E quem disse que comunistas não leem coluna social?

Fui abordar aqui a disputa PCB x PCdoB pela celebração dos 90 anos do partidão e deu o maior sambão…

No microblog Twitter, a Ana Maria Prestes Rabelo, neta de Prestes e membro do Comitê Central do PCdoB, postou:

@anaprestes Nota @hilde_angel 90 anos PCB/ PCdoB tão povoada de imprecisões q assusta, mas a hist. é 1 carro alegre q atropela indif td aquele q a negue

Do leitor Augusto Buonicore, recebi este comentário, aqui postado em Comentários:

“Existe muita confusão de informação. O Congresso do Partido Comunista do Brasil (PCB) foi em 1960. Dele não participou Darcy Ribeiro que há muito não era membro do Partido e, pelo contrário, era extremamente crítico a ele. A mudança de nome para PC Brasileiro e o registro de novo estatuto – retirando termos clássico como internacionalismo proletário e marxismo-leninismo – se deram em agosto de 1961 por decisão do Comitê Central. Não concordando com isso, alguns dirigentes e militantes resolveram convocar uma conferência extraordinária na qual aprovaram a manutenção do nome e do estatuto do velho Partido Comunista do Brasil – logo apelidado de PCdoB. As coisas são mais complicadas do que parecem”.

Ele mereceu de mim esta resposta:

“Prezado leitor Augusto Buonicore, seguem os esclarecimentos:

O Jango era o presidente da República e o Darcy o ministro chefe do gabinete civil. Havia uma campanha pela legalização do PCB, pois, mesmo chamando à época Partido Comunista do Brasil, a sigla era PCB. Como o partido fora posto na ilegalidade durante o governo Dutra, logo após a Constituinte de 1946, quando Prestes, Jorge Amado e outros foram eleitos, e com o argumento de se tratar de “organização estrangeira” exatamente por estar registrada como Partido Comunista do Brasil. Esse “do Brasil” foi o pretexto, um dos, para colocar o partido na ilegalidade, alegando tratar-se de “organização estrangeira”, braço de organização estrangeira.

No governo Jango, a discussão foi retomada e foi sugerido pelo Darcy ao Prestes e outras lideranças comunistas que o nome fosse mudado, de Partido Comunista do Brasil para Partido Comunista Brasileiro. A decisão foi tomada, depois de muita discussão, em 1962. Houve vitória da tese de mudança do nome, embora a sigla já fosse PCB. Os que não concordaram saíram do partido e fundaram o PC do B. Essa é a história.

O PCB era ilegal, logo não existem documentos cartoriais sobre o fato, mas documentos históricos. O PCdoB reivindica a continuidade. Mas a própria história volta a mostrar que é o PCB o partido fundado em 1922, quando, já depois do golpe militar, os dois partidos seguiram caminhos diversos. O PCB se posicionou contra a luta armada – e fez autocrítica nesta semana passada. O PCdoB a favor da luta armada. O PCB à época era ligado à chamada linha soviética. O PCdoB à linha chinesa de Mao Tse Tung, em seguida à chamada linha albanesa, à época a mais radical.

Com o passar do tempo, o PCdoB ganhou a conotação atual, de convivência com o sistema capitalista (ontem o Serra falou em “possibilidade de aliança com o PCdoB”), enquanto o PCB reagiu à guinada de Roberto Freire, que tentou sepultá-lo transformando em PPS, resgatando o caráter revolucionário do partido. Os camaradas do PCdoB contestam essa versão e, logo, o caráter de 90 anos do PCB, por meras razões políticas, já que, na prática, o partido, PCdoB, hoje, em alguns municípios tem alianças até com o DEM.

É uma disputa que não vai ter fim, mas historicamente esses são os fatos. O Darcy estava de fato afastado do partido, da militância, mas ligado umbilicalmente. Quando da saída do Prestes do PCB, seu caminho foi aliar-se a Brizola e Darcy. Em linhas gerais é isso.

O PCB não participou da conferência extraordinária que o senhor menciona, pois foi, na verdade, a própria fundação do PCdoB. Isto é: os em desacordo com a mudança resolveram criar o novo partido, reivindicando a continuidade do antigo, mas sem maioria dentro dos quadros partidários.

Com os agradecimentos deste blog ao pesquisador Laerte Braga pelos subsídios prontamente remetidos”.

E depois postei esta outra resposta reiterando a posição do blog:

“No último programa eleitoral gratuito do PCdoB foram usadas imagens de Prestes e outras figuras históricas do partido. Houve uma reação da filha de Prestes, Anita Leocádia, que considerou esse uso indevido, alegando que Prestes, seu pai, foi um dos articuladores, era o secretário-geral, da mudança do nome Partido Comunista do Brasil para Partido Comunista Brasileiro, e não compactuava com a linha adotada pelo PCdoB, o que é fácil de entender. Quando saiu do PCB, se assim o fosse, Prestes teria ido para o PCdoB e não ficado à margem, ligado ao ex-governador Brizola e a Darcy Ribeiro”.

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