Imortal Arnaldo Niskier dá a partida no Projeto 80 Anos, com lançamento de Exposição e Fotobiografia na ABL

O professor, jornalista e escritor, membro imortal da Academia Brasileira de Letras, Arnaldo Niskier, chega aos 80 anos com uma rica história pessoal e profissional a compartilhar. Seu Projeto 80 anos foi deslanchado esta semana no mais nobre dos espaços, a própria Casa de Machado de Assis, com o lançamento da edição de sua fotobiografia e uma exposição com as fotos ampliadas.

Além disso, os convidados presentes participaram do coquetel de comemoração do aniversário com direito a bolo e happy birthday. Foi um trabalho de pesquisa de dois anos, para reunir os registros fotográficos das muitas décadas em que Niskier tem pontificado na vida intelectual brasileira, quer como jornalista da Manchete, quer como colaborador de vários outros veículos e organizações, quer como escritor com inúmeras publicações, como professor, como gestor público, ocupando secretarias de governo (foi o primeiro Secretário de Ciência e Tecnologia do Estado do Rio de Janeiro), presidindo fundações e inúmeras outras atribuições. Para isso, contou com a assistência da pesquisadora Manoela Ferrari.

Com expressão nacional, Arnaldo mereceu em seu evento a presença de intelectuais de vários estados brasileiros. E os que não puderam vir ao Rio de Janeiro tiveram o cuidado de se manifestar. Como foi o caso do ilustrador Maurício de Souza, que, na madrugada que se seguiu à comemoração, postou em seu microblog no Twitter:

Mando um abraço ao “imortal ” Arnaldo Niskier, da Academia Brasileira de Letras. velho amigo, pelo 80 anos que viveu e nos deu.

Parabéns, Arnaldo! Todas as homenagens pelos seus 80 bem vividos, grande parte deles ao lado da grande parceira Ruth, serão sempre poucas, bem aquém de seu merecimento!

Niskier. ARNALDO NISKIER .Arnaldo Niskier diante da exposição fotográfica com momentos de sua carreira jornalística. Ao fundo, entrevistando Garrincha.

Niskier RUTH NISKIER. SALOMAO SCHWARTZMAN ARNALDO NISKIER ANNA SCHARTZMAN

Ruth e Arnaldo Niskier com Salomão e Anna Schwartzman

Niskier ROSA E RUY BARRETO

Rosa Maria e Ruy Barreto

Niskier ROBERTO STERN ARNALDO NISKIER RUTH STERN

Arnaldo Niskier entre Roberto Stern e sua mãe, Ruth Stern

Niskier. MARLENE RODRIGUES GLAUCIA ZACHARIAS. RUTH NISKIER ALDA SOARES

Marlene Rodrigues dos Santos, Glaucia Zacharias, Ruth Niskier e Alda Soares

Niskier LUIZ CARLOS BARRETO E LUCY BARRETO Luiz Carlos e Lucy Barreto

Niskier LUIS SEVERIANO RIBEIRO

Luís Severiano Ribeiro e Maria da Gloria Antici

Niskier  ISIO GHELMAN ANDREIA. FERNANDA E DORA NISKIER

O ator Isio Ghelman (que viveu meu pai no cinema), Andreia, Fernanda e Dora Niskier

Niskier RUTH NISKIER ALOYSIO TEIXEIRA JOANA TEIXEIRA

Ruth com Aloysio e Joana Maria Teixeira

Niskier RUTH NISKIER PRES. ABL GERALDO HOLANDA CAVALCANTI ARNALDO NISKIER

Os Niskier com o presidente da Academia Brasileira de Letras, Geraldo Holanda Cavalcanti

Niskier PAULO ESPIRITO SANTO. LEISE ESPIRITO SANTO ARNALDO NISKIER

Desempargador Paulo e Leise Espírito Santo com Arnaldo 80

Niskier. MANOELA FERRARI EDUARDO COLOMBO MARIA LUISA LIMA

Manoela Ferrari, seu filho, Eduardo Colombo, e Maria Luiza Lima. Ao fundo, Frederika Bastian Pinto.

niskier. EXPOSICAO THEOPHILO AZEREDO ZUZU ANGEL HILDE ARNALDO NISKIER

1970 – Arnaldo (à direita) com Theophilo de Azeredo Santos, então presidente da Federação Brasileira de Bancos, com minha mãe Zuzu Angel ao centro, no programa de entrevistas da TV Rio apresentado por mim (em pé)

Niskier CELSO NISKIER E ANDREA NISKIER

Professor Celso e Andrea Niskier

Niskier. BRUNA. ANDREA NISKIER. DORA. E RAQUEL NISKIER

Bruna, Andrea, Dora e Raquel Niskier

Niskier ARNALDO NISKIER. RUTH NISKIER

Arnaldo, Ruth e o bolo dos 80, na primeira das muitas comemorações que hão de vir pela data

Niskier BERNARDO CABRAL ARNALDO NISKIER

O senador Bernando Cabral e o imortal Arnaldo Niskier

Niskier. BIA RIQUE BEBEL NIEMEYER MANOELA FERRARI .

Bia Rique, Bebel Niemeyer e Manoela Ferrari

Niskier A. EXPOSICAO (2)

Com Zagalo

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Os jovens Ruth e Arnaldo com JK

niskier HEITOR E LILIAN GURGULINO RUTH E ARNALDO NISKIER

Heitor Gurgulino, Lilian, Ruth, Arnaldo

niskier GILBERTO RODRGUEZ ALOYSIO TEIXEIRA LUIS TENORIO JOANA TEIXEIRA CI NTIA VENTURA

Gilberto Rodriguez, Aloysio Teixeira, Luiz Tenório, Joana Teixeira, Cintia Tenório

Niskier CAROL MURTA RIBEIRO

Carol e Desembargador Murta Ribeiro

Fotos de Armando Araujo

Barbie Birthday da Carmen: tarde Barbie, Barbie Talk, Barbie Cake e até caixinhas de remédios da Barbie…

Todo aniversário de Carmen Mayrink Veiga é aquela disputa das amigas pelo privilégio de homenageá-la. Vence aquela que primeiro agenda com Carmen o almoço do 24 de abril.

Este ano, the winner foi… eu!!! Corri na frente e tratei de selar e sacramentar o compromisso com Carmen um mês antes da data.

O almoço foi no bistrot Formidable, aberto há pouco tempo e já um baita sucesso, necessitando de pelo menos duas semanas de reserva antecipada. O chef é o Artagon, o mesmo do Irajá, aquele restaurante que a Beth Floris inaugurou e do qual já se desfez, junto com o caçula Formidable, depois de sua bem sucedida experiência de restauratrice.

Éramos nove young ladies e um varão, o estilista Guilherme Guimarães, falando de seu último e capotante vestido de noiva, o da Astrid Monteiro de Carvalho, e dos vários próximos encomendados. Yara Andrade, com seus lindos cabelos e o sorriso ainda mais luminoso. Terezinha Pittigliani, magrinha cada dia mais. Marlene Rodrigues dos Santos com look indiano produção-dela-mesma e anel de peau d’ange enorme. A brasiliense Lilian Gurgulino, que veio passar dois meses no Rio, acompanhando Heitor em tratamento médico. Beth Serpa, com um pé em Paris. Idinha Seabra Veiga, preparando o lanche de aniversário da Glória Severiano Ribeiro, com missa de padre Jorjão. Gisella Amaral, toda verde, com colar de argolas de jade presenteado pela sua hóspede recente Elsa Martinelli. Gisella foi a última a chegar e a primeira a partir, rumo a mais uma boa ação. Todas levaram presentes. Beth Winston, ausente, fez-se representar por um arranjo de flores exuberante, que alegrou a mesa. Houve brindes, muitos brindes. A cozinha do bistrot, com o menu escrito a giz no quadro negro, foi aprovada. A gentileza do maître e dos garçons foi um item importante da tarde, em que o ponto mais alto foi a própria Carmen. Todos ficamos tão contentes de ver a Carmen de sempre, falante, entusiasmada, espirituosa, bonita e com todo gás.

Elas se despediram e dispersaram rapidamente, em seus carros ou a pé, na tarde que já anoitecia. Guilherme seguiu caminhando rumo à Ataulfo de Paiva e eu o confisquei com o meu carro, para prosseguirmos no bate papo mais um pouquinho, até Ipanema, onde o deixei na Casa Alberto.

Chegando em casa, Carmen encontrou a esperá-la um Barbie Cake. Ah, todas merecemos ter, pelo menos uma vez por ano, uma tarde Barbie, com Barbie Talk, Barbie Cake e até caixinhas de remédios da Barbie…

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Marlene Rodrigues dos Santos, look indiano com produção dela mesma, Beth, Lilian e a aniversariante Primeira e Única

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Terezinha Pittigliani, Idinha Seabra Veiga e as flores de Beth Winston

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Marlene Rodrigues dos Santos

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Guilherme Guimarães e Yara Andrade, belos, chiques e em ótima forma

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Carmen Mayrink Veiga e Gisella Amaral, grandes amigas (foi Gisella quem me conseguiu a impossível reserva de mesa para 10, pois o restô só aceita reserva para quatro)

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Beth, Lilian, Marlene e a entradinha de Charcuterie

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Terezinha e Idinha

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Gisella monocromática, toda verde, até no relógio

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Os aneis de Marlene e da Carmen

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O bolo Barbie-Carmen com vestido de baile confeitado por sua dedicada funcionária Eliane

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1 – Caixinha de remédios em forma de bombom… da charmosa Gisella Amaral

2 – Caixinha de remédios plástica compartimentada por dia da semana… do prático Guilherme Guimarães

3 – Caixinha de remédios de porcelana Limoges… da sofisticada Carmen Mayrink Veiga

Fotos de Hildegard Angel

Luiza Brunet: “Agora vão reconhecer que Alex Deneriaz foi o grande Embaixador da Amazônia”

Luiza Brunet, amiga de grande estima de Alex Deneriaz e companheira incomparável nas nossas inúmeras celebrações cariocas, telefonou-me no dia seguinte à publicação deste texto. Falava apressada, num ímpeto só, descrevendo cada etapa dos 12 dias de padecimento do amigo:

“Ele me telefonou de Manaus, assim que passou mal e foi para o SUS”, relatou-me Luiza ao telefone. “Depois, vieram a internação, a descoberta da bactéria no coração, o coma, a ida para São Paulo em jatinho. A bactéria se alojou no pulmão e, em seguida, no fígado, quando ele não resistiu mais”, continuava Luiza num fôlego, sem vírgula, sem ponto, emocionando-se ao lembrar que, na véspera de nosso amigo descansar, sua filha Yasmine foi vê-lo no Sirio Libanês, falando baixinho ao seu ouvido: “Abandona o sofrimento desse corpo, Alex, isso não é para você”.  E agora, Hilde, Yasmine está chorando, arrependida, acha que Alex morreu por causa dela”.

Tudo tão dramático, tão distante daquele nosso amigo alegrão, irradiando vibração boa e “energia cristal” (assim ele dizia) para  todos à sua volta, enquanto bebericava as “flütes” e degustava as “lâminas”, que era como chamava os blinis de caviar ou de salmão. “Lâminas, tragam as lâminas”, brincava, fartando-se dos blinis. Alex adorava ser identificado com tudo que considerasse sofisticação…

Vestia-se de forma extravagante, colorida, sempre com colares. O mais indígena dos europeus! Apesar do sobrenome Deneriaz inspirar Grécia, sua origem familiar era austríaca, porém era de corpo e espírito totalmente amazônicos. Altíssimo e louríssimo.

Se a Amazônia teve um embaixador, um cidadão amazonense brioso de sua origem, orgulhoso da floresta, dos costumes, da cultura indígena, da força daquela natureza, este era o Alex. Foi o autêntico, o legítimo Embaixador da Amazônia no Sudeste Maravilha.

Lembro-me, ainda nos anos 80, quando me pediu para que eu fizesse um camarote amazônico para 200 pessoas no Baile do Scala. Conversei com Chico Recarey e Verinha, que também eram seus amigos, e fizemos o camarote. Em outra ocasião, também a pedido do Alex, fiz uma Festa Amazônica na minha casa da Usina. O Black Tie de inauguração do Instituto Zuzu Angel de Moda, no Palácio da Cidade, teve como Menu do jantar “Dégustation Des Poissons De L’Amazonie”. O chef Demar “importou” de Manaus toneladas de tambaquis, pirarucus, tucunarés, peixes saborosíssimos de rio, descobertas gastronômicas que eu devo ao meu bom amigo Alex. Numa outra vez, fizemos em casa um jantar pela Preservação da Amazônia, quando Cristiane Torloni colheu assinaturas para seu manifesto preservacionista, com várias lideranças presentes, como o professor Ivo Pitanguy, a viúva Roberto Marinho, Martinho da Vila. Ah, meu Baile Pré-Carnavalesco Amazônico, na varanda do Copacabana Palace, também foi influência dele.

Era isso: Alex mobilizava amigos, arregimentava as consciências em torno das causas da Amazônia. Várias vezes convidou a todos nós para festas e passeios, subindo o Rio Negro, o Rio Amazonas, para irmos assistir à focagem noturna dos jacarés, o fenômeno da Pororoca, espetáculos no Teatro Amazonas ou os desfiles dos bois Caprichoso e Garantido. Também para saborear a maravilhosa culinária da chef Charufe Nasser na Ponta Negra.

Alex conseguia ver a beleza do Amazonas. Amava profundamente a sua terra, que ele tinha olhos para ver e gostar. Assim como os estrangeiros têm. As celebridades internacionais, a nobreza europeia, os artistas consagrados, os preservacionistas, os cientistas, que hoje se voltam para a Amazônia, o fazem depois do Alex, que há 30 anos alardeava as maravilhas de seu estado, sua floresta, seus povos indígenas.

Ao encerrar seu telefonema, já com a voz já trêmula, me disse Luiza: “Agora, depois de morto, vão dar ao Alex o mérito que sempre lhe negaram. Finalmente vão reconhecer que ele foi o grande Embaixador da Amazônia”.

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Luiza Brunet e Alex Deneriaz, em foto do jornal A Crítica, de Manaus, onde Alex mantinha sua coluna social

 

O colunismo social está de luto: morreu Alex Deneriaz

Morreu esta tarde, por volta das 15 horas, o jornalista amazonense Alex Deneriaz, colunista social entusiasmado, com grande círculo de amigos no Rio de Janeiro e que, nos últimos anos, ampliou sua área de ação também até São Paulo.

Festeiro por força de sua atividade e do temperamento, Alex era sinônimo de trepidação, onde quer que chegasse, estivesse ou planejasse ir. Estava permanentemente informado sobre a agenda dos badalos e baladas nacionais e, até, internacionais. Festejar era seu estado de ser e viver. Seu paraíso era o Rio de Janeiro. Celebrava “os belos e as belas” da cidade. Sentia-se pessoalmente ofendido quando alguma crítica era feita ao Rio. Enaltecia as belezas da cidade, de sua natureza, da arquitetura, das paisagens em geral e dos corpos, que se bronzeavam em nossas praias ou saracoteavam nas raves.

Estava em todas. Quando chegava por aqui, já vinha perguntando pelas “flütes” e sabia de tudo mais do que qualquer carioca: os termos do momento, os lugares da vez, os novos modismos.

Em sua última vinda, abrimos um champagne no Marimbás para celebrar antecipadamente a festa que daríamos juntos lá, comemorando suas mais de três décadas de colunismo social.

Propus que fizéssemos a festa ao cair da tarde, abrindo os trabalhos ali na Vila dos Pescadores, na praia, de cara para o mar de Copacabana, com os barquinhos dos pescadores cheios de flores, gelo e garrafas de champã, e o pessoal brindando na areia, entrando em seguida no Clube dos Marimbás para dançar no salão de festas, diante daquele vistão, enquanto o sol se pusesse. Ah, o Alex adorou a ideia. Topou no ato!

Foram duas semanas de hospitalização, entre o Samaritano de Manaus e o Sírio Libanês em São Paulo, até esta tarde, quando o estado geral de Alex não resistiu mais à bactéria alojada em seu coração.

Deneriaz teve a melhor assistência médica possível, graças às amigas Cristina Calderaro e Sandra Braga, sempre acompanhado pelas irmãs, Jane e Ana.

Os amigos, que são tantos, se mantiveram em oração, preocupados, presentes. Era um homem muito estimado.

Descansou do sofrimento. Sofrer não era a sua viagem.

E que São Pedro prepare as flütes.

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 Um dos muitos momentos de alegria com Alex Deneriaz: grito de carnaval amazônico, que fizemos, no sunset da varanda do Copacabana Palace, num domingo pré-Momo.

Olhinhos como gotas de mar, Lourdes Lemos de Moraes deixou a lição: “Quem dança também espanta seus males”

Lourdes vivia num mundo de encantamento. Amava apaixonadamente seu marido bonito, de queixo quadrado e furado, e gostava de contar de palácios e príncipes, princesas e, até, rainhas. Tapetes vermelhos, reverências, tiaras, banquetes.

Abria seus olhinhos azul água, que tilintavam como duas gotas de mar clarinho em dia de sol intenso, e contava aquelas histórias com a excitação de uma menina do interior retornando de um baile de debutantes.

E tudo era verdade, sim. Ela tinha, sim, um marido extraordinário, e havia sido escoltada por rainhas e reis, de fato.

Adulada, festejada, ciceroneada pelos faustosos salões europeus e, até, os orientais, nas muitas idas e vindas de negócios com o marido, um dos maiores industriais do Brasil, Wilson Lemos de Moraes.

Ele havia criado e feito expandir o grupo Supergasbrás, além de possuir quilométricas fazendas de gado em Minas Gerais, São Paulo, no Pantanal, indo até a Amazônia, e serem os maiores revendedores da Scania no país. Uma imensidão de negócios.

Lourdes, no pra lá e pra cá dos business, sempre viajando com o marido, pelo Brasil, de fazenda em fazenda, e também pelo mundo.

Afeiçoados à terra, foi no interior que eles escolheram criar os três filhos, Wilsinho, Marisbela e João Flávio, na liberdade que só a natureza pode proporcionar e com os bons valores da simplicidade e das amizades legítimas das cidades pequenas.

Assim, com esse distanciamento geográfico, os Lemos de Moraes se acostumaram a ver o universo cosmopolita das grandes capitais e do alto mundo através das letras do colunismo social da época, das fotos das revistas Manchete e do monitor da TV.

Antes de serem atores protagonistas de nossa alta sociedade, foram também seus entusiasmados espectadores.

Trazendo esse olhar de admiração pelo alto mundo, seus personagens e as celebridades, eles vieram para o Rio de Janeiro, onde se instalaram no mais prestigioso endereço da época, o Edifício Golden Gate, na Avenida Atlântica, tendo entre seus moradores o ex-presidente Juscelino Kubitscheck e dona Sarah, aparentada de Wilson, além de outros sobrenomes que contavam a história social brasileira, como Alckmin, Chateaubriand e Pessoa de Queiroz.

No prédio ao lado, o Golden State, havia os Magalhães Pinto, os Tancredo Neves, os Pedroso, os Mendes de Souza, os Lage. Enfim, era a República de Minas Gerais instalada na Praia de Copacabana, um edifício coladinho no outro.

Um belo dia, toca o telefone em minha mesa no Globo. Do outro lado da linha, Lourdes Lemos de Moraes. Não nos conhecíamos. Eu era a “interina” da coluna da página dupla do suplemento ELA dos sábados. A colunista titular, Nina Chavs, havia se mudado para Paris e eu respondia pelo noticiário local.

Lourdes, aflita, pretendia isentar um importante banqueiro, casado, morador do prédio ao lado, das fofocas iminentes de um romance dele com a Miss Brasil, Eliane Thompson: “Não é ele quem namora a Miss, é meu filho, João Flávio. É que os dois têm carros parecidos”, ela explicava.

Admirei a preocupação daquela senhora de preservar o vizinho, evitando uma possível injustiça. Daí nasceu uma amizade, que se manteve até poucos dias atrás, quando uma hepatite medicamentosa levou-nos Maria de Lourdes Lemos de Moraes.

Acompanhei vários momentos, etapas e facetas de sua vida. Quando íamos para alguns dias em sua fazenda em Campinas, meu filho recém-nascido, ficávamos numa sombrinha da piscina conversando, falando, falando, falando e chupando tangerina poncã. Eram balaios e mais balaios de tangerina. Ela achava que era a melhor poncã do mundo, e eu concordava 100%. Até hoje não encontrei poncã igual.

Voltávamos para embarcar para o Rio, cedinho no aeroporto, quase madrugada, carregadas de poncãs e mais todos os isopores, engradados, embrulhos, cestos e iglus da Lourdes, com ovos, carnes, jabuticabas, queijos e mais tudo de bom que a fazenda produz.

A cada vez, ela trazia a mesma carga para os filhos, para os netos, para os amigos, para toda a prole, que sempre soube prover e cuidar. Era uma provedora de todos, todo o tempo. Com que satisfação fazia isso!

Nos tornamos compadres. Wilson era padrinho de meu único filho, Lourdes assim se considerava madrinha. E como tal agia. Ela foi presente durante toda a infância e a adolescência de meu filho, atenciosa, preocupada. Uma amiga de fato.

Quando Wilson ficou doente, foi nosso também o seu sofrimento, multiplicado pela nossa impotência de ação.

O primeiro a diagnosticar a doença de meu compadre foi o grande clínico, dr. Aloysio Salles. Estávamos em mesa redonda numa festa da Glorinha Pires Rebello. Odaléa Brando comentou: “Dr. Aloysio, o Wilson está tão quieto, ele está bem?”. Ele: “Não, não está. Lourdes, leve Wilson em meu consultório”. Lá, foi diagnosticado o início de um processo de Parkinson.

Determinada a curar o marido, Lourdes peregrinou de grande especialista em grande especialista, de sabichões locais a internacionais, que lhe prometiam milagres, curas salvadoras, pesquisas científicas de ponta.

Diagnósticos contraditórios de grandes medalhões, sempre prescrevendo novas medicações. Wilson servindo de cobaia a toda aquela química, e nada funcionava. Uma fortuna era despendida na busca da saúde perdida. Paradoxalmente, Wilson se mantinha fisicamente bem, um touro forte, corado. Porém, cada vez com menor lucidez, não falava mais, não reconhecia as pessoas.

Por fim, o diagnóstico final: o mal de que ele sofria era mesmo o Parkinson interno (dr. Aloysio estava certo!). Seu grande problema se tornara a intoxicação pela ingestão excessiva de drogas (remédios) por longo tempo, que atingiram seu cérebro, gerando sequelas irreversíveis.

O empresário poderoso foi vítima das promessas vãs de médicos inescrupulosos.

Se não fosse tão rico, quem sabe tivesse conseguido se tratar do Mal de Parkinson interno como qualquer comum mortal?

Foram 30 anos de buscas, expectativa, sofrimento. Trinta anos de morte em vida para Wilson e a doce Lourdes.

Com a presença em casa de um marido ausente, Lourdes buscou fuga na dança. Em vez de chorar, embriagava-se dando piruetas. Tinha como lema “quem canta e dança seus males espanta”, e dançava o mais que podia. Bastava o som de uma canção que Lourdes saía rodopiando sua leveza graciosa e sorridente. Tornou-se um exemplo e referência de alegria, apesar de toda a carga de sofrimento que suportava em seu cotidiano. E não era pouca.

Ela morreu aos 89 anos, completados no último 6 de março, cercada dos filhos e netos, dançando ao som de “Moda Sertaneja”, na fazenda que amava, em Campinas.

Estará sempre dançando, quando nos lembrarmos dela.

Para os que sentiam ternura, carinho, pela Lourdes, ela era, é e sempre será a nossa frágil Lourdinha, mergulhada em suas gotas azuis.

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Lourdes Lemos de Moraes acostumou-se a usar chapéu para se proteger do sol na fazenda. Tinha a pele frágil, com sardas. Com o tempo, ampliou esse costume. Era comum vê-la com seus chapeuzinhos de palha, de tecido ou de crochê, mesmo à noite. Virou sua marca registrada. O que lhe dava um ar sempre brejeiro, quase infantil.

Foto de Sebastião Marinho especial para este blog

Aniversário de um príncipe de verdade, numa fazenda de conto de fadas…

Catito Peres, o empresário Omar Resende Peres, é amigo de infância do príncipe Francisco de Orléans e Bragança. Catito é dono de uma fazenda com histórias que remontam aos tempos imperiais, brasão na entrada, retratos dos antigos proprietários com títulos de nobreza, relatos de passagem por lá do imperador. É a Fazenda Guaritá. O príncipe Francisco, assim como todos os seus irmãos, costumavam brincar naquela fazenda quando eram crianças e moravam por aquelas bandas, em Vassouras. Então, vejam a ideia boa que teve o Catito: convidar a família toda de Francisco para, juntos, comemorarem os 60 anos dele na Fazenda Guaritá, com quartos para todos, apesar dos incontáveis irmãos, dos múltiplos filhos, do mundão de netos. Sem esquecer as babás. Mas não é só o casarão do Catito que é grande, o coração é imenso e a generosidade, ainda maior.

Assim sendo, para tornar a celebração inesquecível, o anfitrião quis o melhor do melhor. The best of the best. Contratou o chef francês Laurent Suaudeau para preparar o jantar, tendo como referência o livro “Os banquetes do imperador”, que reúne a coleção de menus de dom Pedro II, guardada na Biblioteca Nacional. Inclusive o cardápio do Baile da Ilha Fiscal. Catito e Laurent escolheram o mesmo jantar servido ao imperador há 150 anos na cidade mineira de Leopoldina, berço da família Resende Peres.

Para a sobremesa, Omar “Catito” contratou os serviços do chef Dominique Guerin, que é seu sócio na boulangerie carioca Guerin.

E tudo foi descontração, brincadeiras, alegria e sabor de infância, cortesia, cordialidade, entre amigos de fato e grandes cavalheiros de verdade.

A. FRANCISCO EUDES E OMAR PERES FERNANDO PEDRO ORLEANS E BRAGANCA

 Omar Resende Peres entre os irmãos príncipes Orléans e Bragança: dom Francisco, dom Eudes, dom Fernando e dom Pedro

A. ELEONORA ORLEANS E BRAGANCA

 Dona Eleonora de Orléans e Bragança de Ligne exibe o livro com os cardápios dos banquetes da Família Imperial Brasileira, que inspirou o jantar

A. EUDES FRANCISCO MERCEDES ORLEANS E BRAGANCA

 Dom Eudes e Dom Francisco com Mercedes de Orléans e Bragança

A. FATIMA E PEDRO ORLEANS E BRAGANCA

Fátima e dom Pedro de Orléans e Bragança

A. DANIELA SEADE ANTONIO PAULO SEABRA DA VEIGA

 

Daniela Seade e Antonio Paulo Seabra Veiga

A. LENISE FIGUEIREDO OMAR RESENDE PERES ELEONORA ORLEANS BRAGANCA (1)

 

Lenise Figueiredo, Omar Resende Peres e princesa Eleonora de Ligne

A. CHEF. DOMINIQUE GUERIN CHEF. DE CUISINE LAURENT SUAUDEAU

 

Os chefs Dominique Guerin e Laurent Suaudeau, o preferido de Lily Marinho em seus jantares no Cosme Velho

A. MARIA ELISABETH ORLEANS E BRAGANCA PABLO TRINDADE

 

Maria Elisabeth de Orléans e Bragança e Pablo Trindade

A. DIOGO LO FIEGO MARIA EDUARDA RESENDE PERES

 

Diogo Lo Fiego e Maria Eduarda Resende Peres

A. FERNANDA PIGNITARI SIMONE RORIZ ANNE MARIE LOPES DA CUNHA

 

Fernanda Pignatari, Simone Roriz e Anne Marie Lopes da Cunha

A. GRACA E FERNANDO ORLEANS E BRAGANCA

 

Graça e Fernando Orléans e Bragança

A. MARIA TEREZA MARIA ELISABETH ANIVERSARIANTE FRANCISCO ORLEANS BRAGANCA VALESKA SILVEIRA

 

Dom Francisco de Orléans e Bragança com as filhas, Maria Tereza e Maria Elisabeth, e Valeska Silveira

A. MARITZA E ALBERTO DE ORLEANS E BRAGANCA

 

Maritza e Alberto de Orléans e Bragança

A. MIRIAN CINTRA GODINHO JACQUELINE PERES

Mirian Cintra Godinho e Jacqueline Peres

A. ELEONORA ORLEANS E BRAGANCA MICKEU DE LIGNE

 

Príncipes Francisco de Orléans e Bragança, Eleonora e Michel de Ligne

A. ANNE MARIE PAULO HENRIQUE LOPES DA CUNHA

 

Anne Marie e Paulo Henrique Lopes da Cunha

A. MARIA TEREZA ORLEANS E BRAGANCA MARCOS PILLI

 

Maria Tereza de Orléans e Bragança e Marcos Pilli

A. ANIVERSARIANTE FRANCISCO ORLEANS BRAGANCA OMAR RESENDE PERES

 O anfitrião, Catito, com o aniversariante, Francisco, e suas filhas, diante do bolo com a coroa imperial

A. MARCELO PERES FRANCISCO ORLEANS E BRAGANCA

 Marcelo Peres e  príncipe Francisco de Orléans e Bragança

Fotos de Armando Araujo

 

Réquiem para Maria Cláudia Bonfim

Morreu hoje a jornalista Maria Claudia Mesquita e Bonfim. Foi colunista Social do Diário de Notícias, Colunista de Moda, assessora de imprensa no Governo Wellington Moreira Franco, assessora da Academia Brasileira de Letras. Mulher de grande classe, elegante, culta, uma aliada da moda brasileira, que ela muito apoiou, juntamente à então primeira-dama do Rio de Janeiro, Celina Moreira Franco, por ocasião do movimento Moda Rio. Tinha um grande círculo de amizades em vários ambientes: cultura, jornalismo e a chamada alta sociedade. Uma pessoa, ela sim, altamente estimada. Rest In Peace, querida Maria Cláudia.

Cesgranrio lança série Anos Radicais com reflexão sobre universo jovem

Com a presença do presidente da Fundação Cesgranrio, professor Carlos Alberto Serpa, foi lançada no Artflex Botafogo a série para a televisão “Anos Radicais”, produzida pelo Núcleo Audiovisual do Centro Cultural da  Cesgranrio, com direção de Alexandre Machafer, autoria de Décio Coimbra, produção de Marisa Monteiro e assistência de direção de Ricardo Soares.
Destinada ao público adolescente e exibida em quatro capítulos, a série aborda o decisivo rito de passagem que o estudante enfrenta na escolha de uma profissão e trata de modo realista temas como família, escola, amigos e a descoberta do amor, sob as perspectivas de jovens de diferentes contextos sociais.
O elenco foi escolhido entre os alunos das oficinas de atores da fundação Cesgranrio.
Serpa saudou os convidados apresentando o projeto, concretização de um antigo sonho:

– Há anos pensávamos em desenvolver um filme ou uma série para estimular a reflexão sobre novos caminhos no processo de formar e educar as jovens gerações. Hoje, é um orgulho estar aqui para assistir a “Anos Radicais”, que não é o fim deste trabalho, mas sim o início de uma atividade para a Fundação.

Agora, a próxima etapa: negociar a exibição de Anos Radicais com os canais de TV.

No elenco, nomes que todos haveremos de ouvir falar muito, e esperamos que em pouco tempo: Hugo Carvalho (Mateus), Gustavo Tavares (Cristiano), Eli Ferreira (Bruna), Cynthia Senek (Fernanda), Christian Villegas (Diego), Ingrid Conte (Laís), Fernanda Martinez (Darlene), Ana Carolina Rainha (Vânia), Ronaldo Gontijo (Roberto), Val Perré (Cláudio).  Palmas para eles!
Fernanda MartinezFernanda Martinez
Isa Kristin Isa Krisitin
Eli Ferreira Eli Ferreira
1° oficina de atores da Fundação Cesgranrio
Serpa e os artistas que cursaram a Oficina de Atores da Fundação Cesgranrio
Etiene Mascarenhas Etiene Mascarenhas
Alexabdre Machafer, Arnaldo Niskier, Carlos Serpa e José DiasAlexandre Machafer, Arnaldo Niskier, Carlos Alberto Serpa e José Dias
Carolina Simões e  Monique CuriCarolina Simões e Monique Curi
Alexandre Machafer, Carlos Serpa e o autor do filme Decio CoimbraAlexandre, Serpa e o autor, Décio Coimbra
Decio Coimbra, Cynthia Senek e Alexandre MachaferDécio Coimbra, Cynthia Senek e Alexandre Machafer
Ana Carolina RainhaAna Carolina Rainha
Paula Almeida, Beth Serpa e Marisa GomesPaula Almeida, Beth Serpa e Marisa Gomes
Tatiane Albernaz e Jessica ObaiaTatiane Albernaz e Jéssica Obaia
Hugo CarvalhoHugo Carvalho
Ricardo Soares , Daniela Carneiro. e Ronaldo GontijoRicardo Soares, Daniela Carneiro e Ronaldo Gontijo
Gustavo TavaresGustavo Tavares
Fotos Marcelo Borgongino

Com aval de Clarice, Drummond, Bárbara, Secchin, eu lhes apresento o novo acadêmico carioca: Sérgio Fonta

O auditório do último andar do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro fervilhava, já praticamente lotado 20 minutos antes da hora marcada para a solenidade. Subi no elevador com dois imortais, Antonio Carlos Secchin e o bom amigo Murilo Mello Filho, ainda mais elegante e mais magro, de paletó pérola ajustado. Era a posse do escritor ator Sérgio Fonta na Academia Carioca de Letras, sucedendo à vaga do escritor astrônomo Ronaldo Mourão.

Imortais de academias várias em todas as direções. Eu tinha sentado à minha direita o Arnaldo Niskier, da ABL, e à esquerda o Mello Filho, que contabiliza cinco colares acadêmicos. Com sua postura ereta, coluna sempre rija, Murilo tem vigor físico e intelectual para portar quantos colares acadêmicos lhe destinem.

Piñon, Domício, Torres, Sandroni, Camila Amado, Ana Callado, José Dias, Mendonça Telles, Tanussi Cardoso, o ir e vir, o chegar e o procurar lugar de personalidades da vida cultural brasileira é grande. Não havendo mais cadeira na plateia, elas se acomodam nas reservadas aos imortais da casa. Afinal, todos pertencem a alguma academia, mesmo que não à Carioca de Letras, cujo presidente, Ricardo Cravo Albin, está atrasado.

A dramaturga Miriam Halfin, membro da Academia Carioca de Letras, toma a iniciativa de abrir os trabalhos. E assim compõe-se a mesa com enorme prestígio: o presidente da Academia Brasileira de Letras, Geraldo Holanda Cavacanti, o presidente do PEN Clube do Brasil, Cláudio Aguiar, e o presidente do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, anfitrião de todos, Arno Wheling.

O acadêmico Antonio Carlos Secchin faz a saudação ao novo membro. Traça o perfil do jovem talentoso e persistente, que teve em Clarice Lispector a primeira a estimular sua produção literária. Depois veio, imaginem, Carlos Drummond de Andrade. E ainda houve a passagem memorável com Rubem Braga, sabiá que não dava um pio, mas que, com Sérgio, além de piar numa entrevista, presenteou com vários livros de sua Editora Sabiá. Conta Secchin de outros exigentes admiradores da obra de Fonta, como a já saudosa Bárbara Heliodora.

Uma fala leve, colorida, cumprindo amplamente seu propósito, com o brilhantismo próprio do mestre, e que o presidente Albin, da Academia Carioca, chega a tempo de ouvir e aplaudir, justificando seu atraso com o trânsito impraticável do nosso Centro da cidade.

Noite esplendorosa. Cadeiras extras. Silêncio. Mesmo os de pé, no corredor, não se movem, magnetizados, enquanto o novo acadêmico Sérgio Fonta faz seu discurso.

“Não foi um discurso, foi uma poesia”, definiu depois Rejane, mulher do Domício Proença.

Tentei destacar aqui alguns trechos do discurso para vocês, mas é tudo tão bem concatenado, que achei melhor postar na íntegra, abaixo, para quem quiser se deleitar com a leitura boa. Os aplausos vigorosos da plateia da melhor qualidade, ao final do speech, recomendam.

Afinal, lá também estavam os escritores Gilberto Mendonça Telles, Nelson Mello e Souza, Sylvio Lago, Laura Sandroni, Denise Emmer, Marcus Vinicius Quiroga, Godofredo da Silva Telles, Suzana Vargas, Roberto Athayde, Maria Inez Barros de Almeida, Haroldo Costa, a editora Maria Amélia Mello, as atrizes Suzana Faini, Thereza Amayo, Maria Pompeu e Jalusa Barcellos;  o Secretário-Geral da Academia Brasileira de Arte, Victorino Chermont de Miranda, representantes da Funarte, da Sbat, do Instituto Cultural Chiquinha Gonzaga, do Conselho Regional de Administração do Rio de Janeiro, da Academia Luso-Brasileira e da União Brasileira de Escritores.

Com tamanho aval, acredito que vocês lerão, sim, o discurso inteirinho do Fonta.

DISCURSO DE POSSE DE SERGIO FONTA NA ACADEMIA CARIOCA DE LETRAS

Cadeira 14  – Patrono: D. Pedro II  – Sucessão a Ronaldo Rogério de Freitas Mourão

Posse:  Sala Pedro Calmon  –   9 de abril de 2015

Exmo. Sr. Presidente da Academia Carioca de Letras, Ricardo Cravo Albin, ilustres membros que compõem esta Mesa, Srs. Acadêmicos e Acadêmicas que me honram com suas presenças, meus confrades e confreiras da Academia Carioca de Letras, familiares de Ronaldo Rogério de Freitas Mourão, minha mãe, meu irmão, minha família e meus amigos, minhas senhoras e meus senhores, meus colegas do teatro brasileiro – vejo aqui atores e atrizes, autores, críticos, diretores, produtores, cenógrafos, são a minha tribo. Não posso deixar de registrar também a gentileza do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, ao abrir suas portas para esta cerimônia.

E meu agradecimento comovido ao acadêmico, professor, crítico e poeta Antonio Carlos Secchin por sua recepção. Vocês sabem que é uma temeridade falar depois dele, pois seus discursos são sempre brilhantes…

Muito obrigado, Secchin, por suas palavras tão generosas. Igualmente generosos foram aqueles acadêmicos que acolheram na primeira hora a minha candidatura à sucessão de Ronaldo Mourão , plenos de entusiasmo, a incentivar uma caminhada que, em pouco tempo e para minha surpresa, se mostrava viva, estimulante, era um caminho sem volta e promissor, com apoios fortes e solidários vindos de perto e também de longe, a desenhar meus passos de carioca para a Carioca, alguns velhos amigos, outros amigos novos, meus guerreiros e guerreiras – sim, guerreiras, pois elas também estavam lá com suas vozes solidárias e presentes -, a todos e todas que me acolheram com seus votos no início ou no percurso, sempre a minha gratidão.

Mas voltemos nossos olhos para uma outra dimensão. Recordemos os antigos sonhos que envolvem a imaginação de toda criança, quando ouve histórias fantásticas a respeito de mundos que não conhece, habitados por fadas, feiticeiras, reis, príncipes e… magos. Recordemos os contos que começam com aquela frase-chave: “Era uma vez”. Assim eles começavam e assim continuarão pela existência de todos os que ainda estão por vir.

Pois bem…

Senhoras e senhores, era uma vez um telescópio chamado… Alma. Alguns talvez questionem como é possível um telescópio, fabricado pela mão humana, chamar-se alma? No entanto, a verdade é que ele existe e tem o nome de alma, tanto naquele instrumento científico desenhado e projetado pelo homem, quanto naquele homem desenhado e projetado pela vida para descobrir os segredos do universo. O primeiro, aquele de longo alcance, que investiga o céu, teve imenso avanço neste século XXI e um novo modelo foi criado com uma potência nunca vista. Seu nome é mesmo alma, iniciais de Atacama Large Millímeter Array. A-L-M-A. Fica, evidentemente, no deserto de Atacama, no Chile, e é o maior observatório astronômico do mundo, um telescópio de última geração que estuda a radiação produzida por alguns dos objetos mais frios do Universo. No meio interestelar, estes objetos são provenientes de imensas nuvens moleculares com temperaturas de algumas dezenas de graus acima do zero absoluto e também das primeiras e mais longínquas galáxias. Quanta minúcia para encobrir mistérios do Universo… Pois o ALMA os descobre. O nosso Alma também. O nosso telescópio chamado Alma é brasileiro, nascido no Rio de Janeiro, com coração carioca e cabeça nas estrelas. Hoje, mesmo distante da Terra, ele é, foi e continuará sendo chamado de Alma, pois foi com alma que Ronaldo Rogério de Freitas Mourão estudou o Universo. Uma alma repleta de brilhantismo, inteligência e ciência na mais pura essência desta palavra e sobre a qual falaremos em breve. Antes, porém, giremos o telescópio da vida e miremos no túnel do tempo, daqui ao começo de uma Cadeira de no 14, da Academia Carioca de Letras. Quem vemos lá…? O poeta Álvaro Faria, os escritores Paulo Coelho Neto e J. Paulo Medeyros e, meu Deus, um imperador! Ele mesmo, o Imperador D. Pedro II, patrono da Cadeira 14. No entanto, na sutil neblina do passado, ao garimpar o caleidoscópio do tempo, descobrimos o nome de Luis Francisco da Veiga, não lembrado em discursos de posse anteriores, mas, ele, sim, o patrono original da Cadeira 14. Antes de Pedro II. Mais adiante, entenderemos por que. Ao contrário do habitual, quando o empossando fala em ordem cronológica de seus antecessores até chegar à vida e à obra daquele a quem sucede, faremos um pouco diferente. Iniciemos esta rápida viagem, girando o telescópio para trás, um pouco antes de Ronaldo, até chegar à origem de tudo, de seu patrono, e retornar. Álvaro Faria, a quem Ronaldo Mourão sucedeu, além de jornalista, era um trovador. Isso fica bastante claro em alguns livros de sua vasta produção:

Trevo de trovas, a antologia Trovadores brasileiros e um de seus últimos volumes, lançado em 1980, com o simpático título de Troviela. Publica também coletâneas de contos, crônicas, conferências literárias e discursos.

Hoje, que tenho a alegria e o orgulho de ingressar na Academia Carioca de Letras justamente nas comemorações dos 450 anos do Rio de Janeiro, vejo que Álvaro Faria recebeu a Medalha Pereira Passos, comemorativa do 4º Centenário da fundação de nossa cidade, uma feliz coincidência e um vínculo seu com os dias festivos deste 2015 tão carioca.

Álvaro Faria sucede a Paulo Coelho Netto, cujo pai não é outro senão Henrique Maximiliano Coelho Netto, ou, simplesmente, Coelho Netto, autor de obras célebres na literatura e no teatro. Seu filho Paulo, nascido em Campinas, integra uma família de sete irmãos, entre eles João, o popular jogador Preguinho do Fluminense Football Club, e Violeta Coelho Netto, famosa cantora lírica. Deve ser um peso incomum carregar a marca de um pai ícone, seja em que setor for. Coincidência ou não, Paulo só estreia na literatura em 1942, quase dez anos após a morte de Coelho Netto. A partir daí publica perto de 20 livros, inclusive teatro, com a peça Metamorfose. No entanto, é ainda a presença do pai que o cerca. Além de novelas, contos e romances, escreve a biografia documentada de seu pai, os volumes Páginas escolhidas de Coelho Netto e Bibliografia de Coelho Netto. Era um polemista nato e mais uma vez a sombra paterna o envolve, pois no livro Silhuetas, defende a obra de Coelho Netto e ataca seus críticos com unhas e dentes. Escreve muito também sobre o Fluminense, sua paixão, e sobre discos voadores. Foi um dos mais respeitados ufologistas do país.

Paulo Coelho Netto sucede ao escritor J. Paulo Medeyros, ou Paulo de Medeyros, jornalista nascido em Belém, mas radicado no Rio, é um disputado colaborador da imprensa. Nos anos 1920 já escreve para os melhores jornais e revistas. Em seguida, muda-se para São Paulo, mas retorna definitivamente ao Rio após a Revolução de 30. Sem abandonar o jornalismo, transforma-se num bem sucedido contista, cronista, tradutor, historiador, crítico de artes plásticas e de música. Tem grande influência na aproximação Brasil-Argentina com sua tradução de Juan Facundo Quiroga e do primeiro volume da Coleção Brasileira de Autores Argentinos.

Como historiador produz trabalhos de expressão como o volume A missão do General Mitre no Brasil, comemorativo do centenário do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, aqui onde estamos agora, nesta cerimônia de posse. No discurso de saudação a Paulo de Medeyros, seu orador não esconde a emoção quanto ao resgate da figura de Mitre, “para mostrardes, ao fim, aos olhos curiosos do mundo, as mãos honradas de Pedro 2º estreitarem as mãos gloriosas de Mitre, nos salões do Paço de São Cristóvão, na radiosa manhã de 17 de agosto de 1872”. Bem, por um inesperado atalho, chegamos a Pedro II. Mas… um momento: graças aos alfarrábios cujas comportas nos foram abertas, a nosso pedido, pela secretária da Carioca, Maria José, a Peneluc, pinçamos o nome de Luis Francisco da Veiga, o Luis da Veiga, primeiro patrono da Cadeira 14, perdido no limbo do tempo.

Uma parte da explicação está claramente exposta no portal da própria ACL, em sua página na internet. O primeiro nome da Academia Carioca de Letras, fundada em 1926, foi Academia Pedro II e teve sua última sessão pública com este nome três anos depois, no dia 2 de dezembro, quando se comemorava o centésimo quarto aniversário do imperador. A mudança, como conta Othon Costa, presidente no cinqüentenário de fundação da Academia, não teve cunho político e ficou a promessa de preservar a memória do grande monarca dando seu nome para uma das Cadeiras. A escolhida foi, justo, a de no 14. O nome de D. Pedro II legitima qualquer modificação. Mas não se pode colocar Luis da Veiga como alguém que nunca existiu. Segundo Costa, Veiga era uma pessoa de gênio difícil e, trabalhando sob a chefia de Machado de Assis no Ministério da Agricultura, teve uma séria altercação com o genial escritor, insultando-o, fato deplorável. No entanto, faz-se necessário que fiquemos acima da discórdia e ao lado da História. Nascido em 1834 e morto em 1899, o nome de Veiga aparece na oração de saudação feita a Paulo de Medeyros como um jornalista combativo. Veiga escreve também a obra O primeiro reinado e, na Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin, em uma edição de 1863, também aparece seu nome como o autor da introdução ao livro Cartas chilenas, obra atribuída a Tomás Antonio Gonzaga.

A partir deste momento Luis da Veiga encontra seu espaço na memória carioca e, quem sabe, agora sereno, oferece sua cadeira-trono ao monarca que tem uma digna história de vida e reina, para sempre, como patrono de uma Cadeira de no 14.

Não vamos tecer aqui nenhum extenso painel histórico sobre a biografia de D. Pedro II, já por demais conhecida. Vamos nos deter na figura humana, no homem dos livros, no panorama teatral de sua época e na sua paixão pelos… astros. Sim, pelos segredos do céu. Exatamente como Ronaldo Mourão.

É um fardo ser declarado imperador aos cinco anos de idade. Significa perder a infância, possivelmente a adolescência e ser adulto num rosto em que sorrir não é fácil tarefa. Alguém conhece alguma foto ou pintura de D. Pedro II sorrindo? Embora se diga, algumas vezes, que ele esteve no poder durante 58 anos, somadas as datas da abdicação de seu pai, em 1831, até sua deposição, em 1889, é claro que Pedro só assumiu verdadeiramente o império e a liderança por volta dos 21 anos, já mais dono de si mesmo. Mas o sofrimento sombreará sua vida com frequência. Pedro nasce em 1825, sua mãe, a Imperatriz Leopoldina, morre em 1826, seu pai casa-se novamente em 1829, abdica dois anos depois e parte para Portugal. Seu mosaico de perdas não para aí: quando lhe arranjam um casamento com uma princesa europeia que ele sequer conhecia – como era comum nos grandes reinados daquele tempo – para convencê-lo, foi-lhe mostrada uma pintura de Rugendas com a imagem de uma suave e linda jovem. Entusiasmado, Pedro aguarda com ansiedade a Princesa Teresa Cristina de Bourbon-Duas Sicílias, mas, ao vê-la, a tela do artista alemão desprega-se da moldura e cai a seus pés: sua futura esposa era o oposto do que ele vira no quadro. Rugendas talvez tenha sido, sem querer, o precursor do photoshop… Com tutor e aia a dar-lhe educação e estudo noite e dia, a preparação do Príncipe Imperial para Imperador do Brasil foi dura. Em compensação, Pedro é um leitor contumaz, absorve cultura e conhecimento, chega a falar quatorze línguas, entre elas grego, árabe, hebraico, chinês e tupi. Era chamado por José de Alencar de o “Augusto Protetor das Letras” Mas o estigma do sofrimento continua a acompanhar Pedro II: com Teresa Cristina teve cinco filhos, um deles a Princesa Isabel, mas perdeu dois, justamente os homens, o que o deixa arrasado para sempre. Mas eis que entra em sua vida um amor à margem: embora continuasse casado, mantém um relacionamento de trinta anos com Luísa Margarida de Barros Portugal, a Condessa de Barral. Há um livro bastante completo desta personagem concebido pela historiadora Mary Del Priore, recém-eleita para a Academia Carioca de Letras.

Ao começar a exercer o poder, posiciona-se contrário à escravidão, é um monarca discreto, justo e trabalhador, qualidades raríssimas no mercado político de hoje em dia. E mais: procura indicar para cargos políticos figuras de real valor e também combate a corrupção. Não é incrível? Seria hoje matéria para o programa “Fantástico”, da TV Globo… Embora tenha enfrentado importantes conflitos políticos, entre eles a Guerra do Paraguai, é um homem da paz, sabe amar seu povo e sua terra, é extremamente popular e querido. Amante das artes e da ciência, curioso pelas novidades tecnológicas de seu tempo, é o primeiro brasileiro a tirar uma fotografia. Convive com Nietzsche, Victor Hugo, Alexandre Herculano, corresponde-se com Wagner, Pasteur, Graham Bell. Durante seu reinado são criados o Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro e o Colégio Pedro II, ambos vivos e sólidos até hoje. Sempre prestigia também as iniciativas no segmento cênico, estimula o surgimento de vários teatros pelo Brasil, comparece a muitas estréias, frequenta salas também em outras cidades. E também patrocina espetáculos – sem que existisse nenhuma Lei Rouanet – como a peça A confederação dos Tamoios, de Gonçalves Dias, em 1851.

Com a proclamação da República, embora venerado pela população, é deposto sem reação, declarando-se cansado e com uma missão já cumprida. Exila-se primeiro no Tejo e Porto, em Portugal, depois em Paris, onde vive com poucos recursos e morre, aos 66 anos, a 5 de dezembro de 1891. Para 2016 há um atraente projeto de cinema: baseado em escritos do acadêmico José Murilo de Carvalho, o também acadêmico e cineasta

Nelson Pereira dos Santos planeja filmar a vida de D. Pedro II. Vocês já imaginaram que maravilha vai ser isso, com tantos personagens arrebatadores, romances secretos, guerras, golpes, um rei de personalidade singular, com cenas vigorosas ou delicadamente humanas?

Alguns anos antes, ainda reinando no Brasil, D. Pedro II mandou construir um observatório astronômico em São Cristóvão, dirigido pelo cientista Luis Cruls. Muitas vezes durante a noite tomava assento na carruagem real, parava em frente à cúpula do observatório, batia em sua porta e Cruls gritava lá de dentro, interrompendo o trabalho: “- Quem é”? E o imperador respondia com simplicidade e humildemente: “- Luis, aqui é o Pedro…”. Era apenas o Pedro. Em breve, nos melhores cinemas do Brasil.

Giremos novamente e pela última vez este telescópio de longuíssimo alcance, que atravessa a memória, a história e os sentimentos. Posicionemos este instrumento potente num despojado terraço, diante de uma imensa noite clara. Estamos em 25 de maio de 1935, data que marca o nascimento de Ronaldo Mourão. Antes de ser o cientista excepcional, louvado nas mais importantes cátedras do Brasil e da Europa, Mourão, claro, foi criança e nele já moravam a curiosidade e o fascínio por tudo aquilo que transitava pelos céus. Na excelente entrevista realizada, em 2011, pelo escritor e atual presidente do PEN Clube do Brasil, Cláudio Aguiar, para o portal daquela entidade, fica-se sabendo que o pequeno Ronaldo, aos sete anos de idade, a cada novo cometa anunciado, pedia que sua mãe telefonasse para o Observatório Nacional a fim de saber a que horas o cometa apareceria, qual era a sua posição no céu e qual o melhor local para observá-lo . Para Ronaldo Mourão esta vocação sempre foi clara como a via láctea.

Alguns anos após pedir à mãe que ligasse para o Observatório, houve um escritor, conhecido e admirado por todos, na época com um cargo na Casa Civil do então Palácio do Governo, no Catete, que percebeu o diferencial daquele jovem talentoso e resolveu ajudá-lo para uma nomeação como astrônomo-auxiliar do mesmo Observatório. Para isso, este escritor contou com a colaboração de um presidente. Foi assim que o romancista e acadêmico Josué Montello, em 1956, escreveu ao seu amigo Juscelino Kubitschek o seguinte bilhete: “Meu caro Presidente. Este pedido de nomeação de um astrônomo interino sou eu que lhe faço, para ajudar um jovem de dezoito anos que é, no presente, uma das maiores vocações científicas do Brasil. Aos 20 anos, os títulos dele são os da lista em anexo. Vamos amparar esta vocação. O rapaz é pobre – pobre como nós fomos na idade dele. É um pedido que lhe faz o Josué Montello”. Esta foi a única nomeação feita por Juscelino naquele momento. O original deste bilhete, tempos depois, foi dado pelo próprio Montello a Mourão. Quem sabe, um dia, esta pequena preciosidade possa vir a fazer parte do acervo da Academia Carioca de Letras…?

É assim que Ronaldo Mourão pousa de vez no Observatório Nacional, onde, tempos depois, mora até morrer em casa construída especialmente para ele. Ali, no Observatório, inicia seus estudos ligados à astronomia esférica e fundamental, começa a enveredar por suas pesquisas e descobertas até chegar aos primeiros contatos com cientistas europeus e aprofundar os conhecimentos sobre as Estrelas Duplas, que viriam a ser uma de suas marcas registradas.

Fui até lá. Não às estrelas duplas, claro, mas ao Observatório Nacional… Queria sentir a atmosfera onde ele viveu. Fui a São Cristóvão em companhia de Marcelo Bello, o jovem que Ronaldo acolheu como filho, embora tenha tido outros de dois casamentos anteriores. Do final dos anos 1980 para cá, Marcelo foi seu filho de todas as horas, seu secretário, sua companhia em muitos eventos e palestras. E em minha ida ao Observatório, foi o meu guia. Chegamos à vasta área do Observatório que, por pouco, algumas décadas atrás, não foi engolida pela sanha imobiliária que queria transformá-la, em sua maior parte, num imenso condomínio de prédios. Na ocasião, Ronaldo combateu com vigor esta tentativa e venceu ao obter, por decreto oficial, que aquele local era “Patrimônio da Humanidade”. Dentro do terreno do Observatório, vi sua casa, hoje desativada. Ali, do lado de dentro da casa, com uma grande janela, subdivida por basculantes, Ronaldo estudava e escrevia, rodeado por uma imensidão de livros e também de cães, pois gostava de animais. Passeei em torno das inúmeras cúpulas onde, em duas delas, repousam dois telescópios ou, como são chamados por lá, lunetas equatoriais. Na Grande Luneta Equatorial, quase assustadora de tão grande com seus olhos de aço voltados para o céu, Ronaldo pesquisou ininterruptamente, desvendou mistérios, revelou segredos, compartilhou estrelas. Sua presença está em todos os lugares, inclusive no Museu de Astronomia e Ciências Afins, concebido e fundado por Ronaldo em 1985 e que ele fez questão de inaugurar num dia 8 de março para homenagear as mulheres. Em seu interior encontra-se um vitral reproduzindo a figura de “Urânia”, a deusa da Astronomia.

Nos anos 1960 têm início algumas de suas muitas viagens internacionais, já lidando, aqui no Brasil, com as novas tecnologias que iriam incorporar os computadores definitivamente aos cálculos da astronomia. Mas, antes mesmo de se formar, com apenas 17 anos, publica seus primeiros trabalhos na revista Ciência Popular. Posteriormente, recebe os títulos de Bacharel e Licenciado em Física pela Faculdade de Filosofia, Ciência e Letras, da UERJ, e, em 1967, ganha o título de doutor pela Universidade de Paris, com menção “Très Honorables”. Nesta época seus estudos já se concentram nas Estrelas Duplas e em corpos distantes do Sistema Solar.

São incontáveis suas contribuições para a astronomia, em especial no campo das estrelas duplas, dos asteróides, cometas e estudos das técnicas de astrometria fotográfica. Em 1971 descobre uma companheira invisível da estrela dupla visual Aitken 14, confirmada depois por renomados astrônomos europeus. Descobre também diversos asteróides e é o primeiro brasileiro a ter um deles com seu nome: o asteróide 2590, descoberto em 1980, batizado com o nome de Asteróide Mourão.

A partir de seu primeiro livro, seguem-se mais de 100 até o fim de sua vida, uma infinidade de artigos e mais de mil ensaios, o que demonstra sua operosidade, sua energia criativa, sua prodigalidade. Mourão elabora todos os verbetes sobre astronomia e astronáutica do Novo Dicionário da Língua Portuguesa, de Aurélio Buarque de Holanda, e da Enciclopédia Encarta, edição portuguesa da Microsoft, além de coordenar os setores de matemática e astronomia da Enciclopédia Mirador Internacional, publicada pela Enciclopédia Britânica do Brasil. Colabora para revistas e periódicos, entre eles Folha de S. Paulo, Jornal do Brasil, O Globo e o Jornal do Commercio. Trabalha também em rádio e televisão, sempre divulgando tudo que se relacione à Astronomia.

Entre as inúmeras entidades às quais pertenceu, foi membro do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, da Academia Luso-Brasileira de Letras, da Academia Brasileira de Filosofia, membro correspondente da Sociedade Geográfica de Lisboa e, por fim, em março de 2001, da Academia Carioca de Letras, na Cadeira no 14. Ganha inúmeros prêmios, como o Jabuti, na categoria Ensaios, com o livro Astronomia na época dos descobrimentos, e, em 2005, o título “Suprema Honra ao Mérito”, da Universidade Soka, de Tóquio, no Japão. É agraciado com várias comendas, entre elas a Medalha Tiradentes, a Medalha Luis Cruls (aquele de D. Pedro) e a Medalha Austregésilo de Athayde.

Não podemos deixar de ressaltar o intelectual que Mourão foi, além do astrônomo e ensaísta. Para a Revista da Academia Carioca de Letras, escreve diversos trabalhos. No número que comemora os 80 anos da ACL (2006), envia o artigo “A inteligência brasileira e a relatividade de Einstein nos anos 1920” e faz um balanço da pesquisa científica no Brasil desde as primeiras décadas do século XX. No ensaio “Ciência em Balzac”, sua última colaboração para a Revista, em 2013, já na gestão de Nelson Mello e Souza, discorre, em profundidade, sobre Honoré de Balzac.

E Ronaldo Mourão também teve seu “momento Urânia”, a deusa da Astronomia, como já dissemos há pouco, inspirando músicos como Almeida Prado em “Cartas celestes” e Maria Emília Mendonça em “Viagens interplanetárias”, ou poetas como Fernando Py, em “Os anéis de anti-universo”, e o eterno Carlos Drummond de Andrade, no texto “O céu”. Era um apaixonado por Júlio Verne e por poesia, campo em que, muitas vezes, trafega, seja num original de poesias suas que deixou inédito, seja em seu discurso de posse aqui na ACL, quando fez questão de citar poemas de seu antecessor, de Pedro II e de nossa confreira Marita Vinelli, seja em prefácios e apresentações de livros de poetas, como em A equação da noite, da poeta, musicista e astrofísica Denise Emmer– aqui presente -, quando afirma que “(…) poucos poetas, com exceção de Murilo Mendes e Joaquim Cardoso conseguiram em nossa língua esta associação entre o cosmo, a física e a matemática na transmissão de sentimentos às vezes tão abstratos como os próprios conceitos geométricos”. No livro Memórias profissionais de Ronaldo Mourão, em depoimento a Jorge Calife, falando sobre cometas e sobre a fantasia de pegar carona em uma sonda espacial, diz o nosso lírico matemático: “(…) Sobrevoando os mundos azuis de Urano e Netuno, começaríamos a penetrar no frio e na escuridão do espaço interestelar. Em Plutão olharíamos para trás e perceberíamos que o Sol se tornara apenas uma estrela muito brilhante, uma bolinha de luz encolhida, incapaz de nos fornecer qualquer calor. À nossa volta a Via-Láctea desenharia um arco de fosforência pálida, leitosa, marcando os contornos das nuvens de estrelas de nossa galáxia. Nesse ponto teríamos alcançado o nosso destino, o vazio gelado e negro da nuvem de cometas que cerca o nosso sistema solar”. Embora não se dissocie do profissional de astronomia, transparece sempre sua alma de poeta. É sempre o olhar que vem do espaço e se apropria da condição humana.

A verdade é que seria impossível, no âmbito de um discurso, concentrar todas as atividades, conquistas e vitórias da trajetória de Ronaldo Rogério de Freitas Mourão, nem que tivéssemos a força, a consistência e a dimensão de um asteróide…

Alguns talvez possam perguntar em qual esfera nos interligamos, ele, um cientista, um astrônomo, e eu, este escriba saltimbanco que vos fala. Pois, sim, por incrível que possa parecer, nos assemelhamos, com limpidez, em algum ponto luminoso de nossas profissões. Ele, na engenharia do universo, nós, na engenharia do palco, na engrenagem do sonho e de muitos universos, a identificar mistérios, a conviver com astros e estrelas, criadores da palavra e dos atos, de infinitos personagens. Ronaldo Mourão, além do escritor profícuo, era também um grande personagem, não só de sua própria história, mas também da persona que o caracterizava. Haveria alguém mais personagem que o astrônomo Ronaldo, perfeito no tipo sensível, humano, delicado e genuino, com suas suíças, seus cabelos longos e nevados em busca da próxima descoberta? Nós, autores e atores, e também os poetas, sabemos bem o que é isso. Nós, de certa forma, o entendíamos, secreta e docemente, como um mago. Não seria nenhum espanto se, na fantasia dos enredos, o imaginássemos com uma longa capa de cetim às costas, coalhada de pequenas luas, um chapéu em cone e uma vareta nas mãos a reger segredos que, num passe de mágica, se transformariam em mais uma estonteante revelação.

Ajustemos, por fim, o telescópio e foquemos em uma fulgurante estrela nunca vista antes e recém-chegada à luz do céu, desde 25 de julho de 2014. Ajustemos mais ainda o nosso ângulo de visão: agora, sim! Ali está Ronaldo Rogério de Freitas Mourão, de posse real do universo que ele tanto perscrutou, investigou, desvendou e… amou. Ali está ele, finalmente, senhor de seu espaço.

Muito obrigado.

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O novo acadêmico Sergio Fonta entre Nélida Piñon e Camila Amado

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Fonta com Heloísa Vinadé e Antonio Gilberto, diretor de Artes Cênicas da Funarte

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Com a amiga Suzana Faini, da sua “tribo” do teatro

Carioca P S Fonta Abr 2015_0044Haroldo Costa, o historiador Paulo Roberto Pereira e, atrás, os acadêmicos da ABL Arnaldo Niskier e Antonio Carlos Secchin,

Homenagear Nélida Piñon é o must da temporada e motivos para isso não faltam

 Motivos sobravam para celebrar a escritora Nélida Piñon naquela sexta-feira quase tão adorável e iluminada quanto ela. Havia como boa razão o prêmio “El Ojo CríticoIberoamericano”, conferido a Nélida pela Rádio Nacional da Espanha, e outro bom motivo era sua posse na USP, há duas semanas, na Cátedra José Bonifácio, de Estudos Íberoamericanos, sucedendo a Enrique Iglesias.

A casa dos anfitriões da homenagem, Ronald e Henriqueta Levinsohn, extremamente bem cuidada, conserva-se tal e qual quando foi construída e inaugurada, nos anos 70, e este é seu grande charme.

É uma casa datada em sua arquitetura, na decoração, nos jardins, nas obras de arte que a ornamentam. Isso a faz única e lhe agrega valor especial.

Ela inspira histórias, momentos, pessoas que deixaram seus rastros naqueles ambientes de blindex, aço escovado, pedras e madeiras nobres, persas, santos barrocos, artistas brasileiros modernos, do século 19 e abstratos.

Naquele bar com ótimas safras paira a sugestão dos ecos das conversas de personalidades influentes dos últimos 40 anos e do chacoalhar de seus copos on the rocks.

Cenário bem adequado à verve dos talentos literários presentes, que se distribuíam pelas mesas redondas da varanda em torno da residência: Antonio Torres, Domício Proença Filho, Francisco Weffort, Mary Del Priori, Geraldinho Carneiro, Ferreira Gullar, o médico-escritor Almir Ghiaroni.

Editores para publicar tantos nomes, havia Sonia Machado, Carlos Leal, Paulo Rocco, José Mario Pereira.

Jornalistas Christine Ajuz, Augusto Nunes e Roberto D’Ávila.

O ex-ministro Lampreia, das Relações Exteriores. Os cineastas Luiz Carlos Barreto e Paula Barreto. O médico Jair de Castro, o advogado Roberto Halbouti, o pioneiro da televisão brasileira José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o educador Carlos Alberto Serpa, o precursor do merchandising em nossa TV, Jorge Adib.

Gisella Amaral chega toda florida, no momento em que está sendo servido o cozido com vista para o jardim, parecendo projeto de Burle Marx. Henriqueta Levinsohn me conta que ela mesma orienta o jardineiro a bordar orquídeas nos troncos das árvores, “como fazem os porteiros da rua Garcia D’Ávila”. Uma visão que garante o bom humor para o dia inteiro. Henriqueta é uma doce figura. Nélida também é. Não admira os amigos todos terem acorrido tão prontamente atendendo ao convite. Sem recusas.

Levinsohn Francisco Weffort, Helena Severo, Ronald Levinson e Roberto D'AvilaFrancisco Weffort, Helena Severo, Ronald Levinsohn, Roberto D’Ávila

LEvinsohn Henriqueta Levinson e Beth Serpa 1

 Henriqueta Levinsohn e Beth Serpa

Levinsohn Hildegard Angel e Mary Del Priore

 Hildegard Angel e Mary Del Priore.

Levinson Nélida Piñon e Helena Pedrosa

 Nélida Piñon e Helena Pedrosa

Levinson Antonio Torres e Paulo Rocco

 Antonio Torres e Paulo Rocco

Levinson Beatriz Paredes (Emb. México) e Ferreira Gullar

Beatriz Paredes, do México, e Ferreira Gullar

Levinson Almir Ghiaroni, Roberto Halbuti e Mary Del Priore

 Almir Ghiaroni, Roberto Halbouti e Mary Del Priore

LEvinson Domicio Proença Filho e Sonia Machado

Domicio Proença Filho e Sonia Machado

L

Levinsohn e Nélida Piñon chamam para o cozido

Levinson Soraia Cals, Hildegard Angel e Roberto Halbuti

Soraia Cals, Hildegard Angel e Roberto Halbouti

Levinson Beth Lagardère e Carlos Alberto Serpa

 Bethy Lagardère e Carlos Alberto Serpa

Levinson Carlos Leal e Claudia Levinson

 Carlos Leal e Claudia Levinsohn

 Fotos de Marco Rodrigues