estrelas mudam de lugar’… Bete Floris, bem humorada e cheia de malícia, além de linda, subiu ao palco tentadora, e piscou para o Aldo, em mesa central, enquanto cantava provocante ‘eu quero ser seu travesseiro’… Claudia Martinez vestiu azul e iluminou a cena com seus brilhantes e sua beleza cantando ‘olha, você tem todas as coisas”, enquanto olhava para a direita da plateia… a música tinha endereço, ora se tinha… Aliás, todas as músicas tinham nome, endereço, telefone e CPF, e bota CPF nisso…

Suzana Armbrust, a primeira dama do Gás, interpretou ‘eu te amo’, e olhava lânguida para Mr. Ceg, e ele pra ela, dono do pedaço. As amigas dela, em volta dele, batiam palmas, quanta alegria! Foi mesmo uma festa da amizade… Priscila Levinsohn eletrizou, foi o momento Ivete Sangalo, levantando a galera com ‘eu sou terrível’ com arranjo axé music… Monica Ibeas e Gustavo Moreira de Souza, casal 20, interpretaram “Côncavo e convexo”, ensaiadíssimos, coreografados, afinados, em preto e branco, tão bonitos e bem entrosados, românticos. Foi uma delícia vê-los em cena. Chapeau para o casal!… Fernanda Lynch arrasou na sensualidade e na beleza em cena desfilando voluptuosa sua Força estranha, sílfide, show! E que voz bem trabalhada ela tem! Katia e Paloma Danemberg, mãe e filha, foram o momento alegria, entusiasmo, vibração, sensação. Elas levantaram o Copa. Não houve quem ficasse sentado com sua atuação divertida e provocante com ‘Se você pensa que vai fazer de miiim….. vai ter que mudaaar…”… E olhavam para os respectivos em sua grande mesa. Arnaldo ria, deliciado com a beleza de sua filha e de sua mulher, e de como brilhavam dançando e cantando naquele palco imenso – quanta competência têm as garotas Danemberg!….

Sheila Lustosa enfrentou bem a proposta de sobriedade em “Falando sério”. Estava muito elegante. A curtição coube à dupla Zé Ronaldo e Pedro Guimarães com o “Negro Gato”. E houve quem perguntasse onde estava o bichano…. Dois médicos cantores: João Donato D’Ângelo e Paulo Brum, com repertórios românticos. Aliás, todos os cantores homens escolheram músicas românticas. Casos também de Jayme Drummond, José Crescencio Costa e Luciano Luccas. E todos eles se saíram com muitos aplausos e louvores.

O momento ternura e comoção foi para Renata Capucci com sua filhota fofa, Diana, interpretando “Como é grande o meu amor por você”. Realmente foi o lance inesquecível do set. Mãe e filhinha, quem pode competir com isso?

O cantor Paulo Ricardo fez sua grande entrada, numa participação especial. Bondoso e camarada. Amigo de fé, à la Roberto Carlos, naturalmente.

E por fim, volta a Andréa Natal, a mais bela das diretoras de hotel de que se tem notícia, já com outra roupa, azul Roberto Carlos, ça vas sans dire, e interpreta “Emoções”, gran finale!

O palco se enche com todos os participantes. Aplausos gerais, apoteose, féerie, frenesi. E ano que vem tem mais Cantores do Bem, o ‘Joujoux et Balangandans’ do Terceiro Milênio. Uma iniciativa bien réussie, diriam os antigos…

Bravo Copacabana Palace!

Ouçam, abaixo, dois momentos, do “Joujoux….”: o original, com Mario Reis e Maria Clara, a Mariah da Alta Roda, e o atual, com as Danemberg cantando Roberto Carlos.

Paloma Danemberg e sua mãe, Katia Danemberg, no momento mais animado e divertido do Cantores do Bem, no Copacabana Palace.

4 ideias sobre “Memória Social Brasileira: Do ‘Joujoux et Balangandãs’ de 1939 ao ‘Cantores do Bem’ deste Terceiro Milênio

  1. Querida jornalista Hildegard , como esta Carmem Mayrink Veiga ?

    Abraços cordiais

    Diniz F. Traiano Junior

  2. Que bom rever seu entusiasmo!
    Avante bambina, e muito sucesso com o passado e a atualidade que fez e faz movimentos giratórios, dando assim oportunidades para aqueles que fazem algo de bom estar na mídia.

  3. Prezada Hilde, tudo isso merece atenção. Tudo isso está-se acabando, não é? Então, vale o esforço de aproximar dos nossos olhos, através do Face, essas pessoas que vivem uma realidade tão distante. É bem bonito.

  4. Gostei desse histórico. Não esquecendo que Nero, imperador do mundo, Luis XIV, o rei sol, Maria Antonieta, a rainha da moda entre muitos outros, já gostavam de palco e platéia!

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