De Dona Encrenca para Arlete Salles, Renata Sorrah e o “Louro”

Às vezes, pra se ir em frente, têm-se que voltar para trás. Por isso, hoje, peço seu tempo. Fui a primeira colunista de TV do jornal O Globo, nos primórdios nos anos 70. O jornal estreou seu caderno de TV aos domingos e eu, que fazia a coluna social dos sábados, fui convidada para também escrever uma página naquele novo produto da casa. Tudo bem…

A fórmula já veio pronta. A coluna tinha o nome Veneno e sua titular (eu), o pseudônimo Aglipha Newied, conjunção dos nomes científicos de duas serpentes, e a Arte do jornal fez o lay out de uma simpática cobrinha de cílios longos e fumando piteira. Para mim, foi um passeio, pois eu era atriz, militava naquele mundo, fazia teatro, TV, cinema, estava enfim nadando na minha própria praia. Mas longe de mim praticar o anunciado Veneno. No máximo, “Agliphinha” cometia uma malícia de leve, e sempre finalizava suas notícias com o que seria, na minha cabeça, uma interjeição venenosa no idioma “cobrês”: tsc, tsc, tsc

A coluna foi um sucesso, os artistas me adoravam, eu os adorava e, teríamos sido felizes para todo o sempre, não tivesse havido uma situação muito bem urdida, por pessoas mal intencionadas, que me levou a, chateada e de cabeça quente, rodar minha baianinha, aos 24 anos, e pedir o meu boné ao jornal, deixando a coluna, a outra coluna, o emprego inteiro, e fui passear minha sandália hippie em outra freguesia…

Prossegui em minha carreira dupla, atriz-jornalista, dividindo-me como repórter entre o novo jornal, a Última Hora, programas de TV, rádio e as revistas, sempre cobrindo as duas áreas, sociedade e cultura, e sempre muito feliz com a convivência com meus amigos artistas…

Cerca de um ano depois, O Globo me chamou de volta para reassumir a mesma coluna social, e aí foram mais 15 longos anos falando também sobre TV, pois inaugurei, junto com Artur da Távola, um espaço diário, na última página do Segundo Caderno, em que ele fazia a crítica e eu o colunismo de TV, que, com jeitinho, estendia para noticiário também de teatro, já que não havia coluna no jornal que cobrisse essa outra área. Foram mais 15 anos de um amor lindo entre nós, a classe artística e eu…

Lindo amor porque, desde o princípio, percebi que jamais poderia fazer um jornalismo ético e imparcial sobre televisão escrevendo no jornal proprietário da mais importante emissora de TV do país. Assim, resolvi intimamente que, se eu não podia criticar os programas da emissora mais poderosa, eu não criticaria os das mais fraquinhas…

Percebi também que me daria a maior dor de cabeça fazer restrições aos programas da casa ou aos seus diretores e núcleos de poder, mas que, ao contrário, eu estava totalmente liberada para atingir a parte mais frágil, isto é: os artistas da emissora! Eu bem sabia que seria muito fácil para mim fazer um colunismo televisivo retumbante, expondo as fraquezas e deficiências de cada um daqueles personagens famosos, atores, atrizes, apresentadores e até os autores (que naquela época não eram tão poderosos quanto são hoje), que estavam, diariamente, dando sua cara a tapa na telinha, e dessa forma eu emplacaria um baita sucesso…

Porém, eu achava isso uma covardia, e jamais fui por esse caminho. Nunca saí analisando desempenhos, arrotando avaliações, essas coisas, pois sabia que, numa máquina gigantesca como aquela, a corda sempre arrebenta do lado do mais fraco: o artista…

Ao contrário, tornei-me amiga pessoal de todos aqueles atores, atrizes, diretores, autores, que frequentavam a coluna. Conversávamos horas ao telefone. Frequentávamos as casas uns dos outros. Estabelecemos laços e relações bacanas demais. Não tinha essa de “agente” nem de “assessor de imprensa”. O artista me ligava, quando queria que alguma coisa fosse divulgada, e eu pra ele, quando queria uma notícia. Super saudável. E mesmo assim, creiam, a coluna fez um baita sucesso, tanto que se estendeu por uma década e meia, até eu sair do jornal…

Depois, deixei de ser atriz, não mais o colunismo diário de TV, e pouco a pouco fomos, os artistas e eu, nos vendo menos, nos afastando, alguns se aposentaram, outros continuam a todo vapor, mas dentro de mim o afeto continuou igual…

Até que… entrou em ação a Dona Encrenca… Bem, Dona Encrenca é tipo assim um alter ego, um encosto, um outro Eu, que tomou forma dentro de mim desde que resolvi passar a ter Opinião. Por uma questão de sobrevivência, naqueles “Anos negros” do passado, passei quase duas décadas como se estivesse sedada, feito um Zumbi, sempre com um meio sorriso simpático/enigmático nos lábios, acenando a cabeça e falando pouco, o mínimo necessário. Revendo os programas de TV da época, em que era entrevistadora, vejo a cautela com que pronunciava cada palavra, articulava cada frase. Era o medo, medo o tempo todo…

Mais do que os outros, mais do que todos, porque, para mim, tudo sempre foi mais, muito mais. Os perigos, o patrulhamento, de ambos os lados, as cobranças, as ofensas, tudo muito mais…

Até que veio a “Abertura”, o fim da censura, da ditadura e, mesmo meio desconfiada, fui destravando a língua, o pensamento, aprendendo a tirar conclusões sobre assuntos que jamais ousaria, aprendendo a discordar…

Demorei a aprender a ser legítima. No início, me atrapalhei, ainda me atrapalho, me encrenco (olha a Dona Encrenca aí!), mas, quando desencarnei do medo, foi feito retirante que não come há muito tempo e se atraca num prato de comida. Macaco em loja de louças, me embriaguei e ainda me embriago no exercício de opinar, de pensar, de me expor, de fazer aquilo de quê, por tantos anos, me privei. Até gargalhada passei a dar!…

Mas por que estou falando isso? Por causa da Dona Encrenca… que outro dia me encrencou e logo com uma pessoa linda, de quem eu tanto gosto, que guardo acalentada em meu coração junto com as lembranças daquele meu terno tempo de colunismo de TV, que é a Arlete Salles. E o “Louro” me escreveu. Foi rigoroso comigo, disse que eu fui cruel e devo desculpas a ela…

No temor e na indignação de ver duas atrizes, que tanto admiro, como Arlete e Renata Sorrah, expostas ao risco predador das injeções de botox, que congelam expressões preciosas como as delas, acabei pegando pesado demais. Fui mal. Lamento muito, desculpem-me…

Infelizmente, palavras, dependendo do temperamento de quem elas atingem, nem sempre podem ser apagadas dos corações, como se podem apagar as injeções de botox, que têm a módica duração de seis meses, e nossas divas logo voltam a ser expressivas e intensas, como sempre foram…

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