Humberto Saade, o bom de marketing, teve em Ibrahim seu guru e em Luiza sua musa

Falar sobre o que aconteceu ontem ou anteontem não exige esforço. Basta lembrar que Humberto Saade era bom de marketing e tinha particular apreço pelo colunismo social para alavancar suas iniciativas. Nesse campo, seus aliados fortes foram, pela ordem, em primeiríssimo lugar Ibrahim Sued, de quem chegou a ser sócio em alguns projetos. Em seguida vinham, sem sociedade, em épocas diversas e no mesmo patamar, Nina Chavs, Zózimo e esta que vos escreve.

Criativo, imaginativo e ousado, ele era um motor de produzir novidades para as colunas, sempre anunciando um novo produto ou uma atração diferenciada, algo inédito no Brasil. Sabia dourar suas pílulas, tornar suas informações saborosas. Adorava ser notícia e não media esforços para tal. Enquanto esteve casado com Madeleine, procurou fazer dela uma referência de mulher sofisticada da sociedade. Apesar de não ser este o perfil da Madá, competente executiva dos negócios, ela bem que se empenhou para agradar o marido.

Humberto tratou de, com o auxílio de Ibrahim, incluir Madeleine na lista The Best, do italiano Massimo Gargia, ex-namorado de mulheres mais velhas do que ele – Françoise Sagan, Greta Garbo e a milionária Donina Cicogna – e que distribui os títulos The Best (“O melhor”) em Elegância, com entrega de prêmio em Paris. Madeleine foi premiada junto com vários amigos dourados de Massimo, entre outros, o próprio Ibrahim, Günther Sachs, Elsa Martinelli, Pierre Cardin, Silvie Vartin. O colunista fez o devido estardalhaço no Brasil, com enorme repercussão.

Pronto! A suave Madeleine agora tinha a obrigação de se apresentar como – conforme proclamava a Coluna Ibrahim Sued – “A Mais Elegante do Mundo”. Papel que cumpriu com dignidade e charme. Doce Madá.

Isso deu, naturalmente, grande impulso às ambições da marca de moda Dijon, dos Saade, em que o produto mais destacado eram os jeans justos, com uma plaquinha no bumbum. A modelo das calças, Luiza Brunet, foi uma descoberta de Humberto, que à época abriu para ela e o marido, Gumercindo Brunet, os salões do high carioca. Em seguida, o jovem casal se separou, e os Saade passaram a levar apenas Luiza para as festas, que aí incluíam, entre outros, as dos amigos Suely e Ricardo Stambowsky.

Humberto: corrente e relógio de ouro. Jeans da plaquinha no bumbum

Até Humberto ter a ideia de fazer com Brunet o mesmo que fez com Madeleine: conferir a ela uma premiação internacional! Foi quando, junto com Ricardo Amaral, promoveu uma festa, no nightclub de Ricardo em Nova York, em que Luiza Brunet foi proclamada “Top Model”. Para tal, Humberto levou do Brasil uma caravana de convidados jornalistas, isto é, de colunistas sociais, que trataram de repercutir em suas colunas o evento que consagrou Luiza Brunet a “Top Model”. E isto em Nova York! Humberto era mesmo um marqueteiro de primeira.

Mas a relação Saade-Brunet já parecia aí meio desgastada. Luiza se apresentava pouco à vontade com a postura de Humberto – usual entre alguns homens de sua geração – de pretender aparentar um relacionamento com ela que iria além do profissional. A dupla de sucesso Humberto-Luiza se rompeu, e isso não foi sem traumas, já que ela precisou passar um bom tempo sem usar o próprio nome, registrado por Saade como marca dele.

Magoado com aquele rompimento, Humberto quis provar a Luiza (e ao mundo) que ela não faria falta à Dijon, e contratou uma modelo que já era um grande sucesso nacional: Monique Evans. (Parênteses: contrariamente ao que dizem agora os obituários, não foi Humberto quem lançou Monique, ela lançou-se a si mesma, nas passarelas de moda, onde brilhava com intensidade, e nos desfiles das escolas de samba. Apenas depois veio seu momento Dijon).

Vanessa de Oliveira surgiu como uma princesa encantada, uma Cinderela, pelas mãos de Humberto. Seu lançamento foi em 1986, num baile de meu aniversário em minha casa na Usina da Tijuca. Humberto e Madeleine entraram com Vanessa, causando um impacto impressionante. A festa, com a presença do creme do Rio de Janeiro e do chantilly dos outros estados, praticamente paralisou diante da beleza de Vanessa, estupenda, num vestido de tafetá de saia longa, cheia, rodada e com cauda. Depois disso, foi só sucesso. Só deu ela.

Esta festa foi palco de muitos potins. Início de romances, fim de casamentos. Inclusive o de Humberto e Madeleine. Mas isso é outra história, que encontrarei momento mais adequado para relatar.

A marca Dijon seguiu próspera. Humberto a vinculou a produtos vários, até a colchões. Lançou um champagne com o nome Dijon. E era até bem bebível. Fez o Baile do Champagne no Monte Líbano, lotando o salão com gente trepidante e seu camarote com nomes da sociedade carioca. Tinha um lindo apartamento no Arpoador, onde dava festas black-tie, que impressionavam pela profusão das flores e que, às vezes, começavam desde a entrada da Rua Francisco Behring, com um arco florido para a passagem dos convidados, inclusive do show business, o que não era tão comum na época. E havia sempre uma peregrinação à sua biblioteca fake, sem um único livro – em que um papel de parede importado imitava a estante de um intelectual e que tinha merecido até uma reportagem na revista Veja! Reminiscências dos anos 80, queridos…

Mesmo após a separação, era Madeleine quem cuidava das festas de Humberto. Ela via tudo para ele. Com uma filha em comum, Tamima, eles permaneceram amigos. Após o rompimento do casal, Humberto Saade passou a circular com mulheres jovens e bonitas, porém, casar mesmo, nunca mais. Afinal, outra Madeleine, suavidade libanesa, requinte francês e sabor carioca… impossível!

Ibrahim, o guru, a referência

Ibrahim Sued foi sempre sua grande referência e seu guru. A origem libanesa de ambos estreitou as afinidades. Humberto tinha por ele forte admiração. A ponto de seguir as tendências e o estilo de vestir do “Turco”, sempre com uma corrente de ouro ao pescoço, relógio de ouro no pulso, camisa aberta quando estava bronzeado, manga da camisa arregaçada sobre a manga franzida do blazer.

Humberto era pai carinhoso de Tamima, homem pródigo e bom amigo.

Em 2013, quando Luiza Brunet lançou sua biografia na Livraria da Travessa, Humberto Saade rompeu o gelo de algumas décadas, comprou o livro, entrou na fila e pediu o autógrafo de sua musa Top Model. O criador se reconciliava com sua criatura.

5 ideias sobre “Humberto Saade, o bom de marketing, teve em Ibrahim seu guru e em Luiza sua musa

  1. UMA PENA O RÁPIDO DESAPARECIMENTO DO NOSSO AMIGO HUMBERTO SAADE !! FOI UM ÍCONE DA SOCIEDADE CARIOCA E UM SUJEITO EXTRAORDINÁRIO !!!
    MEUS SENTIMENTOS PARA TODA FAMÍLIA
    PAULINHO MESQUITA

  2. Que coisa boa ler o seu texto querida Hilde, doses certas de boa informação e uma craque que sabe tudo da história social do Rio de Janeiro.
    Que tal um livro nos contando tudo?
    Bjssss

  3. Uma pena que a talentosa Hilde tenha defendido tantas vezes Lulalau, Zé Dirceu e o Partido Trapaceiro, pois ela é um arquivo vivo da vida social do querido Rio de Janeiro. Paciência. Ninguém é perfeito. VIVA HILDE.

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