AOS MILITARES DO PASSADO QUE FALEM E QUE FAÇAM REVELAÇÕES, O MEU RECONHECIMENTO

Eu não exporia os militares que agora falam, mesmo os que torturaram, como monstros. Alguma dignidade eles guardam, pois ao falar expiam culpas. E quem tem culpa, tem consciência. O remorso é prerrogativa de quem guarda dentro de si sentimento. Monstruosos de fato são aqueles que se calam em seus horrores, compartilham entre si as atrocidades cometidas. Como caçadores de safaris que expõem cabeças empalhadas de bichos decapitados nas paredes de suas mansões.

Se pudessem, esses que se calam, pendurariam, como se fossem troféus de guerra, recuerdos nostágicos, as cabeças de meu irmão, minha mãe, minha cunhada e de todos os milhares de brasileiros trucidados – pois há os sabidos e os não sabidos – emolduradas em seus livings e, entre drinks, chacoalhando as pedras de gelo com os dedões, comentariam as próprias barbaridades, aos requintes, de modo espalhafatoso: “Esta cicatriz, vocês precisavam ver na hora…”.

São estes os verdadeiros monstros: os que batem no peito, se orgulham, fazem mistério sobre o paradeiro dos corpos, acordos mafiosos de silêncio eterno à la Omertá, queimam documentos, escondem vestígios.

Monstruosos são os que agora incitam pobres ignorantes dos fatos passados a saírem em marchas pedindo mais atrocidades, “queremos mais, muito mais!”.

Ignoram que, no próprio dia do Golpe, 1º de Abril de 1964, o Estádio Caio Martins de Niterói foi lotado com prisioneiros, intelectuais, artistas, estudantes, jornalistas. E os golpistas recorreram ao estádio porque já haviam lotado três navios de guerra fundeados na Baía da Guanabara, especialmente para acolher prisioneiros. Que, por sua vez, estavam cheios de gente porque os quartéis também já estavam. Estes precisaram ser usados porque as celas das delegacias também abarrotadas estavam.

E a fila diante do Dops, aqui na Rua da Relação, virava quarteirão, com pais e mães desesperados, esposas e esposos, irmãs e irmãos, parentes, advogados, amigos querendo saber dos seus, repentinamente, abruptamente, sem qualquer motivo ou razão, sabe-se lá por ordem de quem, aprisionados sem ordem, sem mandado, sem nada. De modo arbitrário.

O professor Sobral Pinto, o mais respeitado advogado do país, o ilustre jurista, até ele, foi barrado à porta do Dops por um soldadeco de chumbo naquela noite! O dr. Sobral, advogado do governador Carlos Lacerda, que teoricamente mandava no Dops!

E todos entenderam a gravidade daquele momento. E todos entenderam que os que pensavam que mandavam não mais mandavam.

E no arbítrio, no silêncio sem resposta, na ponta da baioneta, assim vivemos nos anos de escuridão. Quem mandava, não explicava. Calçava botas, não respondia, apenas prendia. E matava.

E que venham outros militares que falem, com alguma culpa, alguma nobreza. A esses militares, serei reconhecida, pois ao menos estarão mostrando algum respeito pela minha dor e a de tantas famílias que querem respostas!

Agradeço à Comissão de Anistia a produção do documentário os “Advogados contra a Ditadura”, dirigido por Silvio Tendler, que me deu subsídios e inspiração para redigir este texto.

11 ideias sobre “AOS MILITARES DO PASSADO QUE FALEM E QUE FAÇAM REVELAÇÕES, O MEU RECONHECIMENTO

  1. Por favor, Hilde, nāo se canse de repetir e insistir. Nós, que sabemos o que foram todos aqueles anos de chumbo, nāo podemos permitir que venham agora com eufemismos e distorções tentando diminiuir a culpa do regime militar, tentando culpar as vítimas, criando guerrilhas antes mesmo que elas chegassem a existir, para justificar o injustificável. Um beijo!

  2. Bem pouca utilidade as confissões deles representarão se a justiça não for feita. Crime sem castigo, minha cara, serve como incentivo para prática de crime igual no futuro. Seu irmão, Hilde, foi massacrado sem piedade porque teve coragem de combater estes pulhas. Sua mãe foi morta porque se rebelou e exigiu justiça. Ambos eram adultos e tinham condições de saber os riscos que corriam. Eu, por outro lado, tive minha casa invadida a chutes várias vezes quando era apenas uma criança de 3 anos. “Onde está aquele comunista filho da puta?” berravam os criminosos que queriam martirizar meu pai. Minha mãe e minhas irmãs pequenas, pouco mais velhas que eu, também ficaram aterrorizadas. Nenhum de nós havia feito absolutamente nada. Você pode até perdoar os criminosos que destroçaram a sua família. Eu não farei isto. Quero vê-los todos pendurados de cabeça para baixo num pau-de-arara, com as unhas arrancadas, tomando choques nas genitálias enquanto levam tapas nos ouvidos e são afogados. Não sou cristão, sou o monstro vingativo que eles criaram.

  3. Hilde, se você me permite, transcrevo as palavras de Daniel Aarão Reis

    A Ditadura Civil-Militar

    Tornou-se um lugar comum chamar o regime político existente entre 1964 e 1979 de “ditadura militar”. Trata-se de um exercício de memória, que se mantém graças a diferentes interesses, a hábitos adquiridos e à preguiça intelectual. O problema é que esta memória não contribui para a compreensão da história recente do país e da ditadura em particular.

    É inútil esconder a participação de amplos segmentos da população no golpe que instaurou a ditadura, em 1964. É como tapar o sol com a peneira.

    As marchas da Família com Deus e pela Liberdade mobilizaram dezenas de milhões de pessoas, de todas as classes sociais, contra o governo João Goulart. A primeira marcha realizou-se em São Paulo, em 19 de março de 1964, reunindo meio milhão de pessoas. Foi convocada em reação ao Comício pelas Reformas que teve lugar uma semana antes, no Rio de Janeiro, com 350 mil pessoas. Depois houve a Marcha da Vitória, para comemorar o triunfo do golpe, no Rio de Janeiro, em 2 de abril. Estiveram ali, no mínimo, a mesma quantidade de pessoas que em São Paulo. Sucederam-se marchas nas capitais dos estados e em cidades menores. Até setembro de 1964, marchou-se sem descanso. Mesmo descontada a tendência humana a aderir à Ordem, trata-se de um impressionante movimento de massas.

    Nas marchas desaguaram sentimentos disseminados, entre os quais, e principalmente, o medo, um grande medo.

    De que as gentes que marcharam tinham medo?

    Tinham medo das anunciadas reformas, que prometiam acabar com o latifúndio e os capitais estrangeiros, conceder o voto aos analfabetos e aos soldados, proteger os assalariados e os inquilinos, mudar os padrões de ensino e aprendizado, expropriar o sistema bancário, estimular a cultura nacional. Se aplicadas, as reformas revolucionariam o país. Por isto entusiasmavam tanto. Mas também metiam medo. Iriam abalar tradições, questionar hierarquias de saber e de poder. E se o país mergulhasse no caos, na negação da religião? Viria o comunismo? O Brasil viraria uma grande Cuba? O espectro do comunismo. Para muitos, a palavra era associada à miséria, à destruição da família e dos valores éticos.

    É preciso recuperar a atmosfera da época, os tempos da Guerra Fria. De um lado, os EUA e o chamado mundo livre, ocidental e cristão. De outro, a União Soviética e o mundo socialista. Não havia espaço para meios-termos. A luta do Bem contra o Mal. Para muitos, Jango era o Mal; a ditadura, se fosse o caso, um Bem.

    No Brasil, estiveram com as Marchas a maioria dos partidos, lideranças empresariais, políticas e religiosas, e entidades da sociedade civil, como a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) e a Conferência Nacional dos Bispos Brasileiros (CNBB), as direitas. A favor das reformas, uma parte ponderável de sindicatos de trabalhadores urbanos e rurais, alguns partidos, as esquerdas. Difícil dizer quem tinha a maioria. Mas é impossível não ver as multidões — civis — que apoiaram a instauração da ditadura.

    A frente que apoiou o golpe era heterogênea. Muitos que dela tomaram parte queriam apenas uma intervenção rápida, brutal, mas rápida. Lideranças civis como Carlos Lacerda, Magalhães Pinto, Adhemar de Barros, Ulysses Guimarães, Juscelino Kubitschek, entre tantos outros, aceitavam que os militares fizessem o trabalho sujo de prender e cassar. Logo depois se retomaria o jogo politico, excluídas as forças de esquerda radicais.

    Não foi isso que aconteceu. Para surpresa de muitos, os milicos vieram para ficar. E ficaram longo tempo. Assumiram um protagonismo inesperado. Houve cinco generais-presidentes. Ditadores. Eleitos indiretamente por congressos ameaçados, mas participativos. Os três poderes republicanos eram o Exército, a Marinha e a Aeronáutica. Os militares mandavam e desmandavam. Ocupavam postos no aparelho de segurança, nas empresas estatais e privadas. Choviam as verbas. Os soldos em alta e toda a sorte de mordomias e créditos. Nunca fora tão fácil “sacrificar-se pela Pátria”.

    E os civis? O que fizeram? Apenas se encolheram? Reprimidos?

    A resposta é positiva para os que se opuseram. Também aqui houve diferenças. Mas todos os oposicionistas — moderados ou radicais — sofreram o peso da repressão.

    Entretanto, expressivos segmentos apoiaram a ditadura. Houve, é claro, ziguezagues, metamorfoses, ambivalências. Gente que apoiou do início ao fim. Outros aplaudiram a vitória e depois migraram para as oposições. Houve os que vaiaram ou aplaudiram, segundo as circunstâncias. A favor e contra. Sem falar nos que não eram contra nem a favor — muito pelo contrário.

    Na história da ditadura, como sempre, a coisa não foi linear, sucedendo-se conjunturas mais e menos favoráveis. Houve um momento de apoio forte — entre 1969 e 1974. Paradoxalmente, os chamados anos de chumbo. Porque foram também, e ao mesmo tempo, anos de ouro para não poucos. O Brasil festejou então a conquista do tricampeonato mundial, em 1970, e os 150 anos de Independência. Quem se importava que as comemorações fossem regidas pela ditadura? É elucidativa a trajetória da Aliança Renovadora Nacional — a Arena, partido criado em 1965 para apoiar o regime. As lideranças civis aí presentes atestam a articulação dos civis no apoio à ditadura. Era “o maior partido do Ocidente”, um grande partido. Enquanto existiu, ganhou quase todas as eleições.

    Também seria interessante pesquisar as grandes empresas estatais e privadas, os ministérios, as comissões e os conselhos de assessoramento, os cursos de pós-graduação, as universidades, as academias científicas e literárias, os meios de comunicação, a diplomacia, os tribunais. Estiveram ali, colaborando, eminentes personalidades, homens de Bem, alguns seriam mesmo tentados a dizer que estavam acima do Bem e do Mal.

    Sem falar no mais triste: enquanto a tortura comia solta nas cadeias, como produto de uma política de Estado, o general Médici era ovacionado nos estádios.

    Na segunda metade dos anos 1970, cresceu o movimento pela restauração do regime democrático. Em 1979, os Atos Institucionais foram, afinal, revogados. Deu-se início a um processo de transição democrática, que durou até 1988, quando uma nova Constituição foi aprovada por representantes eleitos. Entre 1979 e 1988, ainda não havia uma democracia constituída, mas já não existia uma ditadura.

    Entretanto, a obsessão em caracterizar a ditadura como apenas militar levou, e leva até hoje, a marcar o ano de 1985 como o do fim da ditadura, porque ali se encerrou o mandato do último general-presidente. A ironia é que ele foi sucedido por um politico — José Sarney — que desde o início apoiou o regime, tornando-se ao longo do tempo um de seus principais dirigentes…civis.

    Estender a ditadura até 1985 não seria uma incongruência? O adjetivo “militar” o requer.

    Ora, desde 1979 o estado de exceção, que existe enquanto os governantes podem editar ou revogar as leis pelo exercício arbitrário de sua vontade, estava encerrado. E não foi preciso esperar 1985 para que não mais existissem presos políticos. Por outro lado, o Poder Judiciário recuperara a autonomia. Desde o início dos anos 1980, passou a haver pluralismo politico-partidário e sindical. Liberdade de expressão e de imprensa. Grandes movimentos puderam ocorrer livremente, como a Campanha das Diretas Já, mobilizando milhões de pessoas entre 1983-1984. Como sustentar que tudo isto acontecia no contexto de uma ditadura? Um equívoco?

    Não, não se trata de esclarecer um equívoco. Mas de desvendar uma interessada memória e suas bases de sustentação.

    São interessados na memória atual as lideranças e entidades civis que apoiaram a ditadura. Se ela foi “apenas” militar, todas elas passam para o campo das oposições. Desde sempre. Desaparecem os civis que se beneficiaram do regime ditatorial. Os que financiaram a máquina repressiva. Os que celebraram os atos de exceção. O mesmo se pode dizer dos segmentos sociais que, em algum momento, apoiaram a ditadura. E dos que defendem a ideia não demonstrada, mas assumida como verdade, de que a maioria das pessoas sempre fora — e foi — contra a ditadura.

    Por essas razões é injusto dizer — outro lugar comum — que o povo não tem memória. Ao contrário, a história atual está saturada de memória. Seletiva e conveniente, como toda memória. No exercício desta absolve-se a sociedade de qualquer tipo de participação nesse triste — e sinistro — processo. Apagam-se as pontes existentes entre a ditadura e os passados próximo e distante, assim como os desdobramentos dela na atual democracia, emblematicamente traduzidos na decisão do Supremo Tribunal Federal em 2010, impedindo a revisão da Lei da Anistia. Varridos para debaixo do tapete os fundamentos sociais e históricos da construção da ditadura.

    Enquanto tudo isso prevalecer, a História será uma simples refém da memória, e serão escassas as possibilidades de compreensão das complexas relações entre sociedade e ditadura.

    DANIEL AARÃO REIS é professor de História Contemporânea da UFF

  4. Hildegard, parabéns pela sua lucidez e coragem. Minha mãe – Therezinha Zerbini, presa politica em 1970 – chegou a conhecer sua mãe, grande éxemplo de mulher. Meu pai foi um dos quatro generais que disseram “não” ao golpe de 64. Meu pai foi preso, reformado e teve seu direitos políticos cassados. Ficou 25 dias incomunicável no Forte de Copacabama (embora morássemos em SP). Sua dor foi muito maior, uma vez que perdeu mãe e irmão.
    Fiquei comovida com seu texto publicado em fevereiro, explicando aos jovens de hoje o que é viver em uma ditadura. Nessa véspera de comemorações, sou assombrada por lembranças muito tristes.Mas lê-la, naquele dia em fevereiro e ontem, trouxe luz para mim. Que você a mantenha. Deixo aqui meu beijo e meu respeito, Eugenia Zerbini

  5. Espero que logo essas tão esperadas respostas possam ecoar pelos quatro cantos, amenizando assim a dor dos parentes e amigos dos torturados e mortos.

  6. Não é possível deixar de associar esta atual prisão injusta de Zé Dirceu com as prisões dos jovens, entre eles Dirceu e teu irmão, Stuart Angel, na época da Ditadura. Relamente, este juiz, o ministro Joaquim Barbosa, cometeu uma grande injustiça com quem tanto lutou por democracia. Acredito que é urgente a necessidade de uma grande campanha popular pela libertação de Dirceu e pela anulação deste julgamento de exceção, típico da época da ditadura.

  7. Zé Dirceu preso, mais uma vez, por motivos políticos, seria o mesmo que terem prendido Nelson Mandela novamente após o fim do Apartheid, por ele continuar lutando pelos mesmos ideais democráticos de antes. É inaceitável !!!

  8. Uma das maiores incoerencias dos milicos, é baterem no peito, dizerem ter orgulho de fazer o que fizeram, mas se negam a falar do assunto.

    Bom, eu tenho orgulho de falar sobre aquilo que eu tenho orgulho de ter feito. E vcs?Alguém entende isso?

  9. Alex, a maior incoerência é o ignóbil Paulo Manhães Cara de Saddan, um réu confesso que vem a público, dizer que participou da tortura e que matou (assumido) um número incalculável de pessoas, o que fez perder as contas, e ninguém lhe dá uma ordem de prisão na hora. É de ficar com a boca aberta. Surreal!!!

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