D V – Diana Vreeland ou simplesmente d.i.v.i.n.a!

Nunca houve editora de moda com seu poder, seu chic, sua originalidade e seu carisma. Não houve nem haverá. Não houve porque ela foi única. Ela não buscou referências. Ela foi A referência. Ela não copiou exemplos. Ela é O exemplo. Ela não seguiu caminhos. Ela ABRIU o caminho. E isto numa época em que não havia essa fosforescência tôla de agora, esse arremedo de elegância, essas caras e bocas caricatas, fingindo uma sofisticação inexistente. Pedigrees inventados, currículos de ficção, todos pretendendo ser o que de fato não são. O que diferencia Diana Vreeland de tantas e tantos que vieram depois é que ela foi de verdade. Ela viveu o seu papel de editora de moda, a primeira delas, com a mesma garra, o mesmo talento e a mesma criatividade de um artista da moda. A mesma paixão. Claro, havia a frivolidade. Porque pode-se respirar no universo fashion sem um pitada dela? Claro que não! Mas Vreeland não era essas bobagens que vemos por aí, esses estereótipos que hoje encontramos, nos blá-blá-blás dos comentários de moda nas revistas e nas TVs – com raríssimas exceções, pois estas existem, ainda bem…

Invejadas, temidas e admiradas, as editoras de moda, hoje, são verdadeiros fenômenos. Formadoras de opinião no mundo da moda, elas deixaram de apenas lançar tendências em páginas de revistas, para se transformarem também em celebrities, ícones…

Anna Wintour, Anna Dello Russo, Emmanuelle Alt, Giovanna Battaglia, Franca Sozzani, seja qual for a sua preferida, senhoras e senhores, saibam que antes de todas, existiu a poderosíssima Diana Vreeland (1906 – 1989)!…

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Na foto, uma jovem e elegante Diana em seu apartamento em Park Avenue, NY

Recém exibido no Festival do Rio, o documentário Diana Vreeland: o olhar tem que viajar conta de maneira leve e divertida, como esta mulher, que não nasceu bela, mas possuía um enorme senso de estilo e elegância, sacudiu o mundo fashion com sua mente ousada e seu faro apurado…

Diana, a primeira editora de moda da história, foi a grande responsável por lançar o conceito desse tipo de ofício. Antes dela, as revistas de moda se limitavam a receitas de bolo e dicas sobre casamentos. Com Diana, um novo mundo de possibilidades se abriu. Atrizes, modelos, arte, música e editoriais de moda magníficos, surpreendentes…

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Diana não era bonita, sabia disso e tirava partido. Tinha estilo de sobra! Elegante e ousada, usou isso a seu favor. Foi justamente sua maneira de se vestir e sua forma de se portar que chamaram a atenção de Carmel Snow, da revista Harper’s Bazaar, onde conseguiu seu primeiro e bem sucedido emprego no mundo da moda

 

Durante os anos na Harper’s Bazaar, 1937-1962, Diana editou a coluna Why don’t you, que dava sugestões bem-humoradas e absurdas às leitoras em tempos de guerra. Como, por exemplo: Why don’t you paint a map of the world on all four walls of your boys’ rooms, so they don’t grow up with a provincial point of view? – Por que você não pinta um mapa-mundi nas quatro paredes do quarto de seus filhos, para que eles não cresçam com um ponto de vista provinciano?

Na Harper’s Bazaar e, mais tarde, na Vogue, Diana descobriu e lançou inúmeros talentos, entre eles, a atriz Lauren Bacall, que começou como modelo, mas logo seria chamada por Hollywood. Era impressionante como tudo o que Vreeland tocava, virava ouro. Ela tinha um faro apurado para o que era novo e o que estava prestes a estourar. Tinha paixão por belezas exóticas, gostava de trabalhar com modelos não convencionais. O que poderia ser considerado um ponto fraco na aparência de uma modelo, ela valorizava, transformando em ponto mais forte de sua beleza. Como quando decidiu fotografar de perfil Barbra Streisand , cujo nariz era considerado horrendo. Diana queria transformá-la em um Nefertiti. A sessão de fotos foi um verdadeiro sucesso! E como eu me lembro dessas fotos…

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Durante a Segunda Guerra Mundial, a jovem Lauren Bacall deu o ar de sua graça na Harper’s Bazaar. A capa, acima, chamou a atenção de Hollywood, que pouco tempo depois a convidou para trabalhar…

Modelos de pescoço longo, altas demais, gap teeth (dentinhos separados), sardas? Perfeito! Por que não exaltar ainda mais estas características? Veruschka que o diga! Ela, certamente, foi uma das manequins mais requisitadas por Diana, assim como Penelope Tree e Cher, tipos fora do “padrão”…

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Veruschka, by Franco Rubartelli – Vogue US 1968

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Cher – Vogue US 1966

 

Ousadia? É o que podemos chamar quando Diana publicou, pela primeira vez, no final da década de 40, uma modelo vestindo biquíni em uma revista! Foi um verdadeiro escândalo! Uma bomba atômica! Buuuum!…

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A foto da modelo usando biquíni causou verdadeiro frisson no final dos anos 40…

Mais algumas capas bacanas publicadas no período em que Diana foi editora da Harper’s Bazaar. Algumas delas em parceria com o designer gráfico Alexey Brodovitch e o fotógrafo de moda Richard Avedon…

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Bom gosto, criatividade e ousadia, marcas de Diana Vreeland

Nos anos de Vogue, 1963 – 1971, a editora viveu a grande explosão do comportamento juvenil. Beatles, Stones, Twiggy, liberdade sexual, igualdade de direitos, tudo, absolutamente tu-do interessava à Diana, sempre com suas anteninhas bem ligadas. Inclusive, ela foi a primeira a publicar uma foto do jovem Mick Jagger em uma revista americana, simplesmente pelo fato de achá-lo bonito e fotogênico, quando ninguém ainda dava nada por ele…

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Ninguém dava nada por Mick Jagger na América. Mas as anteninhas de Diana captaram algo de interessante no jovem rapaz… E ela foi a primeira a publicar uma foto dele em uma revista norte-americana, a Vogue US. O clique acima é do grande David Bailey, que trabalhou por muito tempo ao lado de Vreeland

 

Não é pretensão dizer que Diana ditou a moda durante o período em que esteve na ativa. E pode-se dizer também que se a Vogue América alcançou o prestígio que tem hoje certamente foi por causa de Vreeland. Nos anos em que comandou a revista, o sucesso, a ousadia e a beleza das publicações sob o seu comando foram indiscutíveis. Se fosse preciso, ela iria até ao Japão fotografar Veruschka na neve, ao lado de um lutador de sumô. E, sim, ela o fez! Diana queria dar às suas leitoras o que elas jamais poderiam ter. Queria que sonhassem. Queria transportá-las a um novo universo, cheio de fantasias, totalmente belo e desconhecido. Esta é a grande graça da moda, não é mesmo?! “Monotonia”, uma palavra desconhecida no dicionário Vreeland…

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Se fosse preciso ir até ao Japão para fotografar Veruschka na neve, ao lado de um lutador de sumô, pode ter certeza, Diana iria. E ela foi! As fotos, acima, são cliques de Richard Avedon e pertencem a um editorial publicado na Vogue US, ano 1966

No entanto, em 1971, a revista resolveu cortar as asinhas de Vreeland. Ela foi uma das editoras que custou mais caro à Vogue. Mas alguém com o currículo desta senhora não ficaria por muito tempo desempregada. Logo, ela receberia o convite para prestar consultoria ao Costume Institute do Metropolitan Museum of Art, de NY. Sob o seu olhar atento, foram montadas belas e audaciosas exposições de Moda, como a que trouxe figurinos da corte francesa do séc. XVIII e a de figurinos de grandes produções hollywoodianas. Uma verdadeira revista em 3D! A expo ma-ra-vi-lho-sa da retrospectiva da carreira de Yves Saint-Laurent, que visitei duas vezes, provocou polêmica junto à cúpula do museu e aos puristas em geral, que não admitiam que um estilista vivo, com uma loja a poucas quadras do Met, fosse homenageado. Para eles, tratava-se de publicidade, mas, para Diana Vreeland, as roupas de Saint-Laurent eram obras de arte. A História provou que ela estava certa…

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Diana fazendo pose com seus manequins do Metropolitan Museum of Art

Certa vez, um dos diretores do museu perguntou a ela, em tom provocativo, qual era sua formação. Diana respondeu que pouco importava, pois graças a ela o museu estava repleto de pessoas, coisa que não acontecia há tempos. Além de tudo, era atrevida. Bem o meu tipo!…

Fotos: reprodução

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