‘É coisa de preto’ do Waack impacta o país e promove detox do racismo na alma brasileira

O impacto causado pelo vídeo em que William Waack, entre palavrões, vomita frases racistas – “só podia ser coisa de preto, coisa de preto” – ao mesmo tempo, em que foi um grande desserviço para a carreira do jornalista, prestou imenso serviço à causa racial no Brasil, que em poucas horas galgou novo e mais elevado patamar.

O choque provocou uma catarse da consciência geral da Nação quanto ao incontestável racismo que ela evita assumir, um detox do preconceito em cada indivíduo, alcançando os escaninhos mais recônditos do que de pior o brasileiro busca esconder. Foi um despertar necessário, reacendendo a discussão sobre cotas raciais e revelando em sua plenitude o óbvio e injusto cenário da desigualdade racial de nossa sociedade.

Do ‘episódio William Waack’, todos saímos melhores. Sua repercussão gigantesca mostrou um Brasil em estado de alerta permanente contra o racismo, que se apresenta como nosso calcanhar de Aquiles cronicamente machucado, tratado com band-aids, mas que no primeiro sapato apertado solta um “é coisa de preto!”.

Outro saldo positivo foi a farta produção de bons textos sobre o assunto. Textos jornalísticos, nos blogs progressistas, feicibuquis e circulando pelo What’s App. Enfim, autores inspirados nos brindaram com generosidade. Na safra desta semana, pincei dois textos. Um, do escritor Anderson França, em sua página do Facebook. Outro, da poetisa Elisa Lucinda, que circulou pelo What’s App. Deliciem-se.

O escritor Anderson França pergunta: “Onde mora o Waack dentro de você?”

Coisa de Branco / Coisa de Preto 

por Anderson França

Eu poderia escrever um texto incitando os sentimentos de vingança da massa, contra o William Waack.

Seria um texto ótimo.

Não tenho dúvidas, que seria um dos mais lidos hoje. Postado em outras páginas. Jornalistas ligando, pedindo entrevista. Pessoas amigas dizendo que, sim, é isso mesmo, pau no racista.

Mas uma coisa me chama a atenção, de maneira silenciosa. E mesmo que pouca gente leia, eu me dou por satisfeito.

Waack, daqui um mês, será lembrado como mais um racista do passado. E talvez seja difícil para ele recuperar seu posto numa bancada, talvez não na Globo, que se autodenomina a emissora de 100 milhões de “uns”.

Desses 100 milhões de uns aí, ela sabe, 54% são pretos.

E como disse um amigo, ninguém mais peita essa força da opinião pública. Para o mal, ou para o bem. Seja o Santander que cancela exposição de arte, seja a emissora que retira o jornalista da bancada.

A rede, como ele disse, é o quinto poder.

Tomara seja.

Mas o que me chama a atenção no caso do Waack não é ele, e sim a expressão que ele usa.

“Coisa de preto.”

Em resumo, deixa eu resumir mesmo o texto pra você que tá no trem e quer pensar: Onde mora o Waack dentro de você?

Porque essa expressão não foi criada por ele.
Ele ouviu de alguém. Eu diria que ele cresceu ouvindo isso. Logo, sua fala denuncia seus pais. Que provavelmente ensinaram isso a ele. E provavelmente aprenderam dos seus pais também.

E dos outros adultos. E dos outros pais. Amigos, colegas. Ele fez jornalismo na USP. Ele fez Ciências Políticas na Universidade de Mainz, na Alemanha. Ele trabalha na Globo. Ele mora num bairro nobre. Ele come num restaurante fino. Ele tem amigos importantes. Ele bebe vinho caro.

Quando chega o primeiro navio com pretos prisioneiros, chega também a primeira afirmação sobre eles, que eram animais, sem alma, intelecto, valores, princípios, modos, capacidade de relacionamento.

Quando o primeiro navio negreiro chega, quem anuncia sua chegada é um antepassado do William Waack.

Com o navio ancorado aqui na frente, no Cais do Valongo, o William Waack do século 16 está em frente a uma câmera, pronto para o link pra Portugal.

E os negros que saem do navio, debaixo de surra, gritam de dor.

Ali ele disse, pela primeira vez: “Sujeito de merda. Sabe o que é isso? Coisa de preto.”

A falta de uma mão no meio da cara, naquele momento, permitiu que essa expressão se perpetuasse.

Nunca discutimos o quanto essa expressão está nas nossas vidas. Pare e pense sozinho, se possível, com o computador fechado, para evitar que, sei lá, por telepatia seus pensamentos se tornem públicos.

Quantas vezes, nós já ouvimos e falamos isso?
Vou me colocar nesse lugar com você. Porque é isso: é ilusão pensar que só o Waack diz isso.

Eu digo, você diz, sua mãe, o pastor, aquela vó fofinha fazendo tai-chi-chuan, aquela feminista famosa, aquele socialista povão, aquele artista daora, aquele jogador que veio da favela, o taxista, o uberista  e o motorista de ônibus, o carteiro, o médico cardiologista, o psicólogo, o baterista daquela banda, sua esposa, sua prima, seu marido, seu filho,e o jornalista.

Todos nós hoje precisamos descobrir onde está o William Waack dentro de nós. E não tem desculpas. Tem que estudar. Tem que fazer terapia. Tem que priorizar isso.

Porque você sabe, e eu sei, os efeitos esmagadores do racismo na sociedade brasileira. A escravidão oprimiu pessoas que hoje vivem em desigualdade. Durante 400 anos foi isso, e os outros 117 não deram conta da desordem provocada pelo branco.

Se “coisa de preto” é tocar buzina, promover desordem, ser inconveniente, o que é a coisa de branco?

O matador da igreja? Coisa de branco. O Estado brasileiro falido? Coisa de branco. A vida de luxo que a filha do Eduardo Cunha tem? Coisa de branco. Luciano Huck, que apoiou todos os criminosos do Rio? Coisa de branco. Mallu Magalhães? Coisa de branco. Histeria na porta do Sesc Pompéia? Coisa de branco. Ir pro samba e sair de lá dizendo que somos todos humanos porque tem até amigos pretos? Coisa de branco. Esconder a bolsa no elevador? Coisa de branco. Se alguma feminista te oferece trabalho por moradia? Coisa de branco. Se você tá sendo demitido pra ser contratado nas novas leis que fuderam a CLT? Coisa de branco. Tá fechando a empresa porque a economia não te absorve? Coisa de branco. Tá sem merenda na escola? Coisa de branco. Não tem esparadrapo na UPA? Coisa de branco.

Fazer um barco, e sair pelos continentes estuprando, roubando, pilhando, destruindo e escravizando povos que criaram as grandes ciências da humanidade, para no futuro estabelecer uma sociedade baseada no capital onde apenas 8 pessoas se deram bem na vida?

Coisa de branco.

Mas a reflexão de hoje é: Onde está o William Waack dentro de nós. Esse dissimulado. Esse educado, de boas maneiras, que espuma pelo canto da boca, ele diz que não vai falar, mas ele não se controla, ele tá rindo sozinho, ele PRECISA falar, ele tá de piru duro e cu piscando. Ele precisa pingar ódio contra o preto.

Antes de atirar pedra no cara, dá uma passada no espelho do banheiro da firma. Porque o episódio do Waack não é um sinal verde pra você linchar ele, mas pra você descobrir o quanto você tem de semelhança, e meter o loko pra mudar sua cabeça.

Eu vou trabalhar. Trabalho é coisa de preto, mala de dinheiro é coisa de branco vagabundo. Eu vou por um Jazz nos fones. Jazz, essa invenção disruptiva com instrumentos europeus, que deu outro significado a música, coisa de preto. Vou aproveitar pra ler um livro sobre alternativas de país, um livro de Abdias. Coisa de preto. Vou assistir Toddy Ivon falando sobre bitcoin, economia do futuro, ou Adriana Barbosa organizando mais uma Feira Preta, ou Lázaro encenando mais uma peça, ou Obama dando mais uma palestra lotada, ou Pablinho Fantástico fazendo o riscado no passinho, ou Marcio Black peitando o sistema político, ou Ian Black sendo o único homem preto dono de uma grande agência em São Paulo, ou Beyoncé, amor, Beyoncé sendo a artista e investidora negra mais desejada pelo mercado americano, vou sonhar em ter a eloquência de Marcus Garvey, o intelecto de Dr. King, a escrita de Ta-Nehisi, a virtuose de Robert Glasper, coisa de preto.

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Elisa Lucinda: “O mundo pede abolicionistas modernos e quer saber de que lado você está”

Coisa de branco, até quando?

por Elisa Lucinda

Escroto, consciente, ativo, legitimado, estrutural, septicêmico em todos os órgãos da nação, o racismo de William Waack não é só dele. Essa é a pior notícia. “Coisa de preto” é subtexto corrente na mente de grande parte de uma sociedade criada sob os parâmetros da Casa Grande. O diabólico plano que começou com tráfico, tortura e assassinato do povo negro e que durou quatrocentos anos, é mais nefasto e homicida do que os cinco ou seis anos do holocausto judeu e essa dor a humanidade respeita mais. Não estou dizendo que uma dor é menor do que a outra. Mas afirmo que o holocausto da escravidão negra continua até hoje e não comove nossa sociedade. Não importa, em geral, a quantidade de negros sem nome, sem sobrenome nobre que é assassinada diuturnamente nas favelas e periferias deste país. Ainda rola no imaginário brasileiro a ideia obsoleta de que “preto bom é o de alma branca”, é o sem voz, e há neste imaginário uma desvalorização da etnia negra como se houvesse para isso alguma defesa científica que apontasse no DNA de uma raça sua propensão à sub-humanidade.

O que impressiona muito no vídeo do William é sua falta de conflito com o tema, seu conforto escancarado e muito bem acomodado dentro de sua convicção. Quando a Globo que, felizmente, com muita rapidez, prontamente se posicionou repudiando e afastando o jornalista, afirma que vai pedir esclarecimentos dos fatos dá vontade de ser uma mosquinha na cabeça deste profissional para ver qual será o melhor argumento nos bastidores dessa saída. A situação é indefensável. Não falou sem querer, não estava nervoso. Repito: trata-se de uma convicção. Absolutamente consciente e levemente temeroso de que sua fala pudesse comprometê-lo, ele, textualmente, quase evita falar abertamente: “Tá buzinando por quê? Ô seu merda do cacete! Deve ser um… Não vou nem falar quem. Eu sei quem é… Você sabe quem é né?” Mas não resistiu. Saiu. Pulou da boca. Pensa assim. Concorda com o racismo. É porta voz dele. Estamos diante de um vazamento e por ele podemos supor quantas dessas atitudes não chegam a público e fazem a graça de muitos bastidores. Não seria leviano de minha parte afirmar que essa não é uma atitude isolada deste jornalista. Um detector de discriminação racial afinado talvez não tivesse dificuldade em encontrar na educação, dele e de sua família, a ideologia revelada no patético vídeo gravado em frente à Casa Branca. Ele estava nos Estados Unidos, ele falava português, ele estava em seu “camarim” e não imaginou que a máscara Waack estava sendo retirada antes do público deixar o teatro.  Sou atriz, vivo no teatro, e sei que se o público por algum motivo avista o truque, a ponta da carta escondida sob o manto do mágico, não há outra saída para o artista se não render-se à verdade. Já era. O público viu. Fodeu. É melhor admitir. Flagrantes são inegáveis. Qualquer tentativa de desqualificar a verdade flagrante é constrangedoramente impotente.

O que está em jogo aqui é como deter o escravagismo moderno, esse que foi trazido através da linguagem das escrotíssimas expressões que destroem a auto estima do povo negro a cada minuto, e que vão mantendo a obra da escravidão na cabeça de jovens brancos, de crianças brancas, em pleno 2017. A semente do mal é reproduzida em todos os lugares, inclusive nos jornalismos, inclusive nas ficções. Sou jornalista também de formação, e sei da responsabilidade pública que temos com a informação, sei do poder de influência da palavra jornalística na formação de opiniões. Diante disso numa democracia, ter um jornalista que apresenta um jornal importante numa emissora que alcança milhões de espectadores diariamente, defendendo posturas racistas, expondo-se inclusive judicialmente a um processo, aponta para uma demissão sumária deste profissional. Não vejo outra saída. Para mim é tão grave quanto um médico que não atende um paciente preto e pobre na emergência.

Para William Waack a vida do preto, o pensamento do preto, a atitude do preto, os direitos do preto são menores e tudo nele vale menos. Está entranhado em seu DNA cultural branco e dominador tal aberração intelectual. Sua ignorância é sofisticadamente tosca, uma vez que ocupa um cargo nobre na tele informação. E essa ignorância é tão sofisticada quanto perniciosa, representa um pensamento vigente que raramente tem coragem de mostrar a cara, de sair do armário. Mas é este pensamento que gera a atitude prática de fechar portas, e de provocar em nós, em nossas organizações civis e nas leis, a feliz estratégia dos sistemas de cotas.

Quando Cazuza diz que a burguesia fede é a isso que ele se refere. Há uma hipocrisia católica, disfarçada de caridosa, ornada dos aparentes bons costumes, mas que chafurda na lama tóxica de seus preconceitos e na sua luta pela preservação das senzalas, dos quartos de despejos e da persistência variada das chibatas. Presídios, quartos de empregadas, entulhos das favelas e periferias, tudo têm como modelo os porões da escravidão.

Eu teria vergonha de ensinar racismo aos meus filhos, William não tem. Eu teria vergonha de ser racista em meu local de trabalho, William não tem. Eu teria vergonha de ser racista sendo brasileira e estando trabalhando em terras estrangeiras, William não tem. De usar a minha língua contra o povo que construiu a minha nação, William não tem. E por isso representa uma vergonha para o povo brasileiro. Sua declaração bate na cara dos negros que labutam para o sucesso da história desse país e da empresa que ele trabalha; sua declaração é um acinte, um achincalhe no talento de grandes atores negros que deram e dão sua arte à teledramaturgia brasileira contribuindo para um sucesso de público que atravessa décadas. Sua declaração atinge  também em cheio a consciência de brancos a quem ele não representa, os constrange, os convoca a limpar a própria barra. Puni-lo com uma demissão me parece uma atitude equivalente ao crime. Condiz. Sua opinião provoca um grande estrago e põe o dedo numa chaga acesa. Se ele trabalha numa empresa que não apoia o racismo, o seu flagrante delito o torna naturalmente afastado da emissora.

Se a Rede Globo não quer compactuar com uma atitude discriminatória não pode ter em seus quadros quem pensa diferente disso, uma vez que tal quesito está espargido em todos os conteúdos de sua programação. Neste momento, estou fazendo a campanha da ONU chamada Vidas Negras. Os números são alarmantes, perdemos grandes exércitos de meninos que saem da escola para o crime e, entre estes, milhares são assassinados sendo inocentes, só por serem negros. E só. Por valerem menos.

Mas a tragédia só se realiza, só chega a virar sangue, a virar tiro de fuzil, só chega a matar depois de se consolidar na mente de muita gente, e muita gente que manda neste país. É este jogo que nós temos que desmontar. Quando se diz “coisa de preto” como sinônimo de inferior ou ruim, no fundo estamos produzindo um conteúdo que dará autorização para matar. William Waack não é o único a pensar assim, é isso que o vídeo veio nos revelar. É coisa de branco e aos bons brancos deve envergonhar. O assunto está bombando.  A questão racial no novo  filme de Daniela Thomas vai ser assunto nessa sexta no Pedro Bial. Não dá mais pra segurar. O mundo pede abolicionistas modernos e quer saber de que lado você está.

6 ideias sobre “‘É coisa de preto’ do Waack impacta o país e promove detox do racismo na alma brasileira

  1. Ah se eu soubesse escrever!…
    Se eu soubesse teceria loas às grandes mentes que temos e que se preocupam em evoluir, em crescer, em ser, em fazer coisa de Branco e de Preto ter um colorido como o da minha pele. Pele vermelha, amarela, branca, preta, PELE.
    MENTES… CORAÇÃO? Sim, eu faria o que todos deveriam fazer! Ser gente, ser feliz e solidário, ser ouvinte, ser falante, mas com todas as diferenças, fazendo a beleza da vida.
    Hildegard, vc me representa. Não sei escrever, mas sei interpretar a sua qualidade de escritora, de jornalista.
    Agradeço a vossa amizade virtual. Os envios de seus magníficos textos.
    Continue assim,
    Deus te Abençoe
    Maria da conceição R Moreira. BH Mg

  2. Vou morrer sem saber o que é “coisa de preto”. Agora eu pergunto: tem coisa de branco? de índio? de chinês? japonês?esquimó? Bem, de esquimó acho que é iglú.

  3. Hildegard:

    Aconteceu algo muito estranho que gostaria de compartilhar com você sobre a sua falecida amiga Carnem M. Veiga. Tem relação com gato e quadro de Portinari.

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