A partida da Primeira e Única, Carmen, o grande mito da sociedade brasileira

Carmen Mayrink Veiga em foto de Eduardo Clark/PLUG – Arquivo Hildegard Angel

Um amigo sugere o título “Morre a última grande dame“. Boa sugestão. Mas não condiz com a realidade. Grandes damas ainda temos poucas. Carmen não foi a última, foi a Primeira e Única, como eu a chamava. Mais do que grande dame, era grande personalidade, grande formadora de opinião, o maior mito da alta sociedade brasileira. Único de abrangência nacional, galgando espaços internacionais. Soube desempenhar seu papel como verdadeira diva, no exclusivo palco dos aristocratas do dinheiro, do poder e dos sobrenomes. Ela fez por onde. A postura sempre altiva, o esnobismo, a seletividade foram elementos importantes na construção de seu mito. As glórias não lhe caíram no colo, ela teve mérito e tenacidade. É nos detalhes sutis que as pessoas se distinguem das outras e são alçadas ao pedestal de nossas admirações. O diferencial de Carmen era ser sempre a mesma com qualquer um, fosse ele o Bill Gates, o Roberto Carlos, um artista anônimo ou o verdureiro da esquina. Carmen conversava igual, tratava igual, emitia os mesmos conceitos, que para alguns soavam como vindos de um universo paralelo. Era igual.

Falar com Carmen Mayrink Veiga foi um dos desafios profissionais que precisei vencer logo aos 18 anos. Não que ela me fosse inacessível, ao contrário. Tinha recebido de minha chefe, a colunista social de O Globo Nina Chavs, a relação de suas fontes diretas, que eu podia contatar quando ela viajava. E lá estava ela, a  diva, a Carmen!

Tímida, atriz, alheia àquele mundo, apesar de curiosa dele, eu precisava reunir a coragem de um acrobata em salto sem rede, sempre que tinha que discar o número de Carmen e ser atendida pelo copeiro Manuel, com empostação de Alec Guinness fazendo mordomo em filme inglês. Eu, respeitosamente, o chamava de “seu Manuel”.

E lá vinha Carmen, transbordando sofisticação. Havia chegado de uma temporada de caça na Áustria. E descrevia os castelos, as roupas, os jantares, os faisões servidos nas travessas ou enfeitando os chapéus das caçadoras, os pavilhões, as matilhas de cães e as cabeças coroadas participantes, príncipe tal e marquês qual, e os nomes se sucediam, Schlumberger, Rothschild, Ali Khan. E tudo acabava em Paris, para onde todos retornavam, enroscados nas mantas de vison das poltronas de seus jatinhos particulares. E eu anotando em ritmo de taquigrafia, para não perder uma vírgula, um respiro, uma entonação, porque tudo o que ela falava, e do jeito que ela dizia, era tão diferente e interessante. Sem dúvida se, naqueles tempos, já se pensasse em Luxo como disciplina de formação em Marketing, Carmen teria sido a mestra decana.

Mestra, Carmen efetivamente foi, informalmente. No Brasil, ela compartilhava aquele mundo inatingível com os sequiosos comuns mortais à sua volta. Era fonte inesgotável de aprendizado. Quer através das informações aos colunistas sociais, das suas entrevistas ou das atenções aos amigos. Se encontrasse algum livro de moda ou de decoração que interessasse ao costureiro Guilherme Guimarães, tratava de trazer com ela, sempre com uma dedicatória com suas impressões e anotações dos trechos que deveriam interessa-lo. Era um “oráculo do luxo”, distribuindo saberes e refinamentos. O bijoutier Alberto Sabino, os estilista Liliane Sirkis, Lino Villaventura e Heckel Verri, a joalheira Laja eram alguns de seus discípulos, e também para as amigas.

Quando me casei pela segunda vez, já aos 38 anos, pedi a Carmen sugestão de um vestido. De Paris, ela me enviou o recorte de um modelo de Yves Saint Laurent, um tailleur longo, e recomendou: “Faça com a Liliane Sirkis da Casa Colette. Ficará perfeito”. E ficou. Até o bordado, Liliane mandou fazer no mesmo bordador de YSL em Paris. Conselho de Carmen não tinha erro.

Mas havia certos conselhos… Quando fiquei noiva de Francis, Carmen nos convidou para almoçar com ela em seu clube. O colunista Zózimo havia publicado que eu estava namorando um “empresário armênio”. E a tribo carioca logo achou que devia ser caixa alta. Tinha quem se dirigisse a ele falando em inglês, em francês. A gente achava graça. Estávamos de partida para uma peregrinação a Medjurgorje voltando por Paris. Carmen resolveu aconselhar o noivo. “Qualquer vestidinho para de dia, de alta costura, em Paris, está custando 30 mil dólares. Os de coquetel custam 80 mil dólares pra cima. Então, quando Hilde for usar os vestidos que você vai comprar, ela tem que ficar atenta, porque essa coisa de comer caviar em pé acaba com qualquer roupa”. Apertei a mão do Francis com medo de ele se levantar da mesa pra nunca mais. E Carmen nem aí. “Outra coisa, Francis. “Não dê bugigangas de 100 mil dólares pra Hilde. Essas joias perdem todo o valor na revenda. O que vale é a pedra. Compre joias importantes para ela”. Foi aí que não me contive. “Ô, Carmen, você quer que eu perca o noivo antes da viagem?”. E caímos os três na gargalhada.

Carmen foi nossa madrinha. Vestiu amarelo. Cerimônia na Candelária às 6 da tarde, pedi chapéu a todas as madrinhas. Carmen usou arco e laço nos cabelos soltos. Estava um deslumbramento. Algumas vieram depois me dizer: “Como uma mulher daquela idade bota um laço no cabelo?”. “Que idade?”, perguntei. Ninguém sabia a idade de Carmen. Ela jamais revelou. E deve ter adorado ver a imprensa brasileira em peso errar sua idade nos obituários.

Para Carmen, não havia idade, havia aparência. Se o rosto “segurava”, podia usar cabelão. E seus cabelos se mantiveram longos até o fim. Usar joias com brilhantes de dia não pode? “Bobagem das brasileiras”, dizia. E usava. Se as pernas estavam bonitas, podia mostrar. E ela vestiu as saias curtas que quis, até ser obrigada a utilizar a cadeira de rodas. Sentava-se nela como uma rainha no trono, envolta em sedas e xales de voile ou cashmere, que movia com feminilidade e elegância. Em seu show da vida, a cadeira de rodas era simples figuração. Ela, a protagonista.

Quando os Mayrink Veiga perderam a fortuna, as cortinas não se cerraram. O interesse da imprensa permaneceu igual, o mundo social continuou a girar em torno de Carmen, Primeira e Única. Os holofotes em potência plena. A fortuna era componente importante, mas Carmen era a luz.

A família era seu interesse principal. Era 100% a favor de manter o casamento, custasse o que custasse. E ficou muito abalada com a morte de Tony. Imaginava que iria antes dele. Nos últimos tempos, cansada e entristecida, só falava em morrer. Queria morrer. No seu aniversário, em abril, segurou-me a mão e se despediu de mim. Achava que a morte logo a levaria. Brinquei, sorri, saí do quarto e chorei. Carmen Única não tem reposição. Éramos só sete amigas e a família. Carmen não conseguiu deixar o leito para nos encontrar na sala. O bolo, carregado por seu filho Antenor, os parabéns, o champagne foram em volta de sua cama, as amigas todas muito bem vestidas e arrumadas. Carmen abriu largo sorriso, estava feliz. Um raio de glamour iluminou aquele seu momento. Ela se alimentava da beleza e do glamour. E beleza plantou por todos os caminhos em que passou.

Resistiu o mais que pôde. A resistência consistia em encontrar ânimo para se preparar para sair, sempre impecável, para almoçar ou jantar (preferia almoço) com amigos ou prestigiar algum lançamento da neta joalheira, Maria. Uma onça matriarca.  Sua paixão pelos gatos era legítima e absoluta. Possuíam entre si uma conexão que só a ciência para explicar no futuro. Tudo dela tinha gato. Nos bilhetes e cartões, ao lado da assinatura, um gatinho desenhado (guardei todos, nesses 50 anos), ou selava o envelope com o cromo de um gato. Nas paredes de seu banheiro. Objetos de gato pela casa. Quando morreu, Top Show e Sylvie foram dos primeiros a perceberem que ela não estava mais lá.

Eliane, a gentil, dedicada, amorosa acompanhante de Carmen nesses anos de dor, pediu aos padres José Roberto e Jorjão para fazer uma oração após a missa de corpo presente no Memorial do Carmo. O caixão estava fechado (pedido dela, segundo Antonia). Sobre ele, um ramo de orquídeas brancas, ao qual Antonia depois juntou um buquê de rosas vermelhas, as rosas de Santa Therezinha, devoção de Carmen Therezinha. Audiência em círculo recuado, contornando o caixão numa distância respeitosa e solene. Todos de preto ou preto e branco. Homens de terno. Muito formal. Reverência a uma grande dama da elegância.

De frente para o caixão e de costas para nós, Eliane falou seu pranto. Uma oração contundente como são as dos fiéis evangélicos. Eliane atribuiu a Jesus e apenas a Jesus todas as superações alcançadas por Carmen, que, numa das muitas idas e vindas ao hospital, morreu e depois sobreviveu por um ano. Eliane emocionou a nós todos. E fez uma revelação: “Antes de morrer, ela disse “minha mãe, eu estou vendo você””.

A mãe de Carmen chamava-se Lourdes. Há meses fui tomar um chá em casa com Carmen. Só nós duas. Ela falou e falou muito de seu pai, Enéas Solbiati, como se quisesse me fazer depositária das informações, para uso futuro. Descreveu a beleza do pai, a amizade entre eles. Foi o homem mais bonito que conheceu. A altura privilegiada. A elegância, sempre de ternos de linho branco, de sapatos bicolor de pelica. E seu sucesso no mundo financeiro, com ocasionais insucessos, dos quais sempre conseguia se reerguer. Lembrou dos bons amigos que ele tinha em São Paulo, como Francisco Scarpa e o conde Matarazzo, e dos tempos da fazenda em Pirajuí.  Quando se referiu à mãe, foi de passagem, “mamãe era elegante, mais para baixa, um pouco para gordinha…”. Eu outra ocasião, contou-me que sua mãe morreu depois de muito sofrimento, vítima de uma doença degenerativa. Morava em São Paulo aos cuidados da irmã de Carmen, que para vê-la vinha de Paris, onde vivia nessa época. Mas Carmen não gostava de falar coisas tristes. Era alegre.

No dia em que morreu, Carmen Mayrink Veiga, brasileira do Hall of Fame das Mais Bem Vestidas do Mundo, vestia uma camisola verde água, combinando com o cinza claro dos bordados dos lençóis. Eliane a ajeitou nos travesseiros para dormir, como sempre fazia naquele horário. Eram cinco e meia da tarde. Carmen virou a cabeça para trás e fechou os olhos, para sempre. Eternizou-se.

Perseverante, tenaz, delicada, com rara noção de qualidade e muito talento, mesmo sob o impacto das dores agudas e contínuas de suas duas últimas décadas, manteve a alegria, que fazia dela uma companhia fascinante, até se deixar vencer pelo cansaço e a tristeza.

Tinha tiradas como: “… jóias, claro que quem pode continua comprando, mas dificilmente continua usando. Ficou uma ostentação, porque com a nova leva de ricos ninguém sabe a hora de usar a jóia certa. Só estão mostrando”. Dizia isso, assim como também dizia: “Não me levo a sério”.

Dois meses da tragédia do reitor Cancellier e a ferida, ainda aberta, sangra… até quando?

Dois meses passados da morte trágica do reitor Luiz Carlos Cancellier e a ferida continua sangrando dramaticamente, como se tivesse sido aberta neste instante.

Cancellier cometeu suicídio, após ser vítima de perseguição infame e de uma sucessão de atos injuriosos e calúnias, uma prisão desrespeitosa e injustificada, em que foi exposto a nudez humilhante e ao encarceramento em uma solitária.

Solto, foi proibido de frequentar sua própria universidade, sequer de se aproximar dela, como se significasse algo pernicioso para a comunidade acadêmica. Logo ele, mestre vocacionado, vida inteira dedicada ao ofício, como um missionário do ensino, brasileiro de total boa fé em nossas instituições e seus objetivos,

A surdez aos seus apelos de inocência, a recusa em aceitarem qualquer tipo de argumentação, a blindagem impermeável à verdade, a insistência em apresentarem como real o que de fato era falso, o poder do bullying institucional sofrido pelo reitor Cancellier promoveu em seu emocional uma demolição devastadora, levando-o a uma tal instabilidade que só encontrou como alternativa a morte.

Inconformados, os companheiros do reitor Cancellier permanecem mobilizados. Assim, foi elaborado um documento do Coletivo Floripa Contra o Estado de Exceção. abordando a impunidade das autoridades e dos aparatos de repressão no abuso de poder registrado no caso.

O site dos Jornalistas Livres fez também matéria informando que o caso foi, silenciosamente, notificado como acidente do trabalho, por uma médica do Hospital Universitário, como resultante de assédio moral e constrangimento insuportáveis. A corajosa iniciativa dessa médica, mantida até agora no anonimato, abre importante instrumento jurídico para processos atuais e futuros de responsabilização do Estado pela morte de Luiz Carlos Cancellier.

Aqui, transcrevo a nota do Coletivo Floripa Contra o Estado de Exceção

“Pela apuração imediata das responsabilidades civis e criminais: há dois meses morria o professor Luiz Carlos Cancellier de Olivo, vítima de abuso de poder!

Mais de dois meses depois da espetaculosa operação “Ouvidos moucos”, protagonizada pelos agentes públicos Polícia Federal e Ministério Público Federal, sob a chancela da Justiça Federal, e precisamente 60 dias após a morte do professor Cancellier, reitor da Universidade Federal de Santa Catarina, um silêncio cúmplice e profundo das autoridades públicas do estado se faz sentir, na comunidade universitária e sociedade em geral.

Prevalece até aqui a impunidade e nenhuma ação concreta de apuração e investigação de responsabilidades foi instaurada contra os agentes do fascismo. Ademais, outros cinco professores e um técnico-administrativo continuam banidos da UFSC: Marcos Baptista Lopez Dalmau, Gilberto de Oliveira Moritz, Rogério da Silva Nunes, Eduardo Lobo e Marcio Santos (professores); Roberto Moritz da Nova (funcionário da FAPEU). Todos tiveram suas vidas expostas e foram julgados e condenados pelo tribunal da mídia tradicional, parceira e cúmplice, desde as primeiras horas da manhã, da PF, MPF e Justiça Federal.

O Coletivo Floripa contra o Estado de Exceção vem a público exigir que as autoridades constituídas de Santa Catarina, a saber o governo estadual e os deputados estaduais, ajam no sentido de instaurar o devido processo legal de apuração de responsabilidades das autoridades envolvidas no flagrante abuso de autoridade e ruptura do Estado Democrático de Direito.

Na Sessão Solene fúnebre do Conselho Universitário da UFSC do dia 03 de outubro, o governador em exercício, Eduardo Pinho Moreira, assumiu como posição oficial a nota emitida pelo Procurador Geral do Estado, João Martins dos Passos Neto: “Por isso, respeitado o devido processo legal, é indispensável a apuração das responsabilidades civis, criminais e administrativas das autoridades policiais e judiciárias envolvidas”.

Em recente Sessão na Assembleia Legislativa de Santa Catarina (Alesc), em homenagem ao reitor morto, o desembargador e professor da UFSC, Lédio Rosa de Andrade, também cobrou uma posição do Executivo estadual e do próprio parlamento catarinense. É preciso investigar quem autorizou a transferência do reitor e dos demais presos da Superintendência da Polícia Federal para o Presídio de Florianópolis, no qual foram submetidos a toda sorte de humilhações. Qual autoridade autorizou a entrada do professor Cancellier e dos demais presos no sistema prisional de SC? É sempre bom lembrar: a “espetacular” e desastrada operação mobilizou 105 policiais para prender seis professores e um técnico-administrativo da UFSC. A PF os chamou, leviana e irresponsavelmente, de “quadrilha”, que havia “desviado R$ 80 milhões do programa de ensino à distância”. Uma mentira que o site da Polícia Federal mantinha no ar, até dias atrás, porque na verdade esse era o montante do programa em mais de 10 anos. O suposto desvio, ainda sob investigação, teria sido, algo entre R$ 300 a R$ 500 mil, em período anterior à gestão de Cancellier.

Enquanto a comunidade universitária e a sociedade aguardam providências concretas do governo de SC e da Assembleia Legislativa, num gesto de escárnio, a delegada responsável pela tal operação é “severamente promovida” para o cargo de Superintendente da Polícia Federal, no estado de Sergipe. É mais uma agressão vil aos familiares, amigos, colegas de profissão que continuam a luta em defesa da Autonomia Universitária e do Estado Democrático de Direito.

Contra todo tipo de golpe e perda de direitos! / Pela aprovação urgente da Lei Cancellier de Abuso de Autoridade na Câmara Federal! / Pelo absoluto respeito aos Direitos Individuais e Coletivos assegurados na Constituição! / Em defesa da UFSC, da Autonomia Universitária, da Soberania Nacional e do Estado Democrático de Direito! / Não ao Estado de Exceção!

Florianópolis (SC), 02 de dezembro de 2017.

Coletivo Floripa Contra o Estado de Exceção”

Aqui abaixo a matéria do site Jornalistas Livres sobre a notificação de sua morte como Acidente de Trabalho

https://jornalistaslivres.org/2017/12/exclusivo-suicidio-do-reitor-cancellier-foi-notificado-como-acidente-do-trabalho-provocado-por-constrangimento-moral-insuportavel/

Abaixo, matéria e fotos sobre a Aula Pública da UFSC marcando os dois meses de falecimento do reitor

http://noticias.ufsc.br/2017/11/ato-na-ufsc-a-favor-da-autonomia-universitaria-e-contra-o-abuso-de-poder/

Nassif: a prisão do casal Garotinho é o maior desafio que os direitos individuais enfrentam nesse país sem leis.

Não sou do grupo próximo dos Garotinho. Apontei em seus governos falhas, assim como reconheci méritos. Sobretudo em sua obstinada luta pela manutenção dos royalties do petróleo para o Rio, nas muitas realizações da Cedae à sua época e ao levar energia para as comunidades mais isoladas e distantes do estado.

Mas se há algo que me incomoda são as lutas entre forças desiguais, a pressão pelos todo poderosos para sempre prevalecerem, em detrimento de quem quer que seja, os odores e rumores de injustiça. Por isso, reproduzo aqui este breve artigo de Luis Nassif.

O massacre do casal Garotinho, por Luis Nassif

Pouco sei da carreira política do casal Garotinho. Cada vez que escrevo sobre eles, amigos correm para sugerir cautela. Mas a perseguição que lhes é movida pelo sistema do Rio de Janeiro – Tribunal de Justiça, procuradores e Globo –, sob silêncio geral, é um massacre.

Garotinho é um político local que tentou um voo mais alto. Não conseguiu se transformar em um líder nacional, capaz de mntar alianças com os sistemas de poder – Judiciário, Congresso, mídia -, mas ficou grande demais para se abrigar nas asas de algum padrinho político, em partidos ou nos tribunais superiores. Não tem vinculação nem com esquerda, nem com direita, nem com intelectuais, nem com juristas. Não tem aliados nos partidos maiores, menos ainda na mídia.

Mesmo assim, é politicamente atrevido nos desafios que faz e fez. Já desafiou o Tribunal de Justiça do Rio, a Globo.

Com esse atrevimento – e essas vulnerabilidades – tornou-se um prato para esse pessoal. Podem aprontar o que quiser com seus direitos que não haverá gritos de revolta, manifestações dos órgãos de defesa dos direitos humanos, clamor dos juristas mais conhecidos ou a defesa do Gilmar Mendes. Não haverá manifestações internas, menos ainda as internacionais.

Leio, agora, que o bravo TJ-RJ tirou os direitos políticos de Rosinha Garotinho por 2 a 5 anos, pela acusação de ter usado recursos públicos para um anúncio no qual respondia a ataques a uma política que implementou em Campos. Seu advogado diz que é armação.

A prisão do casal Garotinho, a humilhação a que foram expostos por procuradores – que permitiram cenas da prisão no Fantástico -, a perseguição implacável da mídia, cobrando até a submissão de Rosinha às faxinas do presídio, mostram o Rio de Janeiro definitivamente como uma terra de ninguém.

É covardia dos eminentes magistrados, é covardia da Globo, é covardia de todos os que se calam, porque as vítimas não se enquadram em nenhum dos escaninhos do poder ou da oposição.

Defender Garotinho não enriquece currículos.

Por isso, mais do que os prisioneiros políticos da Lava Jato, a prisão do casal Garotinho é o maior desafio que os direitos individuais enfrentam nesse país sem leis.

Aberta a alta temporada do Rio e, como sempre, o evento foi no Copacabana Palace

Um mix de tipos, looks, tribos, idades, em incessante footing na varanda da Pérgula do Copacabana Palace, confraternizando flutes, saboreando canapés de mignon e bolinhos de bacalhau na mostarda, deliciando-se com comidinhas criativas como “ovo alegre com salada de kinoa”, nova versão dos oeufs benedictine do chef do Copa, trocando impressões cariocas, interestaduais e internacionais, pois lá havia cariocas, paulistas, goianos, mineiros e até um belga encontrei – o cônsul geral. Naturalmente não podia ser diferente, já que se tratava de mais um evento com a dupla chancela “Arnaldo Danemberg-Belmond Copacabana Palace”.

 Arnaldo Danemberg, entre a filha e grande parceira de trabalho, Paloma Danemberg, e a designer de interiores Paola Ribeiro, e Cassiano Vitorino

Todos os arquitetos e decoradores de prestígio do Rio e muitos de São Paulo. Todos os jornalistas que cobrem decoração e arquitetura de interiores de São Paulo e do Rio. Os digital influencers de prestígio sobre o tema. A completa constelação de nomes importantes do setor, promotores de eventos e feiras, fornecedores, proprietários de lojas e marcas, clientes importantes, personalidades emblemáticas do Rio. O vaivém era intenso na inauguração da Nova Varanda da Pérgula do Copacabana Palace, depois da reforma e agora com projeto de decoração do escritório de arquitetura de Paola Ribeiro, com a curadoria do antiquário Arnaldo Danemberg, que transportou, de sua loja na galeria do Chopin, ali ao lado, para lá, suas mais nobres peças, que compõem todo o ambiente.

Uma dupla de mulheres notáveis do setor: Patrícia Mayer, a dama Casa Cor/RJ, e Paola Ribeiro

O que particularmente encanta nessa ambientação de Paola Ribeiro é a história de vida e de trabalho de que cada peça está impregnada. Garimpados no interior da França e no norte de Portugal, são móveis de ofício antigos e devidamente restaurados, oriundos de uma tecelagem, um curtume, uma boulangerie, uma marcenaria e uma loja de flores.

Marco Azeredo, Thomaz Vidal e Henry Barclay, sócios no site Boobam, um marketplace de artistas e designers,  que se propõe a ligá-los diretamente aos compradores. Jovens administradores de empresas, eles prospectaram o mundo virtual e encontraram nele esse nicho por preencher, o que têm feito com sucesso. Acessem para conferir. A Boombam em pouco tempo se transformou em grande vitrine online, somando quase uma centena de loja e mais de 600 produtos. https://boobam.com.br/

Enormes uchas de pão, de carvalho, são usadas como canteiros de plantas, os sofás são estrados de curtumes, de uma tecelagem são os gaveteiros dupla face usados como bancada, e que ficariam perfeitos em uma imensa cozinha gourmet, suspensas no teto com samambaias estão bandejas de fornerias. Quanto aos estofados são todos da inspirada Coleção Brasilianas, que a dupla Attilio Baschera e Gregorio Kramer desenvolveu para a Donatelli. As estampas trazem frutas tropicais, imagem de Debret e paisagens brasileiras. E tudo se harmoniza lindamente, num paisagismo com elaboração de Christina Mendes.

Vale a pena ir ao Copa conhecer a Nova Varanda da Pérgula decorada por Paola Ribeiro. Afinal de contas, vocês sabem, o Copa é o Copa. Nada se compara. Entre todos, é o único que tem um valor agregado chamado Tradição.

Kiki Perelmuter, Irajá Carneiro e Anna Clara ex-Herrmann, um quimono da Lenny Niemeyer, com calça preta, a mesma bossa de sempre, não muda em charme nem  em atiitude. Mas no sobrenome, ela mudou. Casada há um ano com o Max Tenembaum, endereço novo em São Conrado, depois de muita obra para reforma e decoração do apê

Antonia Leite Barbosa e o cônsul-geral da Bélgica, Christian Bula

Katia e Arnaldo Danemberg com a embaixatriz Laís Gouthier, que se prepara para receber a filha, Claudia, o genro, Cyrill, os netos e toda a família, vindos da Fança para passar o Natal com ela. O sorriso revela a alegria em que se encontra.

Paloma Danemberg e Joana Nolasco

Patrick Doering e Thomaz Azulay

Os goianos Pedro e Leandra Ernesto Gualberto

No mais, quem causou frisson na tarde do Copacabana Palace foi a paulistana Gina Elemeleki. Saibam abaixo os motivos em detalhes… fotográficos…

FOTOS ACIMA DE MIGUEL SÁ

Nem tudo são crimes. Há lírios florescendo no lamaçal carioca…

Nem tudo são crimes. Há lírios florescendo no lamaçal.

As flores vicejam na área da Educação do município do Rio de Janeiro, com seu programa Orquestra nas Escolas, que se propõe, até 2020, a formar 80 mil instrumentistas, buscando fazer da música importante aliado dos jovens estudantes da rede pública do Rio. Só até o fim deste ano, 11 mil alunos cariocas terão recebido aulas de iniciação em música instrumental, prática de orquestra e coro, podendo escolher os instrumentos da preferência – viola, violino, contra baixo acústico, flauta doce, trompete, trombone, clarinete, percussão.

No dia 27, na Cidade das Artes, às 16 horas, será a estreia, em grande estilo, da Orquestra Sinfônica Juvenil Carioca, integrada apenas por jovens músicos de escolas da rede pública dos quatro cantos do município, algumas em áreas conflagradas – Cidade de Deus, Chapéu Mangueira, Babilônia, Leme, Madureira.

No programa, um mix de obras de consagrados, como Villa-Lobos, Chico Buarque, Vinicius, Luiz Gonzaga, Pixinguinha, e até funk, que pra quem não sabe é inspirado no maculelê.

Orquestra Sinfônica Juvenil Carioca

Nesse concerto de estreia, a jovem Sinfônica homenageará o maestro Antonio Carlos Jobim, que estaria completando 90 anos este ano

César Benjamin, o secretário municipal de Educação, acredita que a paz, a cultura e a boa convivência da comunidade carioca também podem se dar  “através dessa grande corrente de formação de novos músicos”.

Menos camburões, mais orquestras, mais música, mais juventude envolvida com projetos que lhe apresentem perspectivas de um futuro mais risonho.

 

 

“A obra de Moniz Bandeira sobrevive como guia para todos os que lutam por um Brasil mais justo”: Samuel Pinheiro Guimarães

Faleceu na Alemanha, o historiador Luiz Alberto Moniz Bandeira, o principal especialista brasileiro em política internacional. Moniz Bandeira contribuiu também para a análise e a compreensão da política brasileira, através  de livros e artigos na imprensa.

A nota que se segue é uma homenagem a sua vida e a sua obra prestada pelo embaixador Samuel Pinheiro Guimarães, Secretário Geral do Itamaraty (2003-2009), Ministro de Assuntos Estratégicos (2009-2010)

Luiz Alberto Moniz Bandeira: patriota e anti imperialista

Samuel Pinheiro Guimarães

                   22 de novembro de 2017

Luiz Alberto Moniz Bandeira

Luiz Alberto Moniz Bandeira dedicou sua vida ao Brasil e à luta contra o imperialismo.

Sua vida e sua obra são testemunhos desta dedicação.

Foi jornalista desde jovem, trabalhando no Correio da Manhã, no Diário de Noticias e na Última Hora.

Como jornalista, teve a oportunidade de conviver e de entrevistar as mais diferentes personalidades brasileiras, como Jânio Quadros, e estrangeiras, como Che Guevara.

Assim desenvolveu a capacidade e o hábito de analisar e interpretar os acontecimentos e de procurar sobre eles se documentar.

Foi Professor Titular de História, na Universidade de Brasília.

Foi militante político da POLOP, foi preso, condenado e anistiado.

Lutou na clandestinidade.

Escreveu um de seus primeiros livros, Presença dos Estados Unidos no Brasil, quando se encontrava preso.

O eixo de seu pensamento e de sua obra, de mais de trinta livros, traduzidos para o inglês, o alemão, o russo, o chinês e o espanhol, centenas, se não milhares, de artigos e de entrevistas, pode ser resumido em três palavras, que são os três desafios para o Brasil: desenvolvimento, democracia e soberania.

Três desafios profundamente entrelaçados e que não podem ser vencidos isoladamente.

Em João Goulart: as Lutas Sociais no Brasil e em seu livro sobre Jânio Quadros, Moniz Bandeira se apresenta como democrata convicto e autêntico e como um lutador pelo desenvolvimento do Brasil, assim como em suas obras sobre a integração latino e sul-americana.

É em sua analise do imperialismo e das relações entre o Brasil e a Potência Imperial, que são os Estados Unidos, e sobre o Império americano e sua ação, que se encontra sua principal contribuição como intérprete da realidade política e como historiador, imparcial e preciso, mas militante.

São obras imprescindíveis para diplomatas, historiadores, jornalistas e políticos que desejem e procurem conhecer a política internacional, a ação do imperialismo, e o Brasil: A Presença dos Estados Unidos no Brasil; João Goulart; As Relações Perigosas: Brasil-Estados Unidos; Brasil-Estados Unidos: A rivalidade emergente; De Marti a Fidel; Fórmula para o Caos, a derrubada de Allende; Formação do Império Americano; Argentina, Brasil e Estados Unidos; A Segunda Guerra Fria; A Desordem Mundial.

Luiz Alberto nos deixou: sua obra sobrevive como guia e farol para todos os que lutam por um Brasil mais justo, mais desenvolvido, mais democrático, mais soberano.

 

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Ricardo Amaral, guerrilheiro do bom combate de transformar, agregar, amar o Rio, a Gisella, love is all

Ricardo Amaral, militante da noite carioca e internacional, não dá adeus às armas ou abre a guarda, mantém-se na trincheira do bom combate por aquilo em que acredita: a promoção do convívio através da alegria, da música boa, da interação de pessoas raras que poucos conseguem atrair e cativar. Um sedutor vocacionado para agregar, congregar, realizar e transformar, promovendo beleza e renovação. Combatente de sonhos, guerrilheiro de projetos que nunca se esgotam, Ricardo são dois, ele e Gisella, protagonistas únicos de um espetáculo de casamento, que se mantém campeão de audiência, sucesso de bilheteria, plateias superlotadas e cortinas de veludo abertas há seis décadas, tanto na vida íntima e familiar quanto na profissional. Eles se complementam e são indissolúveis. Um sem o outro não é. Ele, ardente, humor explosivo, língua incendiária. Ela, branda, palavras suaves, atitudes gentis. Ricardo, arrebatado. Gisella, contida. Mas ambos igualmente vigorosos, energéticos e corajosos. Exercem juntos superações de todos os tipos. Sejam elas nas crises de saúde ou nos empreendimentos desafiadores. Ele se preocupa, ela reza. Ela se fragiliza, ele se desmonta. E assim caminham meus padrinhos, amigos queridos, minhas admirações. Sempre no ritmo de seu tempo, Amaral trouxe de volta ao Rio o Hippo, com um terraço charmoso para as sunset celebrations, e perpetua a memória da cidade em seu Rio Book. Ricardo que Ama a Gisella, que Ama a noite, que Ama o Rio, Ricardo que Amar All…. 

‘Catito mio’ ou ‘O Rio corre para Omar’, a campanha de Omar Peres ao governo do Rio já acontece até na TV

Omar Peres, o Catito, é dono das casas mais emblemáticas do Rio de Janeiro – a Fiorentina, o Bar Lagoa, o Hippopotamus. Já conduziu dois estaleiros, o Verolme e a Netumar. Tem uma cachaça com seu nome. Em sua fazenda Guaritá, desliza sobre trilhos uma Maria Fumaça autêntica. E é sobre os trilhos que ele pretende, como governador, reconduzir o Estado do Rio de Janeiro no caminho de sua antiga liderança do desenvolvimento e do progresso, contando para isso com a indústria naval, com a linha de montagem dos navios e com as encomendas da Petrobras, que deve voltar a gerar empregos aqui no Brasil, no Rio de Janeiro, não na China ou na Coréia, como passou a fazer.

Esse mérito ninguém lhe tira. O empresário Omar Resende Peres – o Catito – foi o primeiro a se apresentar, nas mídias sociais, como candidato independente ao governo do Estado do Rio de Janeiro.

Bem articulado, com um discurso objetivo e de fácil compreensão, em pouco tempo Catito conquistou uma grande legião de seguidores, admiradores fiéis, que tudo comentam e quase tudo aplaudem. São votos garantidos. Com este animado e super participativo nicho eleitoral do Facebook, a campanha de Catito só cresceu. Em seguida, veio o slogan, muito bom por sinal, O Rio corre para Omar (lembrando O Rio é Nilo, de Nilo Baptista quando foi candidato à reeleição). Um jingle também foi composto e gravado por uma eleitora entusiasta de suas ideias. Eu, pessoalmente, optaria pelo já consagrado Catito mio

Quanto ao partido, Catito negociou com o presidente Lupi, do PDT. A legenda não lhe foi negada, mas também não foi ainda confirmada, Catito é pré-candidato. O que não o impede de continuar firme em campanha pelo Face, já em viagens pelo interior do estado e concedendo entrevistas à mídia impressa e à TV. Como a dada sábado à noite ao programa do jornalista Ricardo Bruno, Jogo do Poder, na CNT.

Catito já acertou ao optar pelo PDT, na esteira do carisma de Leonel Brizola, cuja memória ressurge com enorme força neste momento brasileiro. Ao olhar da História, Brizola cresce por sua sabedoria política e a singular sensibilidade social. Na entrevista à CNT, o pretendente ao governo do Rio demonstra conhecer as necessidades do Estado e ter pronto um projeto para ele. Deveria ser o beabá de qualquer candidato, mas não é o que acontece.

Empresário da indústria naval, Catito escolheu apresentar-se ao eleitorado com seu perfil empresarial, não o de político, apesar de já ter ocupado uma secretaria no governo de Itamar Franco, em Minas Gerais. Sabe que, hoje, experiência no poder público não qualifica. Ele tem uma proposta para o Rio de Janeiro, acredita na retomada de seu desenvolvimento através da indústria naval, vê nesse caminho uma saída. E tem argumentos. É animador assisti-lo.

No seu caldeirão de ideias que pretende colocar em prática, borbulha o legado humanista de Brizola. Critica os “mandados coletivos de busca”, que autorizam revistas indiscriminadas, pela polícia, das casas dos moradores das favelas, “onde 99% são pessoas de bem”, e sonha sonhos de Darcy Ribeiro, por um ensino escolar abrangente, que forme cidadãos plenos, preparados para viverem este grande desafio que é ser brasileiro.

Se Catito for eleito, teremos uma primeira dama bonita e preparada. Ex-correspondente internacional da Rede Globo na Itália por muitos anos, Lenise Figueiredo ainda vive em Roma, com seus dois filhos, e faz com frequência a ponte aérea Roma-Rio-Roma para estar ao lado de Omar.  Foto de José Peres.

Nas frigideiras do noticiário político espocam, como pipocas, nomes para cargos majoritários de candidatos impossíveis possíveis. O ano 2018 bate à porta e estamos todos ainda no ar. Fora do ar. Sem ar. Os ares da política nos intoxicam. A tradição política, em vez de contar pontos para os concorrentes, subtrai.

A maré está pra Bernadinhos e Hucks. Até já emplacou um Doria na maior prefeitura do país – no momento lutando com bravura para interromper a oscilação (pra baixo) do ponteiro de sua popularidade.

Com episódio racista de Waack, todos os jornalistas globais descem do pedestal, diz site da imprensa

Reproduzo aqui a excelente análise de Pedro Zambarda para o Portal Comunique-se, de acesso exclusivo dos profissionais da imprensa, sobre o episódio da frase racista proferida pelo apresentador do Jornal da Globo William Waack. Para Zambarda, os jornalistas globais, depois disso, não estão mais imunes às críticas. Desceram de seu inacessível pedestal.

 

 

Pedro Zambarda 

Pedro Zambarda é Jornalista e escritor. Teve experiência na Editora Abril (EXAME.com) e Globo.com (TechTudo). Atualmente, é editor dos projetos Drops de Jogos e Geração Gamer, além de colunista da rede social Storia e repórter do site Diário do Centro do Mundo DCM.

 

O episódio da frase racista dita pelo jornalista William Waack num intervalo durante cobertura feita pela TV Globo da eleição presidencial norte-americana, divulgada um ano depois, teve reação imediata das pessoas na internet.

A primeira onda foi categorizar a frase “é coisa de preto”, entre risadas, como racismo. A Globo, como reação, afastou Waack no mesmo dia do ‘Jornal da Globo’ e do ‘GloboNews Painel’.

A segunda onda veio de jornalistas muito bem pagos e prestigiados de outras emissoras, além de um juiz do STF. Augusto Nunes, Reinaldo Azevedo, Demétrio Magnoli, Rachel Sheherazade, Gilmar Mendes, Rodrigo Constantino e grandes nomes opinativos da direita conservadora mídia foram defender a “biografia de William Waack”. Relembraram sua competência como correspondente de conflitos armados, conhecedor da Europa e outros feitos, como sobreviver a um sequestro de grupos de Saddam Hussein na Guerra do Golfo. Enquadraram a frase racista como “erro”, “tribunal de Facebook” e “patrulha das redes sociais”.

Tentaram, em suma, dar uma passada de pano no colega. Uma curiosidade levantada pelo jornalista Anderson Scardoelli, editor deste Portal Comunique-se, é que nenhum deles é da Rede Globo. A emissora, pasmem, não descartou crime de racismo e nem censurou o ator Lázaro Ramos, que criticou abertamente Waack.

E o que aprendemos neste episódio protagonizado por William Waack? O jornalismo sacralizado de âncoras da TV Globo não está mais imune aos deslizes da ética.

Nada adiantam grandes salários, grandes audiências e nem mesmo uma grande biografia profissional para dissociá-la da falta de ética cotidiana. Se William Waack realmente partilhasse de princípios democráticos, talvez não faria alguns comentários que fez durante o impeachment de Dilma Rousseff. Procuraria um certo distanciamento crítico acerca das próprias opiniões. Sacralizado, ele achou que podia fazer o que quisesse, no ar ou fora do ar.

E não faria “piadas” de cunho racista em ambiente profissional que foram vazadas pelo operador de VT Diego Rocha Pereira e pelo designer gráfico Robson Cordeiro Ramos. Os dois se queixaram que aquela não era a primeira vez que William Waack falava algo racista e saía impune.

E o que aprendemos neste episódio protagonizado por William Waack? O jornalismo sacralizado de âncoras da TV Globo não está mais imune aos deslizes da ética.

Dessacralizado, o jornalismo mais honesto pode ser praticado diante do público.

Por isso, é importante enquadrar o episódio de Waack da forma que realmente ocorreu, sem poupá-lo das críticas pelo seu preconceito.

 

‘É coisa de preto’ do Waack impacta o país e promove detox do racismo na alma brasileira

O impacto causado pelo vídeo em que William Waack, entre palavrões, vomita frases racistas – “só podia ser coisa de preto, coisa de preto” – ao mesmo tempo, em que foi um grande desserviço para a carreira do jornalista, prestou imenso serviço à causa racial no Brasil, que em poucas horas galgou novo e mais elevado patamar.

O choque provocou uma catarse da consciência geral da Nação quanto ao incontestável racismo que ela evita assumir, um detox do preconceito em cada indivíduo, alcançando os escaninhos mais recônditos do que de pior o brasileiro busca esconder. Foi um despertar necessário, reacendendo a discussão sobre cotas raciais e revelando em sua plenitude o óbvio e injusto cenário da desigualdade racial de nossa sociedade.

Do ‘episódio William Waack’, todos saímos melhores. Sua repercussão gigantesca mostrou um Brasil em estado de alerta permanente contra o racismo, que se apresenta como nosso calcanhar de Aquiles cronicamente machucado, tratado com band-aids, mas que no primeiro sapato apertado solta um “é coisa de preto!”.

Outro saldo positivo foi a farta produção de bons textos sobre o assunto. Textos jornalísticos, nos blogs progressistas, feicibuquis e circulando pelo What’s App. Enfim, autores inspirados nos brindaram com generosidade. Na safra desta semana, pincei dois textos. Um, do escritor Anderson França, em sua página do Facebook. Outro, da poetisa Elisa Lucinda, que circulou pelo What’s App. Deliciem-se.

O escritor Anderson França pergunta: “Onde mora o Waack dentro de você?”

Coisa de Branco / Coisa de Preto 

por Anderson França

Eu poderia escrever um texto incitando os sentimentos de vingança da massa, contra o William Waack.

Seria um texto ótimo.

Não tenho dúvidas, que seria um dos mais lidos hoje. Postado em outras páginas. Jornalistas ligando, pedindo entrevista. Pessoas amigas dizendo que, sim, é isso mesmo, pau no racista.

Mas uma coisa me chama a atenção, de maneira silenciosa. E mesmo que pouca gente leia, eu me dou por satisfeito.

Waack, daqui um mês, será lembrado como mais um racista do passado. E talvez seja difícil para ele recuperar seu posto numa bancada, talvez não na Globo, que se autodenomina a emissora de 100 milhões de “uns”.

Desses 100 milhões de uns aí, ela sabe, 54% são pretos.

E como disse um amigo, ninguém mais peita essa força da opinião pública. Para o mal, ou para o bem. Seja o Santander que cancela exposição de arte, seja a emissora que retira o jornalista da bancada.

A rede, como ele disse, é o quinto poder.

Tomara seja.

Mas o que me chama a atenção no caso do Waack não é ele, e sim a expressão que ele usa.

“Coisa de preto.”

Em resumo, deixa eu resumir mesmo o texto pra você que tá no trem e quer pensar: Onde mora o Waack dentro de você?

Porque essa expressão não foi criada por ele.
Ele ouviu de alguém. Eu diria que ele cresceu ouvindo isso. Logo, sua fala denuncia seus pais. Que provavelmente ensinaram isso a ele. E provavelmente aprenderam dos seus pais também.

E dos outros adultos. E dos outros pais. Amigos, colegas. Ele fez jornalismo na USP. Ele fez Ciências Políticas na Universidade de Mainz, na Alemanha. Ele trabalha na Globo. Ele mora num bairro nobre. Ele come num restaurante fino. Ele tem amigos importantes. Ele bebe vinho caro.

Quando chega o primeiro navio com pretos prisioneiros, chega também a primeira afirmação sobre eles, que eram animais, sem alma, intelecto, valores, princípios, modos, capacidade de relacionamento.

Quando o primeiro navio negreiro chega, quem anuncia sua chegada é um antepassado do William Waack.

Com o navio ancorado aqui na frente, no Cais do Valongo, o William Waack do século 16 está em frente a uma câmera, pronto para o link pra Portugal.

E os negros que saem do navio, debaixo de surra, gritam de dor.

Ali ele disse, pela primeira vez: “Sujeito de merda. Sabe o que é isso? Coisa de preto.”

A falta de uma mão no meio da cara, naquele momento, permitiu que essa expressão se perpetuasse.

Nunca discutimos o quanto essa expressão está nas nossas vidas. Pare e pense sozinho, se possível, com o computador fechado, para evitar que, sei lá, por telepatia seus pensamentos se tornem públicos.

Quantas vezes, nós já ouvimos e falamos isso?
Vou me colocar nesse lugar com você. Porque é isso: é ilusão pensar que só o Waack diz isso.

Eu digo, você diz, sua mãe, o pastor, aquela vó fofinha fazendo tai-chi-chuan, aquela feminista famosa, aquele socialista povão, aquele artista daora, aquele jogador que veio da favela, o taxista, o uberista  e o motorista de ônibus, o carteiro, o médico cardiologista, o psicólogo, o baterista daquela banda, sua esposa, sua prima, seu marido, seu filho,e o jornalista.

Todos nós hoje precisamos descobrir onde está o William Waack dentro de nós. E não tem desculpas. Tem que estudar. Tem que fazer terapia. Tem que priorizar isso.

Porque você sabe, e eu sei, os efeitos esmagadores do racismo na sociedade brasileira. A escravidão oprimiu pessoas que hoje vivem em desigualdade. Durante 400 anos foi isso, e os outros 117 não deram conta da desordem provocada pelo branco.

Se “coisa de preto” é tocar buzina, promover desordem, ser inconveniente, o que é a coisa de branco?

O matador da igreja? Coisa de branco. O Estado brasileiro falido? Coisa de branco. A vida de luxo que a filha do Eduardo Cunha tem? Coisa de branco. Luciano Huck, que apoiou todos os criminosos do Rio? Coisa de branco. Mallu Magalhães? Coisa de branco. Histeria na porta do Sesc Pompéia? Coisa de branco. Ir pro samba e sair de lá dizendo que somos todos humanos porque tem até amigos pretos? Coisa de branco. Esconder a bolsa no elevador? Coisa de branco. Se alguma feminista te oferece trabalho por moradia? Coisa de branco. Se você tá sendo demitido pra ser contratado nas novas leis que fuderam a CLT? Coisa de branco. Tá fechando a empresa porque a economia não te absorve? Coisa de branco. Tá sem merenda na escola? Coisa de branco. Não tem esparadrapo na UPA? Coisa de branco.

Fazer um barco, e sair pelos continentes estuprando, roubando, pilhando, destruindo e escravizando povos que criaram as grandes ciências da humanidade, para no futuro estabelecer uma sociedade baseada no capital onde apenas 8 pessoas se deram bem na vida?

Coisa de branco.

Mas a reflexão de hoje é: Onde está o William Waack dentro de nós. Esse dissimulado. Esse educado, de boas maneiras, que espuma pelo canto da boca, ele diz que não vai falar, mas ele não se controla, ele tá rindo sozinho, ele PRECISA falar, ele tá de piru duro e cu piscando. Ele precisa pingar ódio contra o preto.

Antes de atirar pedra no cara, dá uma passada no espelho do banheiro da firma. Porque o episódio do Waack não é um sinal verde pra você linchar ele, mas pra você descobrir o quanto você tem de semelhança, e meter o loko pra mudar sua cabeça.

Eu vou trabalhar. Trabalho é coisa de preto, mala de dinheiro é coisa de branco vagabundo. Eu vou por um Jazz nos fones. Jazz, essa invenção disruptiva com instrumentos europeus, que deu outro significado a música, coisa de preto. Vou aproveitar pra ler um livro sobre alternativas de país, um livro de Abdias. Coisa de preto. Vou assistir Toddy Ivon falando sobre bitcoin, economia do futuro, ou Adriana Barbosa organizando mais uma Feira Preta, ou Lázaro encenando mais uma peça, ou Obama dando mais uma palestra lotada, ou Pablinho Fantástico fazendo o riscado no passinho, ou Marcio Black peitando o sistema político, ou Ian Black sendo o único homem preto dono de uma grande agência em São Paulo, ou Beyoncé, amor, Beyoncé sendo a artista e investidora negra mais desejada pelo mercado americano, vou sonhar em ter a eloquência de Marcus Garvey, o intelecto de Dr. King, a escrita de Ta-Nehisi, a virtuose de Robert Glasper, coisa de preto.

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Elisa Lucinda: “O mundo pede abolicionistas modernos e quer saber de que lado você está”

Coisa de branco, até quando?

por Elisa Lucinda

Escroto, consciente, ativo, legitimado, estrutural, septicêmico em todos os órgãos da nação, o racismo de William Waack não é só dele. Essa é a pior notícia. “Coisa de preto” é subtexto corrente na mente de grande parte de uma sociedade criada sob os parâmetros da Casa Grande. O diabólico plano que começou com tráfico, tortura e assassinato do povo negro e que durou quatrocentos anos, é mais nefasto e homicida do que os cinco ou seis anos do holocausto judeu e essa dor a humanidade respeita mais. Não estou dizendo que uma dor é menor do que a outra. Mas afirmo que o holocausto da escravidão negra continua até hoje e não comove nossa sociedade. Não importa, em geral, a quantidade de negros sem nome, sem sobrenome nobre que é assassinada diuturnamente nas favelas e periferias deste país. Ainda rola no imaginário brasileiro a ideia obsoleta de que “preto bom é o de alma branca”, é o sem voz, e há neste imaginário uma desvalorização da etnia negra como se houvesse para isso alguma defesa científica que apontasse no DNA de uma raça sua propensão à sub-humanidade.

O que impressiona muito no vídeo do William é sua falta de conflito com o tema, seu conforto escancarado e muito bem acomodado dentro de sua convicção. Quando a Globo que, felizmente, com muita rapidez, prontamente se posicionou repudiando e afastando o jornalista, afirma que vai pedir esclarecimentos dos fatos dá vontade de ser uma mosquinha na cabeça deste profissional para ver qual será o melhor argumento nos bastidores dessa saída. A situação é indefensável. Não falou sem querer, não estava nervoso. Repito: trata-se de uma convicção. Absolutamente consciente e levemente temeroso de que sua fala pudesse comprometê-lo, ele, textualmente, quase evita falar abertamente: “Tá buzinando por quê? Ô seu merda do cacete! Deve ser um… Não vou nem falar quem. Eu sei quem é… Você sabe quem é né?” Mas não resistiu. Saiu. Pulou da boca. Pensa assim. Concorda com o racismo. É porta voz dele. Estamos diante de um vazamento e por ele podemos supor quantas dessas atitudes não chegam a público e fazem a graça de muitos bastidores. Não seria leviano de minha parte afirmar que essa não é uma atitude isolada deste jornalista. Um detector de discriminação racial afinado talvez não tivesse dificuldade em encontrar na educação, dele e de sua família, a ideologia revelada no patético vídeo gravado em frente à Casa Branca. Ele estava nos Estados Unidos, ele falava português, ele estava em seu “camarim” e não imaginou que a máscara Waack estava sendo retirada antes do público deixar o teatro.  Sou atriz, vivo no teatro, e sei que se o público por algum motivo avista o truque, a ponta da carta escondida sob o manto do mágico, não há outra saída para o artista se não render-se à verdade. Já era. O público viu. Fodeu. É melhor admitir. Flagrantes são inegáveis. Qualquer tentativa de desqualificar a verdade flagrante é constrangedoramente impotente.

O que está em jogo aqui é como deter o escravagismo moderno, esse que foi trazido através da linguagem das escrotíssimas expressões que destroem a auto estima do povo negro a cada minuto, e que vão mantendo a obra da escravidão na cabeça de jovens brancos, de crianças brancas, em pleno 2017. A semente do mal é reproduzida em todos os lugares, inclusive nos jornalismos, inclusive nas ficções. Sou jornalista também de formação, e sei da responsabilidade pública que temos com a informação, sei do poder de influência da palavra jornalística na formação de opiniões. Diante disso numa democracia, ter um jornalista que apresenta um jornal importante numa emissora que alcança milhões de espectadores diariamente, defendendo posturas racistas, expondo-se inclusive judicialmente a um processo, aponta para uma demissão sumária deste profissional. Não vejo outra saída. Para mim é tão grave quanto um médico que não atende um paciente preto e pobre na emergência.

Para William Waack a vida do preto, o pensamento do preto, a atitude do preto, os direitos do preto são menores e tudo nele vale menos. Está entranhado em seu DNA cultural branco e dominador tal aberração intelectual. Sua ignorância é sofisticadamente tosca, uma vez que ocupa um cargo nobre na tele informação. E essa ignorância é tão sofisticada quanto perniciosa, representa um pensamento vigente que raramente tem coragem de mostrar a cara, de sair do armário. Mas é este pensamento que gera a atitude prática de fechar portas, e de provocar em nós, em nossas organizações civis e nas leis, a feliz estratégia dos sistemas de cotas.

Quando Cazuza diz que a burguesia fede é a isso que ele se refere. Há uma hipocrisia católica, disfarçada de caridosa, ornada dos aparentes bons costumes, mas que chafurda na lama tóxica de seus preconceitos e na sua luta pela preservação das senzalas, dos quartos de despejos e da persistência variada das chibatas. Presídios, quartos de empregadas, entulhos das favelas e periferias, tudo têm como modelo os porões da escravidão.

Eu teria vergonha de ensinar racismo aos meus filhos, William não tem. Eu teria vergonha de ser racista em meu local de trabalho, William não tem. Eu teria vergonha de ser racista sendo brasileira e estando trabalhando em terras estrangeiras, William não tem. De usar a minha língua contra o povo que construiu a minha nação, William não tem. E por isso representa uma vergonha para o povo brasileiro. Sua declaração bate na cara dos negros que labutam para o sucesso da história desse país e da empresa que ele trabalha; sua declaração é um acinte, um achincalhe no talento de grandes atores negros que deram e dão sua arte à teledramaturgia brasileira contribuindo para um sucesso de público que atravessa décadas. Sua declaração atinge  também em cheio a consciência de brancos a quem ele não representa, os constrange, os convoca a limpar a própria barra. Puni-lo com uma demissão me parece uma atitude equivalente ao crime. Condiz. Sua opinião provoca um grande estrago e põe o dedo numa chaga acesa. Se ele trabalha numa empresa que não apoia o racismo, o seu flagrante delito o torna naturalmente afastado da emissora.

Se a Rede Globo não quer compactuar com uma atitude discriminatória não pode ter em seus quadros quem pensa diferente disso, uma vez que tal quesito está espargido em todos os conteúdos de sua programação. Neste momento, estou fazendo a campanha da ONU chamada Vidas Negras. Os números são alarmantes, perdemos grandes exércitos de meninos que saem da escola para o crime e, entre estes, milhares são assassinados sendo inocentes, só por serem negros. E só. Por valerem menos.

Mas a tragédia só se realiza, só chega a virar sangue, a virar tiro de fuzil, só chega a matar depois de se consolidar na mente de muita gente, e muita gente que manda neste país. É este jogo que nós temos que desmontar. Quando se diz “coisa de preto” como sinônimo de inferior ou ruim, no fundo estamos produzindo um conteúdo que dará autorização para matar. William Waack não é o único a pensar assim, é isso que o vídeo veio nos revelar. É coisa de branco e aos bons brancos deve envergonhar. O assunto está bombando.  A questão racial no novo  filme de Daniela Thomas vai ser assunto nessa sexta no Pedro Bial. Não dá mais pra segurar. O mundo pede abolicionistas modernos e quer saber de que lado você está.