Despedindo de uma grande, soberba e verdadeira dama da sociedade brasileira!

Morreu nesta virada para o Dia de São João a querida Lourdes Vivacqua. Nascida Lourdes Moreira da Rocha, da melhor tradição do Ceará, Vivacqua, sobrenome coroado do Espírito Santo, pelo primeiro casamento, Fracalanza, das pratas famosas, pelo segundo…

Lourdes foi pioneira em muitas coisas. Na coragem de assumir a liberdade de suas escolhas como mulher, sem nem mesmo saber ou perceber da importância de suas ações. Pioneira nos verdumes da Barra da Tijuca, lá para os lados do Itanhangá, onde foi grande proprietária, dona de inúmeras casas, numa época em que a valorização ainda não havia chegado por lá. E isso em nome de seu amor extraordinário, incomensurável, pela botânica, as plantas. No que também foi auto-didata e pioneira, e até Burle-Marx e outros grandes paisagistas, quando conheciam os jardins de Lourdes, ficavam de queixo caído, abismados diante de tamanha harmonia e beleza construídas de modo intuitivo e espontâneo. Era uma mestra na arte de compor quadros encantadores, tendo como matéria prima a propria natureza, apenas ela. E saíam, os Burle-Marx dos 60’s, da casa de Lourdes, levando mudinhas de seus jardins…

Audaciosa, ela fazia o diabo. Transportava pedras enormes e as depositava dentro da sala, fazia os riachos ricochetearem nas paredes, transformando cada residência sua num paraíso particular, cheio de igarapés próprios e passarinhos que, daquela região de sonho, jamais se ausentavam…

Outra habilidade da Lourdes era a culinária. Inventava pratos. Foi o primeiro “arroz arco-íris” que vi na vida. O arroz vinha em tons degradés, e variava de cores de acordo com seu humor daquele dia. Massa, ninguém preparava como ela. Al pesto ou al tempero que bem entendesse, pois tinha suas próprias plantações das ervas todas. Era uma super dona de casa. Entendia de pratas, tapetes, cristais. E também entendia de contar piadas, daquelas de deixar as bochechas da burguesia da época bem, digamos, escarlates, outra palavra de época. Era muito divertida…

Comia bem, contava piadas, era ótima no carteado, amava bicho como amava gente, talvez até mais – não passava sem um cachorro de estimação (às vezes, vários) coladinho a ela. Bebia bem e sabia o que era bom de se beber, gostava de dançar. E no capítulo amizades ninguém a superava. Pois as dela eram cuidadosamente regadas e cultivadas, tal e qual as plantinhas de seus jardins. Daí que suas amizades, muitas delas, ainda eram dos tempos do colégio. Acreditam? Noventa anos de idade, com amizades do colegial! Assim pudemos vê-las, na última festa de seu aniversário, em casa da filha, Monica Cordeiro Guerra, onde estava morando no último ano de sua vida. Ela, que fora sempre tão independente, brincava que, depois de velha, passou a ser filha e não mãe…

Há 10 anos, pelo menos, Lourdes, que foi uma fumante inveterada, padecia de um problema pulmonar que a levou várias vezes ao hospital, na bica de morrer, com embolias, UTIs, a família e os amigos chorando… E ela bravamente superou todas as situações. Segurando esse tranco, todo o tempo, a filha maravilhosa, Monica, e o genro, João Cordeiro Guerra. E ainda o carinho de toda a família, com as amigas tão carinhosas dela à sua volta…

Lourdes Vivacqua, que sempre teve suas casas abertas para todos, em almoços tão concorridos e divertidos, despede-se hoje também em open house, com velório tristonho em casa dos filhos Monica e João, já quase em hora de terminar. Os amigos são esperados amanhã, 12h30, para a cremação no Caju

Dela, tenho muitas e amorosas lembranças. E histórias ótimas que hão de estar em meu livro. Era uma das mais íntimas e solidárias amigas de minha mãe, Zuzu Angel. Foi Lourdes quem, em 1976, a levou em seu carro ao Hotel Sheraton, sem saber que era para mamãe entregar o dossiê sobre a tortura e a morte de meu irmão ao secretário de Estado americano Henry Kissinger. Lourdes levou, aguardou e transportou mamãe de volta pra casa na Barra. Para só no dia seguinte, ao acordar, quando leu na cama, tomando seu breakfast, a coluna do Zózimo, tomar conhecimento do que se tratava aquela “missão especial” que fez Zuzu se vestir de modo tão esquisito, como se fosse uma “turista americana”. E Lourdes, que era a perfeita síntese da grã-fina alienada da época, telefonou pra mamãe: “Zuzu, você tá louca! Eu ia ser presa junto com você!”. E, em vez de dar uma boa bronca, Lourdes deu foi uma boa gargalhada, e ficaram as duas ao telefone combinando o que fariam se fossem presas juntas. Esta era a Lourdes: companheira até a última gota. Mesmo se fosse de sangue…

Lourdes também foi ótima escritora. Numa época de sua vida, nos anos 80, chegou a trabalhar comigo em minha coluna social, como minha assistente. Infelizmente não pôde, ali, exercer os seus dotes literários de poetisa e cronista que sempre foi. Mas certa vez ela me presenteou com um texto que guardei com muito carinho. Hoje, o encontrei e pude, com alegria, constatar que a vida premiou Lourdes atendendo a todos os seus pedidos, sem jamais ela ter precisado mostrar esse texto a qualquer pessoa de sua família. O que faço agora, revelando-o a todos vocês…

hilde monica e loudes Despedindo de uma grande, soberba e verdadeira dama da sociedade brasileira!

Lourdes Vivacqua, no último fevereiro, no almoço de seus 90 anos, com esta amiga e sua filha amorosa, Monica Cordeiro Guerra, que atendeu fielmente a todos esses pedidos feitos abaixo por Lourdes, sem ter tido conhecimento do texto poético de sua mãe, que só agora eu revelo

Foto Sebastião Marinho

O dia em que eu não for mais a mesma

O dia em que eu não for mais a mesma, tenha paciência e me compreenda!

Se em algum momento, quando conversarmos, eu me esquecer do que estava falando, ajude-me a relembrar e siga em frente…

Se, ao falar, as mesmas histórias repetir, aquelas que você conhece de sobra como terminam, não se irrite e me escute! Talvez o mais importante seja a sua atenção de que preciso e nada mais.

Se eu não quiser alguma vez comer, saiba insistir com carinho e também compreenda que meus dentes já não são fortes e a agilidade para engolir não é mais a mesma.

Quando estivermos reunidos e, sem querer, eu fizer “pipi” na roupa, não fique envergonhado, tenha paciência, troque minhas roupas!

Quando minhas pernas falharem é porque estão cansadas, empresta-me suas mãos a fim de dar-me firmeza e conforto!

Se algum dia me ouvir dizer que não quero mais viver, não se aborreça, espero que entenda que isso nada tem a ver com seu carinho ou quanto eu o amo. Compreenderás quanto é difícil sentir a vida nos abandonando pouco a pouco e admitir que não tenho mais vigor para correr a seu lado.

Sempre quis para você o mundo mais confortável e florido que o meu.

Lourdes Vivacqua

Uma ideia sobre “Despedindo de uma grande, soberba e verdadeira dama da sociedade brasileira!

  1. Principios dos anos 60 fui de mala e cuia para o Itahanga um paraiso na epoca, conheci Lourdes muito bem e minha admiracao por ela sempre foi enorme. Acho que ela gostava de mim tambem, eramos bem parecidas, Os anos passaram e atualmente, casada pela segunda vez com um Americano e morando nos EUA, so de ver a foto da Lourdes me deu um no na garganta. qualquer contato [email protected]

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