Ah, se os mortos falassem!

Agora, a todo sofrimento que acompanha a morte de uma pessoa querida, some-se a ele a maratona das exéquias. Corpos esperam uma semana, às vezes até mais, na fila para serem cremados. Quem não tem padrinho na Santa Casa da Misericórdia, que morra pagão, e com duplo sentido, por favor. Pois, se não houver um bom pistolão, não se pode mais nem morrer em paz neste Rio de Janeiro em que ninguém mais quer enterrar seus defuntos, pois poucos possuem mausoléu de família e, entre pagar 50, 60 mil reais por um túmulo no Cemitério São João Batista e gastar uma quantia módica por uma cremação, todos cravam na segunda alternativa…

.E mesmo os que possuem túmulos ou, até, pomposas capelas, algumas vezes preferem cremar seus mortos a submeterem seus vivos ao suplício do enduro de saltar pelas vielas estreitas, entre os mausoléus do João Batista, pulando covas, meio-fios, estatuetas, buracos, até conseguir chegar ao local do enterro, onde o sol é de rachar, os locais são infestados de mosquitos e os montinhos de lixo estão toda a parte…

Em tempo: esta semana, quase saiu tiro no crematório do Rio, e eu fui testemunha, quando um cidadão indignado, dizendo-se “da Polícia Federal”, reclamava porque teriam furado a fila e passado um corpo na frente do corpo de um parente seu. Na verdade, ninguém furou a fila, e a escala vinha sendo cumprida corretamente, mas nesta pressão que está sendo cremar o corpo de um ente querido morto, não há sistema nervoso que resista…

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